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#Contos#Literatura Brasileira

Quem boa cama faz...

Por Machado de Assis (1860)

— Perigosa, continuou Ernesto sem atender à interrupção do amigo, perigosa porque era arriscar eu próprio o sossego do meu espírito. Não me salvei do perigo; mas o único meio que tenho para compensá-lo é apagar o lado feio da aventura.

— Dizes então?...

— Que eu gosto de tua prima.

Luís levantou-se de um salto. Os dois rivais encararam-se longo tempo sem dizer palavra, até que Ernesto foi sentar-se tranqüilamente. Luís levantou os ombros e foi a ele:

— Felizmente para mim conheço as tuas idéias a respeito do casamento, e creio que não pretenderás...

— É justamente o contrário, interrompeu Ernesto; pretendo casar com ela. — Oh! mas isto é demais! exclamou Luís. Estás caçoando comigo, creio eu. — Falo sério.

— Mas então...

— O quê?

— Andaste em tudo isto infamemente.

— Perdôo-te porque não sabes o que dizes.

A estas palavras, replicou Luís com duas ainda mais fortes, as quais provocaram da parte de Ernesto uma tréplica vigorosa; Luís voltou à carga com mais energia; Ernesto recebeu-o com quatro pedras na mão até que depois de dizerem muitas coisas duras e feias um ao outro, separaram-se os dois, acabando assim a conversa e o capítulo.

CAPÍTULO VIII

Saiu Luís Fonseca disposto a fazer alguma estralada. A distância porém entre a casa de Ernesto e a sua foi bastante para lhe deitar água na fervura.

Não perdoou decerto ao pérfido, como ele dizia, nem se dispôs a derrear-lhe fácil vitória; mas a idéia do escândalo foi posta de lado. Meteu-se a noite de permeio, e no dia seguinte estava Luís mais tranqüilo.

Oh! mais tranqüilo não! O mísero sentia-se cada vez mais apaixonado; o amor tocava já ao delírio. Era-lhe absolutamente impossível assistir à felicidade do rival.

Mas como impedir-lha?

Ir contar tudo ao pai?

Aceitou este primeiro alvitre, mas logo abriu mão dele. O pai naturalmente daria razão ao outro, a quem estimava já.

Tentar arrancar o rival às boas graças da prima era tarefa escabrosa e difícil. Luís Fonseca deitou os olhos a todos os pontos do horizonte a ver se descobria um meio eficaz de derribar o rival.

Nenhum ocorreu.

Dois dias gastou nestas pesquisas infrutíferas.

No terceiro, estando a almoçar, e justamente ao meter o garfo no terceiro pedaço de bife, um súbito pensamento lhe alumiou o espírito.

— Eureka!

Estava achada a grande arma.

Luís preparou-se e foi à casa da tia. Fernanda recebeu-o com afabilidade, e a maior prova de que já nada sentia por ele foi a tranqüilidade que lhe ficara no coração. Nem uma saudade! nem um estremecimento!

O primo não se deu a averiguar até que ponto deixara vestígio no espírito da ex-noiva. A idéia de vingança o dominava.

— Está preocupado, disse Fernanda vendo que ele se sentava sem dizer palavra.

— É verdade; uma grave preocupação.

— Motivo de família?

— Talvez.

Luís Fonseca acompanhou esta resposta com um gesto de desespero que assustou a moça:

— Que é? disse esta.

— Prima, sabe qual era o projeto de meu pai há meses a nosso respeito? Fernanda abaixou a cabeça.

— Sabe, decerto, continuou Luís, e o projeto não era só dele, mas de toda a nossa família. Tive a crueza e a insensatez de me opor interiormente ao casamento que se projetava. Abertamente não podia recusar; consultei a um amigo...

— Primo, interrompeu Fernanda, falemos de outra coisa.

— Não; falemos desta.

Fernanda levantou-se.

— Bem, disse ela, sou obrigada a sair.

— Há de ficar, disse o bacharel, quando souber que se trata do decoro da família e de a salvar de um perigo...

— Um perigo? murmurou a moça tornando a sentar-se.

— Nem mais nem menos. Ouça.

Fernanda tremia.

— O amigo a quem consultei, continuou Luís, lembrou um meio que lhe pareceu excelente para afastar-me do casamento: o meio era procurar fazer-se amado da senhora e esfriar no seu coração o afeto que eu lhe inspirara.

Fernanda fez um movimento.

Luís continuou.

— Tive a covardia de aceitar o plano, e ajudá-lo a executar. Confesso todos os meus erros para melhor ver a sinceridade do meu arrependimento. Fui eu quem apresentou esse amigo em minha casa, onde ele logo captou as boas graças da família; e começou essa espécie de assédio em volta do seu coração. Ajudei-o, é verdade, com vergonha o digo, ajudei-o nessa infame tarefa!

A moça empalideceu no começo desta narrativa; mas as faces para logo se avermelharam. Luís continuou a referir tudo o que se passara entre ele e Ernesto.

— Com o que eu não contava, porém, disse ele, era a punição que me reservou o céu. Esse amor silencioso, casto, que eu tive o desazo de desprezar, veio acender-se em mim, e aquilo que há poucos meses recusei como uma grande desgraça, hoje almejo e peço como uma das maiores fortunas da terra.

Luís esperou algum tempo a resposta de Fernanda às revelações que acabava de fazer; a moça olhava para ele sem articular palavra; parecia nem ouvir nada.

— Bem sei, disse ele, que não tenho direito a esperar o que lhe peço; mas há certamente no seu coração misericórdia para me perdoar. Do perdão virá talvez o amor que espero mais tarde. Quanto ao pérfido que me iludiu...

A moça estremeceu.

(continua...)

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