Por Machado de Assis (1891)
Quando Rubião voltava do delírio, toda aquela fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciência, onde ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegá-los de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abismo, trepando pelas paredes, arrancando a pele, deixando as unhas, para chegar acima, para não tombar outra vez e perder-se. Ia então à vista dos amigos, uns novos, outros velhos, como a gente do major e a do Camacho, por exemplo.
Este, desde algum tempo, era menos conversado. A mesma política não lhe dava matéria aos discursos de outrora. No escritório, quando via Rubião assomar à porta, fazia um gesto de impaciência, que sofreava logo; o outro notava essa mudança, e perdia-se em conjeturas, se lhe escapara alguma ofensa, por descuido ou se começava a aborrecê-lo. E para desfazer o tédio ou o ressentimento, falava macio, risonho, abrindo longas pausas respeitosas, à espera que ele dissesse qualquer cousa. Em vão apelava para o Marquês de Paraná, cujo retrato continuava a pender da parede; repetia os nomes que lhe ouvira,-o grande marquês! o estadista consumado! Camacho ia apoiando de cabeça, e escrevendo sem parar, consultando os autos e os praxistas, Lobão, Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo lh I desculpa. Tinha um libelo que dar naquele dia. Interrompia-se para ir à estante.
-Com licença...
Rubião arredava as pernas para deixá-lo passar, ele tirava um volume das Ordenações do Reino, e folheava, folheava, pulando adiante, voltando atrás, à toa, sem buscar nada, unicamente para o fim de despedir o importuno- mas o importuno ia ficando, por isso mesmo e entreolhavam-se disfarçados. Camacho tornava ao libelo. Para ler, sentado, inclinava-se muito à esquerda, donde lhe vinha a luz, dando as costas ao Rubião.
-Aqui é escuro, aventurou Rubião um dia.
E não ouviu resposta, tão atento parecia o advogado na leitura dos autos. Realmente, pode ser importunação, pensou o nosso amigo. Espreitava-lhe o rosto duro e sério o gesto com que pegava da pena; para continuar o interminável libelo. Vinte minutos mais de silêncio absoluto. No fim desse prazo, Rubião viu-o deixar a pena, retesar o busto, esticar os braços e passar as mãos pelos olhos. Disse-lhe com interesse
-Cansado, não?
Camacho fez um gesto afirmativo, e preparou-se para continuar; então o nosso homem levantou-se e aproveitou o intervalo para dizer adeus.
-Voltarei, quando estiver menos atarefado.
Estendeu-lhe a mão; Camacho segurou-lha ao de leve, e tornou ao papel. Rubião desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu ilustre amigo. Que lhe teria feito?
CAPÍTULO CLXXX
DAQUELA VEZ, teve a fortuna de encontrar o Major Siqueira.
-Ia agora mesmo à sua casa, disse-lhe; vai para lá?
-Vou; mas já não estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros, Rua da Princesa...
-Seja onde for, vamos.
Rubião precisava de um pedaço de corda que o atasse à realidade porque o espírito sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, falou com tal acerto e propriedade, que o major o achou em pleno juízo, e disse-lhe
-Sabe que tenho uma grande notícia que lhe dar?
-Vamos a ela.
-Há de ser quando chegarmos.
Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veio abrir-lhes a cancela. Trazia um vestido novo e brincos.
-Olhe bem para ela, disse o major pegando na filha pelo queixo
D. Tonica recuou envergonhada.
-Estou olhando, respondeu Rubião.
-Não se vê logo que é uma pessoa que vai casar?
-Ah! parabéns!
-É verdade, vai casar. Custou, mas acertou. Achou por aí um noivo, que a adora, como todos eles; eu, quando fui novo, adorei a minha defunta, que foi uma cousa nunca vista... Vai casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa séria, meia-idade; vem aqui passar as noites. De manhã, quando passa para a repartição, creio que bate na janela, ou ela já o espera; eu finjo que não percebo. . .
D. Tonica dizia com a cabeça que não, mas sorrindo de modo que parecia dizer que sim. Estava tão buliçosa! Nem se lembrava já que requestara o Rubião, que este fora uma das últimas, e por fim a última das suas esperanças. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi à janela, voltou, cabeça alta, andando à toa, reconciliada com a vida.
-Boa pessoa, repetiu o major, boa criatura... Tonica, vai buscar o retrato. . . Anda, vai buscar o teu noivo. . .
D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma fotografia- representava um homem de meia idade, cabelo curto, raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoço fino e paletó abotoado
-Que lhe parece?
-Muito bem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.