Por Machado de Assis (1891)
D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar sentada, enquanto a imaginação saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que ela,-cousa que o retrato não dava,-e empregado em uma repartição do Ministério da Guerra. Viúvo, com dous filhos, um que estava no batalhão dos menores, outro que era tuberculoso,-doze anos,-condenado à morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher-se, D. Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com um filho; havia de chamar-se AIvaro.
CAPÍTULO CLXXXI
RUBIÃO escutou calado um discurso do major. O casamento era dali a mês e meio; o noivo tinha que perfazer os arranjos da casa, não era capitalista, vivia do ordenado e recorrera a empréstimos. A casa era a mesma e não exigia trastes novos nem ricos; mas há sempre algumas necessidades... Em suma, dali a mês e meio, ou pelo menos, cinco semanas, estariam unidos pelos santos laços do matrimônio.
-E fico eu livre do trambolho, concluiu o major
-Oh! protestou Rubião.
A filha ria-se; estava acostumada às graças do pai, e tão disposta à alegria que nada a vexava; ainda mesmo que o pai se referisse aos seus quarenta anos passados não lhe daria grande golpe. Todas as noivas têm quinze anos.
-Verá como ele há de procurá-la depois, com saudades, disse Rubião a D. Tonica. -Qual! Talvez eu me case também!
Rubião levantou-se repentino, e deu alguns passos; o major não viu a expressão do rosto, não percebeu que o espírito do homem ia talvez descarrilhar, e que ele mesmo o pressentia. Disse-lhe que se sentasse, e contou-lhe os seus tempos de casado e de campanha. Quando chegou à narração da batalha de Monte-Caseros, com as marchas e contramarchas próprias do seu discurso, tinha diante de si Napoleão III. Calado a princípio, Rubião proferiu algumas palavras de aplauso, citou Solferino e Magenta, prometeu ao Siqueira uma condecoração. Pai e filha entreolharam-se; o major disse que vinha muita chuva. Com efeito, escurecera um pouco. Era melhor que Rubião fosse, antes de cair água; não trouxera guarda chuva, o dele era velho e único...
-Aí vem o meu coche, redargüiu Rubião tranqüilamente.
-Não vem, foi esperá-lo no Campo. Não vês daí o coche, Tonica?
D. Tonica fez um gesto vago e sem vontade. Não queria mentir, mas tinha medo, e desejava que Rubião saísse. Da casa era impossível ver o Campo da Aclamação. Já então o pai pegava no Rubião pelo braço e o encaminhava para a porta.
-Volte amanhã, depois, quando quiser.
-Mas por que não hei de esperar aqui até que venha o coche? perguntou Rubião. A imperatriz não pode apanhar chuva...
-A imperatriz já foi.
-Fez mal. Eugênia fez muito mal. General... Para que há de o senhor ficar sempre em major? General, vi o retrato do seu genro; quero dar-lhe o meu. Mande às Tulherias. Onde está o coche?
-Está no Campo, esperando.
- Mande chamá-lo.
D. Tonica, que estava à janela, disse para dentro
-Lá vem Rodrigues.
E tornou a olhar para a rua, inclinando-se, sorrindo, enquanto na sala o pai continuava a guiar o Rubião para a porta, sem violência, mas tenaz. Este parava, repreendia
-General, sou seu imperador!
-Decerto, mas acompanhe-me Vossa Majestade...
Tinham chegado à porta; o major abriu a cancela, justamente quando o Rodrigues punha o pé na soleira. D. Tonica entrou para receber o noivo, mas a porta estava atravancada com o pai e Rubião. Rodrigues tirou o chapéu, mostrando o cabelo, áspero e grisalho; tinha nas faces chupadas umas pintinhas de sarda, mas o riso era bom e humilde,-mais humilde ainda que bom,-e, não obstante a trivialidade do gesto e da pessoa, era agradável. Os olhos não mostravam o espanto da fotografia; este efeito provinha da ênfase que ele pôs em todo o corpo, a fim de que o retrato saísse bonito.
-Este senhor é o meu futuro genro, disse o major a Rubião Não é verdade que viu no Campo um coche e um esquadrão de cavalaria? perguntou ao Rodrigues, piscando um olho.
-Parece que sim, senhor.
-Pois então? continuou Siqueira, voltando-se para Rubião. Vá, vá, dobre a Rua de S. Lourenço, e caminhe direito para o Campo. Adeus, até amanhã.
Rubião desceu três degraus,-eram cinco,-e parou diante do recém-chegado, fitou-o alguns instantes e declarou que estimava muito conhecê-lo, que fosse bom esposo e bom genro. Como se chamava?
-João José Rodrigues.
-Rodrigues. Hei de mandar-lhe uma fitinha aqui para a casaca. É o meu presente de núpcias. Lembre-me, Siqueira.
Siqueira pegou-lhe no braço para fazê-lo descer os dous últimos degraus, e pô-lo na rua.
-No Campo, dizes tu?
-No Campo.
-Adeus.
Da rua, ainda Rubião olhou para as janelas, com os dedos no chapéu, a fim de cumprimentar D. Tonica; mas D. Tonica estava na sala, onde Rodrigues acabava de entrar, fresco e delicioso, como a primeira rosa de verão.
CAPÍTULO CLXXXII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.