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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Pança farta e pé dormente

Por Gregório de Matos (1696)

11
Ninguém com Marta Soares
quer trocar odre por odre,
porque de podre, e mais podre
não há distinção de azares:
os copos de vinho a pares
e aos nones a água bebia,
que Deus para ela não cria
água de rios, nem fontes,
e havendo de andar por pontes,
pelas de vinho andaria.

12
Vem Luzia sacrifício
Juíza de refestela
Agrela, que já não grela,
por ser puta d'abinitio
deu um jantar, que era vício
rodava o Santos licor,
e a negra serva do amor
gritava com saia verde,
aqui-d'El-Rei, que se perde
a roupa de meu Senhor.

13
Assim pois se embebedaram
a Mestiça, e a Mulata,
todos tomaram a gata,
só as Gatas não tomaram:
bem fizeram, bem andararn
em não irem à função:
porque se me caem na mão,
(como as outras que beberam)
então viram, e souberam
que sou para um gato, um cão.

14
A Gaguinha celebrada
se afastou desta folia,
dizendo que não queria
com Marinículas nada:
entendida, e engraçada
respondeu, por vida minha,
por saber que não convinha,
que a vinhaça moscatel
graduasse em Bacharel
quem fora sempre Gaguinha.

15
Inácia, chamada Ilhoa
para cada beiçarrão
não bastava um canjirão
com sopas de pão, e broa:
bebeu vinho de Lisboa,
bebeu do Porto, e Canárias,
e vendo, que em copas várias
outras o bebem do Beja,
disse picada de inveja,
ó Virgem das Candelárias!

16
A Surda, que gaga é,
escutando estas plegárias
da Virgem das Candelárias,
chamou a de Nazaré:
que licor é este, que
converte esta mulatinha?
bendita seja esta vinha,
que deu tão santo licor,
que para dar-lhe o louvor
se esgotou a ladainha.

17
Acabado o tal banquete
sem mais, nem mais dilação
foi-se um, e outro putão,
atrás do seu pontalete:
deixararn saia, e traquete,
dentro na casa fechada;
e lá pela madrugada,
veio a negra da Juíza
e não achando a camisa
gritou que estava roubada.

18
Voto solene fizeram
ouvindo da negra os brados
dizendo foram pecados,
que na festa cometeram:
porque a virgem a quem disseram,
que aquela festa faziam,
lhe ouviram, quando bebiam
dizer a senhora então;
que não se servia, não,
do modo com que serviam.

19
Elas já em seu juízo
(se de seu juízo têm)
dizem, que o ano que vem
haverá festa de siso:
que hão de olhar seu perjuízo,
sua honra, e opinião;
de putaria, isso não,
mas, eu por certas seqüelas
não me ficarei mais nelas
nem na sua devoção.

DESCREVE O POETA AS FESTAS DE CAVALLO QUE SE FIZERAM NO TERREYRO EM LOUVOR DAS ONZE MIL VIRGENS, SENDO ESCRIVÃO EUZEBIO DA COSTA REYMÃO FILHO DE MARIA REYMOA; EM QUE ASSISTIRAM ESTES DOUS PRINCIPES PAY, E FILHO COM O MAYOR DA NOBREZA NO COLLEGIO DE JESUS.

1
Clóris, nas festas passadas
que às virgens são prometidas
houve quadrilhas corridas
parentas de envergonhadas:
porém estas realçadas
vi neste ano derradeiro:
pois na esfera do Terreiro
aparecia um Brandão,
que correndo exalação,
acabava cavaleiro.

2
Com estas aparições
de cometas tão luzidos,
nos mirões espavoridos
eram tudo admirações:
em máximas conjunções
de ouro, de prata, e de cores,
notei que os Festejadores
faziam com graças sumas
no ar um jardim de plumas,
e na terra um mar de flores.

3
Sua Excelência assistia,
o Conde, e toda a Nobreza,
e os padres por natureza
lhes faziam companhia:
estava sereno o dia,
a esfera toda anilada,
a água do mar estanhada,
brando o vento e lisonjeiro,
e contudo no Terreiro
houve muita carneirada.

4
Enfim a festa passada
tão cheia de cavaleiros,
se a fizeram dois Barbeiros,
não seria mais sangrada:
ali vi dar cutilada,
que todo o vento dissipa,
do bruto, que a participa,
e eu disse, pasmado e absorto,
que a catana era do Porto,
por rilhar sempre na tripa.

5
Logo e da primeira entrada
houve jogo de manilha,
que para isso a quadrilha
pêlo lindo era pintada:
quem lhe dava uma encontrada,
tudo então nos agradava,
pois conforme ouvi julgar
ali entre dar, e levar
pouca vantagem se dava.

6
Cada qual sem mais tardança,
à dama a quem mais se aplica,
levou na ponta da pica,
o que ganhou pela lança:
até o Padre Hortolança,
digo, o Cônego Gonçalo,
se logrou deste regalo:
eu só na baralha ingrata,
não vi manilha de prata,
que na de ouros já não falo.

7
Ao Marinho generoso
o dia franco, e escasso
concedeu-lhe o Galanaço
recatando-lhe o ditoso:
e visto que por airoso
é o Adônis da quadrilha
Zundu se lhe rende, e humilha,
dando-lhe (porque o conforte)
no cravo a primeira sorte,
a segunda na manilha.

8
Barreto alheio do susto,
que não implica amostrado
nem ao forte o asseado,
nem ao galante o robusto:
luzimento a pouco custo,
bom ar sem afetação,
foi julgado, em conclusão,
que a destreza o não desvela,
pois sem cuidado na sela,
caía no capressão.

9
Muito Eusébio se desvela
em correr mais que ninguém,
e por correr sempre bem
nunca se assentou na sela:
como há de sentar-se nela,
se correr só pertendia
tão propriamente o fazia,
que se assentar, e correr
não podem juntos caber,
não se assentava, corria.

(continua...)

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