Por Machado de Assis (1867)
— Por dois motivos: o primeiro é a recordação desse amor infeliz; o segundo é que esta derrota é para mim uma vergonha tal que eu quisera encobrir até aos meus mais íntimos amigos.
— Aceito o primeiro; quanto ao segundo...
— O segundo é igualmente aceitável.
— Não é. Seria a primeira derrota, mesmo com Sílvia?
— Creio que não é a primeira; mas não é derrota propriamente o que me dói e me envergonha; é que ela mostra o meu erro e a minha loucura em ter procurado vitória em terreno tão alto e tão difícil.
— Não digas isso...
— Por que não? Desejei o impossível; tive a paga do meu arrojo. Mas quem te disse tudo? Foi ela?
— Foi.
— Ah!
— Digo-to francamente para que avalies a namoradeira em cujos olhos puseste a estrela das tuas ambições amorosas. Contou-me ela ontem tudo o que se passou, isto entre um movimento de leque e uma escala do piano. Não te vingas isso?
— Não. Embora não aceitasse o meu coração, eu desejara que ela ficasse sendo a mulher nobre e elevada que eu sonhei nas minhas noites de febre.
— Vim dizer-to para que mais depressa esquecesses aquela mulher. Se o teu amor ficasse ofendido, era mau para ti e para nós: sucumbias. Mas se deste naufrágio só o teu amor-próprio houver sofrido, é certo que viverás.
— É a primeira hipótese: eu já não vivo.
— Tenho a esperança de que há de ser a segunda.
— Desejos de amigo! disse Teófilo suspirando.
— Adeus, disse Augusto levantando-se e abraçando o poeta.
O poeta acompanhou Augusto até a porta.
Quando voltou para o quarto, Teófilo encontrou Helena na sala de jantar. Ao principio não reparou, mas depois viu que a moça tinha os olhos rasos de lágrimas.
— Que tem, Helena? perguntou ele.
— Nada: dor de cabeça.
Teófilo olhou silenciosamente para a moça e retirou-se.
Causou-lhe estranheza aquilo. Que motivos terão aquelas lágrimas? perguntou ele consigo.
Procurou, e a sua primeira idéia foi que Helena amasse Augusto. Qualquer que fosse a singularidade desta explicação, todavia ela pareceu a Teófilo mais plausível do que a de que ele fosse o amado daquele jovem coração.
Dois dias passaram-se depois disto. No fim desses dois dias D. Teresa foi a primeira a romper o silêncio e a perguntar afoitamente a Teófilo a causa da tristeza de ambos. Apanhado de surpresa, Teófilo não teve que responder. Não só esta pergunta recordou lhe diretamente o triste amor por Sílvia, como aproximava em uma só causa a tristeza dele e a tristeza de Helena.
Está ultima circunstância calou-lhe no espírito.
— Eu nada tenho, disse ele depois de algum tempo. Quanto a Helena, não sei.
— Amam-se, talvez? perguntou D. Teresa.
E como Teófilo não respondesse, a boa velha acrescentou:
— Pois é o que podiam fazer de melhor. Eis o que me daria a mais completa felicidade. Teófilo retirou-se pensativo.
Seria ele amado por Helena? Teria ele roçado cem vezes aquele amor ingênuo, respeitoso, sem dar por ele? Sofreria ela a dor que ele sentiu quando a indiferença de Sílvia cortou em flor as suas esperanças?
Estas perguntas foram feitas por Teófilo a si próprio sem que ele pudesse dar-lhes uma resposta completa.
Uma circunstância trouxe toda a luz à situação. Tendo saído de manhã voltou imediatamente em busca de um livro que esquecera e que lhe era necessário à lição que ia dar naquele dia.
Entrou sem ser sentido e foi ao gabinete. Ali estava Helena, diante da porta aberta, tendo na mão uma folha de papel.
Eram versos.
Helena quando o sentiu ficou sem saber o que fazia. Olhou para ele e conservou na mão o papel.
Tinha o semblante triste, mas procurou alegrá-lo com um sorriso. Não pôde. Era um sorriso que a traiu.
Teófilo encaminhou-se para ali e pegou na mão de Helena.
— Amas-me, Helena?
A moça abaixou os olhos.
Teófilo repetiu a pergunta.
— Sim; murmurou a moça.
— Quer ser minha mulher?
Helena fugiu sem dizer palavra.
Teófilo viu-a desaparecer e disse consigo:
— Sei o que são estes sofrimentos. Padeci; não quero que ela padeça. Serei dela. Este amor curar-me-á.
No dia seguinte Augusto recebia esta carta de Teófilo.
Meu amigo.
— Fui buscar o impossível, tendo o possível à mão. Vê como andava errado. Queres ser meu padrinho de casamento? Helena vai ser minha mulher.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Possível e impossível. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.