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#Contos#Literatura Brasileira

O último dia de um poeta - Machado de Assis

Por Machado de Assis (1867)

Venâncio recebeu o devedor com o mais amável dos sorrisos nos lábios. Isto animou o desgraçado devedor.

— A que devo a sua visita?

— Não adivinha?

— À dívida?

— É verdade.

— Vem pagá-la? Não havia pressa.

— Não, não venho pagá-la.

— Ah!

Vê-se que este intróito não era dos mais animadores. O tio de Carlota calou-se e mudou de conversa, sendo acompanhado no novo assunto por Venâncio, que se porfiava em ser o mais amável deste mundo.

Depois de meia hora de conversa sobre coisas diferentes, Venâncio voltou bruscamente ao assunto da dívida.

O devedor empalideceu.

Que responder?

Os olhos de Venâncio estavam pregados nele, e quanto mais corriam os minutos, mais vazio se achava o espírito do tio de Carlota.

Enfim, como era preciso responder alguma coisa, o pobre homem disse francamente que não podia pagar, e que nem lhe ocorria o meio para isso.

Venâncio sorriu e respondeu:

— Pois é simples. Há três dias que a fortuna me desampara, e como velho jogador que é, deve saber que ela tem seus caprichos e muitas vezes abandona os antigos aliados para acompanhar outros novos. Talvez que ela hoje esteja do seu lado.

O tio de Carlota estremeceu a esta proposta. A alma do jogador despertou e sentiu-se arrastada para a banca. Ganhar em dois minutos tudo o que perdera, ver-se de um só lance aliviado de uma obrigação e de um peso no espírito, era para o devedor a suprema felicidade.

Não hesitou, senão o tempo necessário ao espanto que lhe causava a proposta, e levantando-se, com as mãos estendidas para Venâncio, declarou-lhe alvoroçado que aceitava.

Tudo se preparou para o duelo fatal.

Diante da mesa em que se ia decidir a sua sorte, o tio de Carlota cobrou novo ânimo. Venâncio estava frio e tranqüilo. Parecia que não jogava dinheiro, e dinheiro avultado. O tio de Carlota acompanhou a partida ansioso e atordoado. Não respirava, com a mão oprimia o coração e com os olhos parecia querer arrancar do baralho a carta feliz... Infeliz! a carta que saiu dava ganho a Venâncio.

O tio de Carlota soltou um grito.

— Quer mais? perguntou friamente Venâncio.

— Não! não!

— Deve-me o dobro.

— Como lhe poderei pagar? Oh! meu Deus!

— Não se aflija, disse o credor. Isto não é sangria desatada; não lhe exijo agora o pagamento; pode pagar amanhã, depois, daqui a um mês... e até...

— E até?

— Até nunca.

— Nunca!

— Nunca.

A estranheza das palavras de Venâncio e o ar frio que ele apresentava fizeram impressão no tio de Carlota.

— Explique-se, disse ele.

— É simples. Há de crer que por muito exigente que eu fosse nunca poria em sérias dificuldades um tio. A um estranho é possível, é até certo, mas a um tio... Ora, nada impede que eu seja seu sobrinho.

O tio de Carlota não compreendeu e não respondeu.

— Não compreendeu? perguntou Venâncio.

— Meu sobrinho, como?

— Não tem uma sobrinha? perguntou Venâncio.

— Ah!

Venâncio expôs demoradamente a sua pretensão. Pediu formalmente a mão de Carlota. O tio hesitou ainda, disse-o ao menos depois à sobrinha, mas este casamento era a sua salvação. Depois, Venâncio tivera o cuidado de convencê-lo de que ele não era indiferente à viúva. Enfim, quando saiu da casa de Venâncio, o tio de Carlota deixou-lhe prometida a mão de sua sobrinha.

Quando esta ouviu de seu tio a proposta de Venâncio, repeliu-a peremptoriamente. Mas o tio, entre as lágrimas da sua conveniência, chegou a convencer a pobre moça de que casar com Venâncio era salvá-lo da desonra. Carlota pediu dilação para refletir. A reflexão foi contrária ao coração. Carlota aceitou a proposta, não sem exprobrar a seu tio a funesta paixão que o seduzira a cometer um ato de aviltamento.

Quanto a Venâncio, ela teve o cuidado de declarar-lhe que impunha uma condição.

— Aceito todas, respondeu Venâncio.

— Faço o sacrifício da minha pessoa, mas exijo ao menos eu não seja mulher de um jogador.

— Juro-lhe que não será.

E não foi. Uma paixão neutralizou outra. Venâncio era dessas naturezas escravas da sensualidade, que estimam as estátuas, não pelo cunho de beleza ideal que elas possam ter, mas pela vista e exuberância das formas exteriores.

XV

Tal foi a história que Carlota me contou.

Quando ela acabou tinha eu o rosto escondido nas mãos; palpitava-me o coração com uma força desusada. Minha consciência restituía à infeliz moça os créditos de elevação moral em que a tinha anteriormente aos tristes acontecimentos de que ela foi vítima. Em vez de um monstro tinha eu diante de mim uma mártir.

— Se esta simples exposição dos fatos, disse-me ela, pode torná-lo à vida, viva; eu lhe peço. Viva por sua mãe e para sua mãe. Se eu ainda o amasse, ou pudesse amá-lo, dir lhe-ia que vivesse por mim.

— Tem razão, respondi eu.

E tomando a mão de Carlota, beijei-lhe respeitosamente. Não era um beijo de amor, era um beijo de gratidão. Depois do que ela me disse eu sentia que voltava à vida.

— Agora, disse ela, adeus.

E saiu.

Minha mãe não a deixou sair sem cobri-la de beijos verdadeiramente maternais.

XVI

26 de Dezembro

São dez horas da manhã.

(continua...)

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