Por Machado de Assis (1872)
Daniel respondeu com uma expressão que simulava indiferença; mas, se devo confessar a verdade, não o era. Quando o procurador lhe trouxe a notícia de que havia casa na Rua de Mata-cavalos, o rapaz estimou a notícia e aceitou a casa.
— O fato é, disse Amélia, que ela pensa no senhor.
— Em mim?
— Cuido que sim, porque há dias, indo eu lá, duas vezes me perguntou se estava bom. Quando me perguntou a segunda vez sorri, como há pouco fiz, e ela protestou calorosamente, mas debalde; via-se que era um protesto aparente.
Daniel ouviu atento as palavras de Amélia.
— E que não fosse! disse ele; como eu não vou para lá por causa dela...
— Creio, respondeu Amélia, mas o fogo ao pé da pólvora...
— Eu não sou pólvora, nem fogo...
A conversa ficou aqui. Daniel, daí a dias, estava completamente mudado. A casa de Daniel ficava do lado oposto ao da casa de Augusta, e um pouco distante, mas ainda assim podiam ver-se de uma janela; e ele a viu no primeiro dia, depois, nunca mais a viu. Seria fortuito ou expressivo? Não sabia.
X
No fim de quinze dias, recebeu Daniel um bilhete do tio de Augusta convidando-o a ir passar a noite com ele.
Deveria ir? Sem dúvida que sim. Não queria parecer que se metia à cara da moça. O orgulho lutava nele por dois modos; lutava, retendo-a para não parecer que a adulava; lutava, impelindo-o para lá, a ver se triunfava dela. É difícil que, de uma luta colocada neste terreno, venha bom resultado.
Daniel só pela tarde adiante resolveu ir à casa de Augusta.
Era uma reunião íntima; conversou-se e tocou-se; não se dançou.
O tio de Augusta desejou que Daniel considerasse a casa como sua; que se não prendesse por simples consideração de cerimônias enfadonhas. Posto que Daniel tivesse em pouco a conversa das salas, não por desprezo refletivo, mas por gênio e educação, todavia, não ficava na sombra desde que lhe fosse necessário desempenhar-se como cavalheiro polido. Tinha natural espírito; sua conversa era fácil, brilhante, sem ser profunda, coisa que agrada absolutamente às mulheres. Além disso, o rapaz queria impor-se no espírito da moça; e como fazê-lo senão por meio desses triunfos de eloqüência familiar?
Mas Augusta parecia conhecer todas essas armas e a intenção com que eram manejadas; tratou Daniel como a todos os outros, em perfeito pé de igualdade. Nem lhe concedeu desta vez a distinção do desdém, que tanto agrada a certos caracteres; nivelou o com as demais pessoas.
Numa ocasião, pediu um dos amigos da casa que a moca cantasse a cavatina da Norma, justamente na ocasião em que Daniel, por entabular intimidade, lhe pedia um pedaço de Lúcia.
Colocada entre os dois pedidos, Augusta observou:
— Não posso executar ambas as coisas ao mesmo tempo. Uma há de ser primeira. Qual delas? Resolvam entre si.
Enquanto o sujeito, que pedira a Norma, inclinava-se diante de Daniel, cedendo-lhe a vez, Augusta com ar distraído e indiferente brincava com as tranças de uma amiga que se lhe aproximara e que ia acompanhá-la ao piano.
Arranjara as coisas de modo que, nem mostrava preferência, nem desdém por Daniel, o que aconteceria (pensava ela) se cantasse primeiro ou depois o trecho reclamado pelo rapaz.
Estes e outros incidentes produziram em Daniel o efeito natural; o orgulho foi-se pouco a pouco transformando; quando dali saiu, naquela noite, já se pode dizer que no coração do rapaz rompia a aurora do amor.
E, coisa singular, esse amor não era, como em outros casos, um resultado de simpatia, mas sim antipatia de duas criaturas, que, se se odiassem alguma vez, seriam mortais inimigos.
XI
Mão é minha intenção apresentar Augusta como um caráter excepcional, nem como um espírito superior. Os sentimentos da moça eram, em resumo, os mesmos das outras mulheres. O que a dominava, porém, era uma certa frieza de temperamento que a tornava incompetente para os grandes afetos. Acrescente-se a isto uma tal ou qual vaidade de sua beleza, e aí temos o que era a filha de Madalena.
Educada pela mãe com uma perfeita independência dc espírito, Augusta adquiriu certa aspereza que lhe fazia o caráter antipático. Era imperiosa, altiva, às vezes bondosa, mas bondosa por orgulho, não acreditando muito nem pouco na violência dos sentimentos; o amor para ela era simplesmente uma coisa que ela não compreendia, nem desejava compreender. Parecia-lhe melhor o triunfo numa sala que num coração.
Nem Luís nem Daniel compreendiam isto; a indiferença da moça era apreciada por eles diversamente do que cumpria ser, e daí vinha a esperança de um e o capricho de outro. O verdadeiro triunfo seria abandonar o campo; talvez que o despeito produzisse nela o resultado favorável. Quem sabe? seria talvez a primeira a dar um passo para o esquivo namorado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.