Por Gregório de Matos (1696)
Fábio: essa bizarria,
essa flor, donaire, e gala,
mui mal empregada está
em uma cara caraça.
Sobre ser caraça o rosto,
dizem, que a dita Mulata
de mui dura, e rebatida
tem já o couro couraça.
Item que está muito podre,
e não escusa esta Páscoa
para secar os humores
fazer da salsa salsada.
Não me espanto, que nascessem
tais efeitos de tal causa,
que de Mulata sai mula,
como de mula Mulata.
Um dia dizeis, que é íngua,
no outro, que não é nada,
e eu digo, se não for mula,
que será burra burrada.
Mas direi por vossa honra,
que é quebradura sem falta,
que de cantar, e bailar
mil vezes o talo estala.
Ponde de contra-rutura
umparche na parte inchada
comfunda, porque a saúde
fique na funda fundada.
A FRANCISCO PEREYRA DE AZEVEDO NASCENDO-LHE UM NETO NA MESMA
HORA, EM QUE LHE MORREO UMA NETA.
Até vir a manhã serena, e pura
A estrela-d'alva está resplandecente,
Mas quanto o sol se mostra mais Luzente,
Tanto ela se retira mais escura.
Enfim rompe do sol a formosura
As frias nuvens desfazendo ardente,
Quando se vê nascido no Oriente,
Então morta se vê na sepultura.
No céu de vossa casa Luminoso
Mariana assistiu estrela bela,
Até nascer-lhe de Pero o sol formoso:
E se o Sol se vê nele, e a estrela nela,
Sendo nascido o Sol, era forçoso,
Que se havia de ser defunta a estrela.
CHICA OU FRANCISCA HUMA DESENGRAÇADA CRIOLLA, QUE CONVERSAVA
COM O POETA E SE ARRIPIAVA TODA ZELOSA DE Ò VER CONVERSAR COM
MARIA JOÃO, NO MESMO TEMPO, EM QUE ELLA NÃO FAZIA ESCRUPULO DE
ADMITIR HUM MULATO.
1 Estais dada a Berzabu,
Chica, e não tendes razão,
sofrei-me Maria João,
pois eu vos sofro a Mungu:
vós dais ao rabo, e ao cu,
eu dou ao cu, e ao rabo,
vós com um Negro, um diabo,
eu com uma Negrinha brava,
pois fique fava por fava,
e quiabo por quiabo.
2 Vós heis de achar-me escorrido,
não vo-lo posso negar,
eu também o hei de achar
remolhado, e rebatido
assim é igual o partido,
e mesmíssima a razão,
porque quando o vosso cão
dorme co'a minha cadela,
que fique ela por ela,
diz um português rifão.
3 Vós dizeis-me irada e ingrata,
co'a mão na barguilha posta
"eu me verei bem disposta!"
e eu digo-vos: "Quien se mata?"
eu vou-me à putinha grata,
e descarrego o culhão,
vós ides ao vosso cão,
e regalais o pasmado,
leve ao diabo enganado,
e andemos co'a procissão.
4 Chica, fazei-me justiça,
e não vo-la faça eu só,
eu vos deixo o vosso có,
vós deixai-me a minha piça:
e se o demo vos atiça
mamar numa e noutra teta,
pica branca, e pica preta,
eu também por me fartar
quero esta pica trilhar
numa greta, e noutra greta.
5 Dizem, que o ano passado
mantínheis dez fodilhões
branco um, nove canzarrões,
o branco era o dizimado,
o branco era o escornado,
por ter pouco, e brando nabo;
hoje o vosso sujo rabo
me quer a mim dizimar,
que não hei de suportar
ser dízimo do diabo.
6 Chica, dormi-vos por lá,
tendo de negros um cento,
que o pau branco é corticento
e o negro é jacarandá:
e deixai-me andar por cá
entre as negras do meu jeito,
mas perdendo-me o respeito,
se o vosso guardar quereis,
contra o direito obrareis,
sendo amiga do direito.
7 Sois puta de entranha dura,
e inda que amiga do alho
sois uma arranha-caralho
sem carinho, nem brandura:
dou ao demo a puta escura,
que estando a todas exposta,
não faz festa ao de que gosta;
dou ao demo o quies vel qui,
e não para quem a encosta.
8 Quem não afaga o sendeiro,
de que gosta, e bem lhe sabe,
vá-se dormir cuma trave,
e esfregue-se cum coqueiro:
seja o cono presenteiro,
faça o mimo o agasalho
ao membro, que lhe dá o alho,
e se de carinho é escassa,
ou vá se enforcar, ou faça
do seu dedo o seu caralho.
ENFURECIDO O POETA DAQUELLES CIUMES DESCOMPOSTOS LHE FAZ ESTA
HORRENDA ANATOMIA.
Vá de aparelho,
vá de painel,
venha um pincel
retratarei a Chica
e seu besbelho.
É pois o caso
que a arte obriga,
que pinte a espiga
da urtiga primeiro
e logo o vaso.
A negra testa
de cuiambuca
a põe tão cuca,
que testa nasce, e em cuia
desembesta.
Os dous olhinhos
com ser pequenos
são dois venenos,
não do mesmo tamanho
maiorzinhos.
Nariz de preta
de cocras posto,
que pelo rosto
anda sempre buscando
onde se meta.
Boca sacada
com tal largura,
que a dentadura
passeia por ali
desencalmada.
Barbinha aguda
como sovela,
não temo a ela,
mas hei medo à barba:
Deus me acuda.
Pescoço longo,
socó com saia,
a quem dão vaia
negros, com quem se farta
de mondongo.
Tenho chegado
ao meu feitio
do corpo esguio,
chato de embigo,
erguido a cada lado.
Peito lazeira
tão derribado,
que é retratado
ao peito espaldar
debaixo da viseira.
Junto as cavernas
tem as perninhas
tão delgadinhas,
não sei, como se tem
naquelas pernas.
Cada pé junto
forma a peanha,
onde se amanha
a estátua do pernil,
e do presunto.
Anca de vaca
mui derribada,
mais cavalgada,
que sela de rocim,
charel de faca.
Puta canalha,
torpe, e mal feita,
a quem se ajeita
uma estátua de trapo
cheia de palha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.