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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

Teófilo abriu a carta, com a mão trêmula. Que podia ser? Tinha lido nos jornais a relação dos novos ministros; o gabinete estava completo. Não havia divergência de nomes. Que podia ser? D. Fernanda, defronte do marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da carta. Via uma claridade; percebeu que a boca sofreava um sorriso de satisfação,-de esperança, ao menos.

-Diga que espere, ordenou Teófilo ao criado.

Foi ao gabinete, e tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se à mesa, calado, dando tempo a que o criado entregasse a carta à ordenança. Desta vez, como estava prevenido, ouviu as patas do cavalo, e logo depois a galope, rua fora e sentiu-se bem.

-Lê, disse ele

D. Fernanda leu a carta do presidente do conselho; era um pedido para ir falar-lhe às duas horas da tarde.

-Mas então o ministério...?

-Está completo, deu-se pressa em dizer o deputado; os ministros estão nomeados.

Não acreditava de todo o que dizia. Imaginava alguma vaga da última hora, e a necessidade urgente de a preencher.

-Há de ser alguma conferência política, ou talvez queira cor versar sobre o orçamento,- ou incumbir-me algum estudo.

Dizendo isto, para iludir a mulher, sentiu a probabilidade das hipóteses, e outra vez se abateu; mas três minutos depois, as borboletas da esperança volteavam diante dele, não duas, nem quatro, mas um turbilhão, que cegava o ar.

CAPÍTULO CLXXVII

D. FERNANDA esperou, cheia de ânsias, como se o ministério fosse para ela, e lhe viesse dar qualquer gosto, que não fosse amargo e complicado. Uma vez, porém, que satisfizesse o marido, tudo iria pelo melhor. Teófilo tornou às cinco horas e meia. Pelo aspecto reconheceu que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mãos.

- Que há?

- Pobre Nanã! Aí vamos com a trouxa às costas. O marquês pediu-me instantemente que aceitasse uma presidência de primeira ordem. Não podendo meter-me no gabinete, onde tinha lugar marcado desejava, queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade política e administrativa do governo, assumindo uma presidência Não podia, em nenhum caso, dispensar o meu prestígio (são palavras dele), e espera que na Câmara assuma o lugar de chefe de maioria. Que dizes?

- Que arranjemos a trouxa, respondeu D. Fernanda.

-Achas que podia recusar?

-Não.

-Não podia. Você sabe, não se podem negar serviços destes a um governo amigo; ou então deixa-se a política. Tratou-me muito bem o marquês; eu já sabia que era homem superior; mas que risonho e afável! não imaginas. Quer também que compareça a uma reunião, os ministros e alguns amigos, poucos, meia dúzia. Confiou-me já o programa do gabinete, em reserva...

-Quando saímos?

-Não sei; hei de estar com ele amanhã, à noite. A reunião é amanhã às oito horas. . . Mas não te parece que fiz bem, aceitando?

-Decerto.

-Sim, se recusasse censurar-me-iam, e com razão. Em política a primeira cousa que se perde é a liberdade. Agora você que se quisesse, podia ficar; daqui a cinco meses,-ou quatro, abrem-se as câmaras; mal terei tempo de chegar e olhar.

CAPÍTULO CLXXVIII

D. FERNANDA anuiu à proposta; não interrompia a educação do filho; era uma separação de quatro meses. Teófilo partiu daí a dias. Na manhã do dia do embarque, logo cedo, foi despedir-se do gabinete de trabalho. Deitou os últimos olhos aos livros, relatórios, orçamentos, manuscritos, a toda essa parte da família, que só tinha língua interesse para ele. Havia atado os papéis e os folhetos para que se não extraviassem e fez à mulher grandes recomendações. Parado no centro, circulou a vista pelas estantes, e dispersou a alma por todas elas. Despedia-se assim dos seus santos e amigos, com verdadeiras saudades. D. Fernanda, que estava ao pé dele, não viveu ali mais que os dez minutos da despedida. Teófilo viveu muitos anos.

-Deixa estar, eu cuidarei deles, eu mesma os espanarei todos os dias.

Teófilo deu-lhe um beijo... Outra mulher recebê-lo-ia triste, por ver que ele amava tanto os livros que parecia amá-los mais que a ela, Mas D. Fernanda sentiu-se venturosa.

CAPÍTULO CLXXIX

RUBIÃO, desde o dia da crise ministerial, não tornou a casa de D. Fernanda; nada soube, nem da presidência, nem do embarque de Teófilo. Vivia entre o cão e um criado, sem grandes crises, nem longos repousos. O criado fazia o serviço irregularmente, comia gratificações, e recebia, amiúde, o título de marquês. Ao demais, divertia-se. Quando lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o criado corria a espiá-lo; assistia ao diálogo, porque o Rubião incumbia-se das palavras delas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite, ia à palestra com os amigos da vizinhança.

-Como vai o gira?

-O gira vai bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro ladrou muito, e ele gostou que se pelou, mas assim um gosto de figurão. Ele, quando está de pancada, parece que é como quem governa o mundo. Ainda ontem, almoçando, disse para mim"Marquês Raimundo... quero que tu..." e embrulhou o resto, que não entendi nada. No fim deu-me dez tostões.

-Você guardou logo…

-Ora!

(continua...)

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