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#Contos#Literatura Brasileira

O último dia de um poeta - Machado de Assis

Por Machado de Assis (1867)

Sinto a cabeça pesada; e o meu espírito mal pode aplicar-se ao que a minha vontade o solicita. Ah! já nem sou poeta! Musa ardente dos tempos da felicidade e do sossego, onde paras agora que não vens reclinar-te, como outrora, à cadeira do teu poeta infeliz? Alguém chega... Guardemos estes papéis... Quem é? Minha mãe!...

— Eu e mais alguém, meu filho.

— Quem?

— Tens coragem?

— Por quê, minha mãe?

— Para o que vais ver?

— É a morte?

— É a vida.

— Mande entrar a vida, minha mãe.

XIII

Olhei, era... era Carlota.

— Carlota!

Recuei até à cama. Vi entrar uma mulher magra, abatida, doente; com os olhos fundos e ardentes de febre. Vê-se que o remorso dilacera aquela alma. Vê-se que ela pena os pecados em que caiu.

Parou à porta, e com as mãos magras, mas ainda belas, comprime o seio ofegante. Tem os olhos baixos como de vergonha. Parece pregada ao lugar em que ficou. Nem eu nem ela podemos falar. Minha mãe toma-lhe a mão e trá-la para junto da janela.

— Não é uma criminosa que vem implorar perdão, disse-me Carlota.

— Pois quem é?

— Ah! eu não quero perder tempo em longas explicações... Venho dizer-lhe que se a sua vida depende da declaração de que eu o amo, pode morrer; porque eu não posso fazer essa declaração. Mas se é razão para viver a certeza de que, no dia em que o repeli, ainda o amava, e que casando com aquele que é hoje meu marido eu ainda o tinha na memória, viva; porque isto é verdade.

— Carlota!

— É verdade. Depois, a consciência do dever prevaleceu, e eu pude apesar da lembrança, ver que me podia fazer feliz, mas que, casada com outro, só podia fazer a desgraça de mim mesma.

Dizendo estas palavras Carlota parece animada por um fogo interior. Será sincera? A franqueza com que falou parece nascer de uma consciência sincera. Agora, o que me parecia remorso é vergonha, é já outra coisa; reparo mais, é como que vejo na fronte desta mulher o sinal do martírio e da dor.

Minha mãe fê-la retirar-se. Eu não sei o que faço nem onde estou; parece-me que sonho; abro os olhos mais e mais, e corro um olhar por todos os ângulos do quarto para ver se com efeito estou na realidade.

Vê-la! vê-la ainda, aqui, junto de mim, sincera, regenerada na minha consciência de um crime que lhe atribui, oh! meu Deus! isto é quase a felicidade!

Mas, se o que ela diz é verdade, qual a explicação de todos estes fatos que tiveram tão funestas conseqüências?

Carlota adivinha esta interrogação íntima. Minha mãe fê-la sentar. Depois, tomando um ar de recato e modéstia, Carlota procura referir todas as circunstâncias do seu casamento.

XIV

O que ela contou resume-se assim:

Quando, nos seus sonhos de felicidade e de amor, ela contava unir-se a mim e viver uma vida nova e única, veio transtornar os seus projetos o tio de quem já falei, e cuja neutralidade nos parecia a ambos sem contestação.

Neutral seria, decerto, o bom tio, se uma circunstância não o impelisse ao passo que deu. Tenho certeza de que ele gostava de mim e de Carlota, mas a paixão e o vicio decidiram as coisas de modo diferente.

Venâncio era um dos seus parceiros habituais do jogo. Era rico, e por essa circunstância, talvez, tinha uma felicidade rara. A água corre para o mar, diz o provérbio. O dinheiro dos parceiros corria para a algibeira farta de Venâncio.

Até então, isto é, até a hora em que o tio de Carlota conheceu Venâncio, a boa sorte tinha protegido aquele. Mas Venâncio apareceu com a sua felicidade inaudita e bem depressa os últimos recursos do velho se esgotaram. É sabido como o jogo dá certa embriaguez que mais se exalta com a má fortuna. O tio de Carlota atirou-se às últimas operações.

Jogou a crédito e perdeu. Insistiu e perdeu ainda. Insistiu, insistiu e perdeu sempre. Recuou a conselho de alguns amigos.

As quantias perdidas ao jogo com Venâncio perfaziam uma soma avultada. O tio de Carlota achou-se repentinamente em uma posição difícil. Como pagar-lhe? Escasseados os recursos, nem tinha onde buscar, ainda por empréstimo, a grossa quantia de que era devedor. Em tal situação só havia um meio. Pôr termo ao vício que o arruinara e procurar no trabalho, se fosse possível, o saldo de tão enorme dívida.

Este era o meio razoável, se porventura a lei do jogo, que é uma lei arbitrária como o próprio vício em que se funda, não o obrigasse a um prazo breve e fatal. tio de Carlota pensou nisto e desanimou. Era um abismo que tinha diante de si. Os recursos de Carlota, que eram escassos, não podiam, no caso de generosidade da moça, servir para uma quinta parte da dívida. Era despojá-la do patrimônio sem proveito. O desgraçado, sem saber que fazia, sem meios reais, nem recursos da imaginação, saiu um dia de manhã em direção à casa de Venâncio.

Devo dizer que, já antes do desastre que fez de Venâncio um pesadelo para o tio de Carlota, o credor freqüentava a casa deste.

O tio de Carlota entrando em casa de Venâncio não tinha uma idéia a apresentar; ia conversar e apanhar a primeira idéia que lhe sugerisse a conversa, ou aceitar o projeto razoável que o credor lhe indicasse.

(continua...)

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