Por Machado de Assis (1872)
Alves tirou do bolso uma letra, que ali mesmo encheu, e Coelho assinou trêmulo de raiva.
— Adeus, meu caro sr. Coelho. Ainda havemos de ser amigos.
Coelho não disse palavra.
Alves saiu saltitante e alegre.
A noite do pobre noivo foi atribulada.
O dia seguinte, porém, desfez as más impressões da noite. Sorria-lhe a idéia de que a fortuna mudava enfim. A felicidade foi mais completa; logo de manhã recebeu a visita do Alves, ia dizer-lhe que apenas recebesse os dez contos de réis, receberia as trinta e sete cartas de Lúcia.
A cerimônia do casamento passou-se sem novidade. Todos estavam alegres como é de costume nesses dias. O velho Ypsilanti parecia haver recobrado a pouca alegria que tinha outrora; estava brando como uma cera, esfregando as mãos, piscava os olhos, todo ele era ventura e prazer.
Que direi eu da noiva, que não seja sabido por quantos têm assistido a um casamento? Estava acanhada, modesta, reservada, mas no fundo do seu coração era imensa a alegria.
Não menos feliz estava Coelho. A mulher era positivamente um dragão, mas em compensação era herdeira de um bom par de contos de réis. Este era o principal objeto do amor do rapaz.
Não admira, pois, que todo entregue às delícias do noivado, o nosso Coelho de todo esquecesse o seu singular credor. Correram as semanas sem ele dar por elas. No fim de dois meses, bateu-lhe Alves à porta.
Coelho estremeceu quando o viu entrar.
— Venho para cobrar a letra que me deve, e que se vence amanhã.
— Bem, disse Coelho, venha amanhã.
— A que horas?
— Às dez horas.
— Cá estarei. Passe bem.
— Passe bem.
E saiu Alves.
Coelho correu à casa do sogro.
Explicou-lhe com franqueza que devia pagar uma letra.
Ypsilanti respondeu:
— Não lhe posso dar o dinheiro que me pede.
— Mas, senhor...
— Não lhe posso dar o dinheiro que me pede.
Coelho começou a irritar-se.
— Mas, senhor, esta dívida de honra, fi-la para salvar o decoro do seu nome. E explicou-lhe tudo.
— Céus! exclamou o velho; será verdade isso que me diz?
— Puríssima verdade.
Ypsilanti levantou os braços com desespero:
— Oh! meu Deus! meu Deus!
— Que é?
— Mas eu não tenho dinheiro; não sou rico como o senhor pensa; todos os meus haveres andam por oito contos.
— Ah! exclamou o rapaz petrificado.
Imagina-se o desespero do pobre rapaz quando soube do logro em que caíra. E o logro era talvez o menos; o risco em que se achava com a dívida que contraíra era o pior — sem falar na que fez para montar a casa.
Correu para a casa furioso; a mulher foi a primeira que pagou as favas. Tudo se arranjou entretanto. Alves, sabedor das desgraças de Coelho, pela confissão que este lhe fez, houve por bem perdoar-lhe a dívida.
— Pago com dez contos, disse ele, o risco de que o senhor me livrou. Coelho estava desesperado; julgou ter dado um grande golpe na má sorte financeira, e fora vencido por ela; estava mais pobre que dantes. Ficara-lhe só o amor. Um dia, seis meses depois de casado, e feliz, contou ele à mulher toda a cena da carteira, e perguntou-lhe por que razão o aceitara tão facilmente para marido, sabendo que não era ele o namorado.
Lúcia respondeu ingenuamente:
— Porque você era mais bonito.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quem não quer ser lobo.... 1872. Publicado originalmente em periódico.