Por Machado de Assis (1891)
Calou-se. Depois de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava ao pé do quarto; a mulher acompanhou-o. Era já escuro, acendeu o bico de gás, e circulou pelo gabinete os olhos velados de melancolia. Havia ali quatro largas estantes cheias de livros, de relatórios, de orçamentos, de balanços do Tesouro. A secretária estava em ordem. Três armários altos, sem portas, guardavam os manuscritos, notas, lembranças, cálculos, apontamentos, tudo empilhado e rotulado metodicamente;-créditos extraordinários, créditos suplementares,-créditos de guerra,-créditos de marinha, -empréstimos de 1868,-estradas de ferro,-dívida interna, exercício de 61-62, de 62-63, de 63-64, etc. Era ali que trabalhava de manhã e de noite, somando, calculando, recolhendo o elementos dos seus discursos e pareceres, porque era membro de três comissões parlamentares, e trabalhava geralmente por si e pelos seis colegas; estes ouviam e assinavam. Um deles, quando os pareceres eram extensos, assinava-os sem ouvir.
-Homem, você é mestre e basta, dizia-lhe, dê cá a pena.
Tudo ali respirava atenção, cuidado, trabalho assíduo, meticuloso e útil. Da parede, em ganchos, pendiam os jornais da semana, que eram depois tirados, guardados e finalmente encadernados semestralmente, para consultas. Os discursos do deputado, impressos e brochados em 4.°, enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto, adereço, nada para recrear, nada para admirar;-tudo seco, exato, administrativo.
-De que vale tudo isto? perguntou Teófilo à mulher, após alguns instantes de contemplação triste. Horas cansadas, longas horas da noite até madrugada, às vezes. . . Não se dirá que este gabinete é de homem vadio; aqui trabalha-se. Você testemunha que eu trabalho. Tudo para quê?
-Consola-te trabalhando, murmurou ela.
Ele, acerbo
-Ruim consolação! Não, não, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha, na Câmara, todos me consultam, até os ministros- porque sabem que eu aplico-me deveras às cousas da administração. Que prêmio? Vir para cá, em maio, aplaudir os novos senhores? -Pois não aplaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obséquio? Vamos à Europa, em março ou abril, e voltemos daqui a um ano. Pede licença à Câmara, donde quer que estejamos,-de Varsóvia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsóvia, continuou sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda que é para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o vapor sai amanhã. Está dito; vamos a Varsóvia?
-Não brinques, Nanã, que isto não é objeto de brincadeira
-Falo seriamente. Já há muito tempo que ando para propor a você uma viagem, a ver se descansa desta papelada infernal. É demais, Teófilo! Você mal se pode arranjar para uma visita. Passeio, é raro. Quase não conversa. Os nossos filhos apenas vêem seu pai porque aqui não se entra quando você trabalha. . .É preciso descansar; peço-lhe um ano de repouso. Olhe que sério. Vamos para a Europa em março.
-Não pode ser, balbuciou ele.
-Por que não?
Não podia ser. Era convidá-lo a sair da própria pele. Política valia tudo. Que também houvesse política lá fora, sim; mas que tinha ele com ela? Teófilo não sabia nada do que ia por fora, exceto a nossa dívida em Londres, e meia dúzia de economistas. Contudo, agradeceu à mulher a intenção da proposta
-Tu és boa.
E um sentimento vago de esperança restituía à voz do deputado a brandura que perdera naquela grande crise moral. Os papéis sopravam-lhe animo. Toda aquela massa de estudos aparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia. mais tarde ou mais cedo, o grelo brotaria e a árvore daria frutos. Era justamente o que a mulher havia dito por outras palavras diretas e próprias; mas só agora é que ele via a possibilidade da colheita. Lembrou-se das explosões de cólera, de indignação, de desespero, das queixas de há pouco, ficou vexado. Quis rir, fê-lo mal. Ao jantar e ao café entreteve-se com os filhos, que naquela noite recolheram-se mais tarde. Nuno, que já andava no colégio, onde ouvira falar da mudança de gabinete, disse ao pai que queria ser ministro. Teófilo ficou sério.
-Meu filho, disse ele, escolhe outra cousa, menos ministro.
-Diz que é bonito, papai; diz que anda de carro com soldado atrás.
-Pois eu te dou um carro.
-Papai já foi ministro?
Teófilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a ocasião para mandar deitar os filhos.
-Já, já fui ministro, respondeu o pai beijando a testa ao Nuno; mas não quero mais, é muito feio, dá trabalho. Tu hás de ser capelão.
-Que é capelão?
-Capelão é cama, respondeu D. Fernanda; vai dormir, Nuno.
CAPÍTULO CLXXVI
Ao Almoço, no dia seguinte, Teófilo recebeu uma carta por uma ordenança. -Ordenança?
-Sim, senhor, diz que vem da parte do Sr. presidente do conselho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.