Por Machado de Assis (1872)
— Sim. No entanto, se quiser que eu lhe fale....
— Oh! não! não tenho vontade de casar.
De casar, creio que Daniel não tinha vontade nenhuma, mas nem por isso a lembrança de Augusta deixava de preocupá-lo. Havia naquela moça um mistério que ele queria aprofundar. A ocasião era boa para aproximar-se dela. Já haviam decorrido vinte dias depois da missa fúnebre. Daniel resolveu ir visitar a família de Augusta para agradecer lhe a presença no ato religioso, tanto mais de agradecer quanto não se ligavam por estreitos laços de amizade.
Só as duas senhoras estavam em casa, quando se anunciou a visita de Daniel. Augusta desapareceu da sala pouco antes de entrar o rapaz, que apenas encontrou Madalena, com quem travou uma conversa de cerca de meia hora. Durante esse tempo todo, Augusta não apareceu na sala. O rapaz esperou ainda alguns minutos, mas vendo que não chegava, levantou-se para sair.
— Espero, disse Madalena, que não será esta a última vez que nos honre com a sua visita.
Daniel curvou a cabeça, agradecendo.
Depois, apertou a mão de Madalena e dirigiu-se para a porta, justamente no momento em que Augusta entrava na sala.
Cumprimentaram-se friamente.
Daniel saiu.
VIII
— Por que não vieste à sala mais cedo? perguntou Madalena a Augusta.
— Tive uma vertigem; não podia vir, respondeu a moça.
— Foi pena, porque este moço é muitíssimo amável; passei meia hora agradavelmente.
— Foi pena! murmurou a moça, disfarçando um sorriso que lhe estava a brincar nos lábios.
Não disfarçou tanto que a mãe o não percebesse.
Há alguma coisa, pensou ela.
Augusta não lhe disse mais nada; mas quem pudesse penetrar no seu espírito, ouviria a seguinte reflexão:
— São todos os mesmos!
Reflexão que aliás não esclarece muito a situação. É provável que pelo romance adiante compreendamos essas palavras interiores de Augusta.
IX
O casamento é a perfeita união de duas existências; e mais do que a união, é a fusão completa e absoluta. Se o casamento não é isto, é um encontro fortuito de hospedaria; apeiam-se à mesma porta, escolhem o mesmo aposento, comem à mesma mesa, nem mais, nem menos.
Este é o casamento mais comum. O outro o legítimo, o raro, esse é outra coisa que não isto. A religião santifica o casamento, mas supõe sempre a existência anterior de um elo tão sagrado como o do altar.
Não se parecia com este o casamento de Valadares. Casou o rapaz por motivos alheios ao coração: primeiramente, por interesse, depois por novidade. O casamento foi para ele uma espécie de passeio ao Corcovado. Ora, todos são de acordo que do Corcovado se goza uma vista magnífica, mas a ninguém lembrou ainda a idéia de lá fundar uma cidade. Ninguém lá fica; sobe-se, goza-se, desce-se.
Valadares começava a sentir a necessidade de descer do Corcovado; a idéia de que estava ligado para sempre era um verdadeiro pesadelo que lhe sufocava o espírito. Verdade é que a sua liberdade não estava tolhida; os boudoirs célebres que freqüentara outrora começaram a festejar a volta do filho pródigo. Mas era sempre um vínculo, o pobre já sentia que este o apertava. Podia ser de rosas; mas achou-o de ferro.
Amélia casara com Valadares como casaria com outro qualquer; simples mudança de estado. Comprou a liberdade sob a forma de uma prisão. Contratou um braceiro para os dias em que lhe conviesse sair a pé; e um protetor para abrigar a sua existência, a sua reputação. Com estas condições, qualquer noivo lhe servia. O que estava mais à mão foi o escolhido.
Imaginem já por aqui qual era alegria conjugal daquelas duas criaturas. Não tardou que o aborrecimento viesse sentar-se no lugar que o amor não ocupava; em vez de dois entes unidos por um grande sentimento achavam-se como dois condenados ligados pela mesma calceta, com a diferença que a comunhão do infortúnio e do crime estabelece certa simpatia entre os dois condenados, a qual debalde se procuraria entre Valadares e a filha de Seabra.
Começava a dissolver-se a forma conjugal; não se precisava ser águia para adivinhar que, dentro de pouco tempo, a casa liquidaria e os dois achariam na separação um remédio aos seus males.
Ora, este espetáculo e esta previsão desagradavam profundamente a Daniel, que morava com os dois, segundo se disse acima. Um dia de manhã, resolveu mudar-se, e assim o declarou aos donos da casa.
— Mudar-se? exclamou Amélia. E por quê?
— Porque devo morar só; além disso, está com o meu gênio.
— Se assim é, observou Valadares, não te obrigo ao contrário. Mas hás de vir jantar comigo todos os dias...
— Todos os dias, não sei, respondeu Daniel.
— Já tem casa? perguntou Amélia.
— O meu procurador, respondeu Daniel, disse-me ter encontrado uma em Mata-cavalos.
— Ah!
A mulher de Valadares sorriu maliciosamente; o marido, por imitação, sorriu também. Daniel viu os sorrisos e pareceu-lhe compreender.
— Mas que tem isso? perguntou ele.
— Nada, acudiu Amélia, quer dizer que está mais pertn.
— De quem?
— Ora de quem! dela!
— Não conheço!
— Augusta.
— Ora!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.