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#Contos#Literatura Brasileira

Rui de Leão

Por Machado de Assis (1872)

- É um santo! - diziam outros.

Entretanto o ex-enforcado procurou tranquilamente cousa que comesse e cama em que dormisse.

IV

O desenleio maravilhoso e misterioso deste acontecimento assustou o pai de D. Madalena. A superstição foi grande arma em favor de Rui de Leão, que alguns dias depois ousou apresentar-se em casa da moça e pedi-la em casamento. A leitora aplaude já a recusa de Madalena. Madalena aceitou. Previamente perdoado do crime cometido, Rui de Leão casou com Madalena, e confiou que ao menos teria durante alguns anos uma vida feliz; até que de novo o tomasse o tédio da vida. Entretanto, D. Martim, descontente com o desenlace do caso, explicou a seu modo a ressurreição do rival.

- Foi naturalmente - dizia ele, a um oficial - foi naturalmente acorde entre o réu e o carrasco. Deu-lhe este um laço fraco, e o homem pôde ressuscitar...

- Mas se eu vi o contrário - respondia o oficial.

- Viu mal...

Jurou D. Martim vingar-se de Rui. Como?

Cogitou um meio seguro; estreitou relações com o marido de Madalena. Era para ele grandíssima dor e profundíssimo despeito ver o rival feliz ao lado daquela a quem ele amava apesar de tudo. Mas o ciúme suporta tudo. Quando julgou que as relações estivessem firmadas entre ambos e banido do ânimo de Rui qualquer suspeita contra ele, D. Martim tratou de comprar um dos criados do rival e a poder de patacões conseguiu que o criado se prestasse ao crime.

Costumava Rui tomar uma xícara de chá uma hora depois do jantar. Uma tarde, achando-se todos três na sala, achou-se Rui afrontado; tinha comido muito e a digestão era laboriosa.

- Que sentes mais? - perguntou Madalena.

- Nada mais. Eu já sei qual é o remédio; mande vir o chá mais cedo.

Deu ordem, e o criado trouxe a xícara de chá. D. Martim olhou para o criado, e este fez-lhe sinal de que o veneno estava dentro. Quem olhasse então para D. Martim veria a expressão de triunfo que lhe transluzia no rosto.

- Enfim - disse ele consigo.

Rui tomou tranquilamente o chá, conversou pouco, estendeu-se na cadeira de couro e adormeceu. D. Martim ficou a sós com Madalena.

- Madalena! - disse ele.

- Que ousadia é essa? - disse a moça.

- Ousadia, não. Ouça-me, eu ainda a amo...

- D. Martim, não me parece de cavalheiro o seu proceder.

- Por quê? - perguntou D. Martim com um sorriso infernal.

- Não vê quem ali está?

- Ali?

- Sim.

- Ali está um cadáver.

- Um cadáver? - perguntou a moça ficando pálida.

- Quase. Daqui a dez minutos é um cadáver.

- Explique-se, D. Martim, por quem é!

- Ah! Pensa que eu não teria a minha vingança?

D. Martim estava fora de si; ajoelhou-se aos pés de Madalena; esta fugiu para o interior. No entanto, acordou Rui, bocejou, levantou-se e deu com os olhos em D. Martim, que estava no fundo da sala, mais branco que uma toalha.

- Que tem você? D. Martim...

- Eu nada... - disse D. Martim sem tirar os olhos do rival.

- Pois, senhor - continuou este -, o chá precipitou a digestão, sinto-me melhor. Onde está Madalena?

A moça ouvira a voz do marido e correu à sala.

Dom Martim esperava a todo momento ver cair fulminado o nosso fidalgo e já se arrependera das palavras que dissera nesse sentido a Madalena. Esta perguntou ao marido como se achava; e ele respondeu que muito melhor.

- Proponho que joguemos alguma cousa para passar a noite, que promete ser fria. O primo fica... não?

- Eu... não... mas...

- Fica decerto.

Jogaram até tarde; tomaram chá; e Rui não morreu como o outro esperava. "Foi naturalmente o patife do criado", pensou D. Martim. Mas o criado estava igualmente espantado. Olhava para D. Martim, e não sabia explicar aquele mistério. Quando D. Martim de lá saiu, foi acompanhado pelo cúmplice, que lhe jurou ter posto no chá a dose de veneno convencionada.

- Mas então que foi aquilo?

- Eu sei lá, senhor... Creio que um tiro...

- E prometes ajudar-me na empresa?...

- Prometo.

- Bem; iremos ao tiro.

Prepararam emboscada ao invencível Rui de Leão; deu-se o caso na rua do Piolho, em noite de tormenta, estando a rua mais deserta que um Saara. O criado armou-se com o arcabuz do crime; e desfechou o tiro na cara de Rui. A vítima soltou um espirro e continuou tranquilamente a viagem.

O criado desmaiou.

Rui compreendia que D. Martim lhe preparava golpes sobre golpes; mas, confiado no elixir do pajé, mostrava-se indiferente às emboscadas e ao veneno do rival.

A única questão seria a infidelidade da mulher. Mas esta era um modelo de amor e constância. Amava-o com ardor apesar de ir já longe a lua de mel. Por isso mesmo durou pouco a felicidade. Madalena faleceu de uma pneumonia aguda.

- Quê! - exclamou o pobre imortal.

- Pois eu hei de ver morrer todos aqueles a quem amo e hei de arrastar este castigo de vida?

Enterrou-se a mulher de Rui com a pompa digna da riqueza do marido.

Aborrecido por estar no lugar onde lhe morrera a esposa, Rui determinou partir para a Europa e assim o fez em 1825 depois de declarar a sua intenção de ficar brasileiro. D. Martim foi para Angola, onde morreu de desgostos. Correram os anos.

(continua...)

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