Por Machado de Assis (1891)
Rubião entrou, estendeu-lhes a mão, que eles receberam sem carinho, disse muitas frases de admiração e louvor a Maria Benedita, ela tão galante, ele tão galhardo; notou que ambos tivessem o nome de Maria, espécie de predestinação, e acabou noticiando a queda do ministério.
-Caiu o ministério? perguntou involuntariamente Carlos Maria.
-Não se fala em outra cousa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir licença, já que não me oferecem cadeira, continuou ele, sentando-se, tirando a bengala que trazia debaixo do braço e firmando as mãos sobre ela. Pois é verdade, o ministério pediu demissão. Vou organizar outro. Há de entrar o Palha, o nosso Palha,-seu primo Palha, e o senhor também, se lhe dá gosto, será ministro. Preciso de um bom gabinete, todo gente amiga, e forte, capaz de dar a vida por mim. Hei de chamar o Morny, o Pio, o Camacho, o Rouher, o Major Siqueira. A senhora lembra-se do major? Creio que fica com a guerra; não conheço homem mais apto para os negócios militares.
Maria Benedita, aborrecida e impaciente, andava pela sala, à espera que o marido mandasse alguma cousa; este disse-lhe com os olhos que se fosse embora; ela não aguardou outro gesto, pediu licença ao hóspede e retirou-se. Rubião, depois que ela saiu, elogiou-a novamente,-uma flor, disse ele; e emendou-se rindoduas flores creio que há ali duas flores. Nosso Senhor as abençoe! Carlos Maria estendeu-lhe a mão em ar de despedida.
-Meu caro senhor...
-Posso incluí-lo no ministério? perguntou Rubião.
Não ouvindo resposta, entendeu que sim e prometeu-lhe uma boa pasta. O major iria para a guerra, e o Camacho para a justiça. Não os conhecia acaso? "Dous grandes homens, Camacho ainda maior que o outro". E obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na direção da porta, Rubião retirava-se sem se sentir; mas não foi tão pronto. Na varanda, antes de descer os degraus, referiu vários fatos da guerra. Por exemplo, tinha restituído a Alemanha aos alemães; era bonito e político. Já havia dado Veneza aos italianos. Não precisava mais território; as províncias do Reno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.
-Meu caro senhor... insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mão.
Despediu-o e fechou a porta; Rubião proferiu ainda algumas palavras e desceu os degraus. Maria Benedita, que os espreitava do fundo veio ter com o marido, reteve-o pela mão, e ficou a ver o Rubião que atravessava o jardim. Não ia direito, nem apressado, nem calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho seco, vendo mil cousas no ar, mais galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono. Da vidraça miravam o nosso amigo, e, em certo lance grotesco Maria Benedita não pôde suster o riso; Carlos Maria, porém, olhava plácido.
CAPÍTULO CLXXII
-MAS SE A QUEDA do ministério é verdadeira. disse ela, sabe você quem está ministro?
-Quem? perguntou Carlos Maria com os olhos.
-Seu primo Teófilo. Nanã contou-me que ele andava com suas esperanças, e foi por isso que ficou este ano na Corte. Desconfiou, ou já se falava na saída do ministério; talvez desconfiasse. Não me lembra bem o que ela me disse; mas parece que entra.
-Pode ser.
-Olha, lá vai Rubião; parou, está olhando para cima, espera talvez a diligência ou o carro. Ele tinha carro. Lá vai andando...
CAPÍTULO CLXXIII
-Com que, O Teófilo está ministro! exclamou Carlos Maria.
E, depois de um instante
-Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me também ministro? -Se você gostasse, que remédio?
-De maneira que, por teu voto, não o era? perguntou Carlos Maria.
-Que hei de responder? pensou ela, escrutando o rosto do marido.
Ele, rindo
-Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de ministro. -Justamente! exclamou a moça, lançando-lhe os braços aos ombros.
Carlos Maria afagou-lhe os cabelos, e murmurou sério-Bernadotte foi rei, e Bonaparte imperador. Você queria ser a rainha-mãe da Suécia?
Maria Benedita não entendeu a pergunta nem ele a explicou. Para explicá-la seria mister dizer que possivelmente trazia ela no seio um Bernadotte; mas esta suposição significava um desejo, e o desejo uma confissão de inferioridade. Carlos Maria espalmou outra vez sobre a cabeça da mulher, com um gesto que parecia dizer tu escolheste a melhor parte..." E ela pareceu entender o sentido daquele gesto.
-Sim! sim!
O marido sorriu e tornou à revista inglesa. Ela, encostada à trona, passava-lhe os dedos pelos cabelos, muito ao de leve e caladinha para não perturbá-lo. Ele ia lendo, lendo, lendo. Maria Benedita foi atenuando a carícia, retirando os dedos aos poucos, até que saiu da sala, onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charlen Little, M.P., sobre a famosa estatueta de Narciso, do Museu de Nápoles.
CAPÍTULO CLXXIV
QUANDO RUBIÃO foi à casa de D. Fernanda, à tardinha, ouviu do criado que não podia subir. A senhora estava incomodada; o senhor estava com ela; parece que esperavam o médico. O nosso amigo não teimou, e retirou-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.