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#Contos#Literatura Brasileira

Silvestre

Por Machado de Assis (1877)

— Quero colaborar de algum modo em seu trabalho, dizia ele.

E consigo:

— Se quando ele o tiver pronto, não me mostrar coisa que valha a pena, força é reconduzi-lo ao foro, onde deverá então ficar, porque é melhor ser um bom escrivão do que um pintor detestável.

No meio do trabalho adoeceu a irmã de Silvestre. O pai foi um dia buscá-lo para ir vê-la, porque o estado era grave, e ele não queria que os dois irmãos se separassem sem uma palavra derradeira. Silvestre foi, travou algumas frases com a enferma e regressou à Gamboa. Luís Borges dirigiu-lhe uma repreensão amigável de que o pagaram largamente os olhos de Camila. Três dias depois faleceu a irmã; ele foi a casa, demorou-se lá até o dia seguinte de manhã; pela volta do meio dia regressou à casa de Luís Borges, penalizado com a morte, mas obcecado pela idéia que vivia.

O painel seguia seu caminho. Algumas horas furtadas ao trabalho, eram passadas ao pé de Camila, em uma doce confabulação íntima; ele bebia nos olhos dela a inspiração exausta em longas horas de aplicação. Depois volvia ao trabalho. Cada dia que passava

como que arrancava o rapaz às cogitações deste mundo; ele vivia de uma vida extática e inconsciente. Não se lembrava já de ir visitar seus pais. Se o advogado lhe lembrava esse dever, ele saía de casa para ir a vinte passos sentar-se na praia, com a sua Vênus diante de si. A mãe sentia a ausência, mas o pobre José Vargas cria firmemente que ele vivia preocupado e ocupado com os papéis do foro.

— Além disso, dizia ele, não sei que me parece obrigar o pequeno a vir aqui, quando o dr. Borges nos faz o favor de lhe dar casa, comida e educação. É natural que ele trabalhe em paga disso.

— Mas, José, um minuto ao menos que ele viesse ver-nos...

— Um minuto! Só em andar gastava ele mais. Descansa; ele virá quando puder. Não podia, não iria nunca. Silvestre já não pertencia ao mundo das coisas externas. O mundo para ele, estava limitado nas dimensões da tela. Nem já dava aos trabalhos que o advogado lhe cometia aquela atenção com que a princípio correspondera aos sentimentos dele. Luís Borges desistiu de o ocupar mais; compreendeu a causa da desatenção e dispensou-o de ir ao escritório. Assim os dias todos eram passados em casa, entre o painel e Camila.

Um dia, enfim, após algumas horas de trabalho, Silvestre desceu e foi ter com a mulher do seu protetor. Ela estremeceu ao ver-lhe as feições transtornadas. Interrogou-o e a resposta tranqüilizou-a. Nada acontecera que prejudicasse a obra.

— Tive uma vertigem, murmurou ele.

— Uma vertigem! Anda descansar um pouco.

Silvestre estava ainda pálido; sentou-se; a moça ficou diante dele alguns minutos.

— Quer saber uma coisa? perguntou Camila. Você trabalha muito. Não quero mais isso; agora há de fazer o que eu mandar.

Silvestre abanou a cabeça.

— Não é esse trabalho o que me faz mal, disse ele; é outro; é este. Dizendo isto o moço bateu com o dedo na testa. Camila, com as mãos arredou-lhe os cabelos, olhou para a testa silenciosamente, e pousou-lhe um beijo leve e úmido. Silvestre não corou, sentia a mesma impressão de conforto que lhe davam os beijos de sua mãe. Ergueu-se e subiram os dois. Na ocasião de descer, Silvestre, apesar de incomodado, cobrira instintivamente o painel.

— Não vá trabalhar agora, disse Camila.

— Por que não?

— Porque eu não quero.

Silvestre insistiu; ela repetiu-lhe a proibição, não já com a voz doce, mas com alguma coisa da irritação felina. Silvestre cedeu de má vontade; encostou-se à janela e estendeu os olhos ao mar. No fim de algum tempo, ouviu um pequeno grito. Voltou-se. Camila erguera a ponta da toalha que cobria o painel, levantara a pouco e pouco até descobri-lo todo. Silvestre não correu para ela; deixou-se ficar de costas para a janela, a olhar para as duas Vênus.

Era o sentimento da arte que lhe arrancara o grito, que lhe abria extraordinariamente os olhos? Não; era a simples vaidade de moça bonita. As feições da Vênus eram as suas. Camila correu enfim para o pintor, pegou-lhe nas mãos e beijou-as.

— Magnífico! magnífico! exclamava ela.

Silvestre contemplava o quadro com igual admiração. A Vênus, expulsa do céu, descia pelo ar abaixo, com os olhos voltados para cima, uns olhos travados de cólera, mas de cólera triste e impotente, que são as quedas definitivas. Os cabelos, soltos no éter, pareciam a derradeira auréola da divindade. As mãos comprimiam o peito, os joelhos dobravam-se molemente; a figura despenhava-se levada pelo vento da morte. O painel não estava pronto; e, ainda pronto, faltar-lhe-ia muita coisa que a mão inexperiente do artista lhe não dera. Contudo, era a aurora de um magnífico dia.

Camila não cabia em si de contente. Ele explicou-lhe o pensamento da composição, que a moça ouviu com a mão dele presa entre as suas.

— A senhora há de perdoar, se tive o atrevimento...

(continua...)

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