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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

Não sucedeu assim aos amigos da casa, que receberam a notícia da mudança como um decreto de exílio. Tudo na antiga habitação fazia parte deles, o jardim, a grade, os canteiros, os degraus de pedra, a enseada. Traziam tudo de cor. Era entrar, pendurar o chapéu, e ir esperar na sala. Tinham perdido a noção da casa alheia e do obséquio recebido. Depois, a vizinhança. Cada um daqueles amigos do Rubião estava afeito a ver as pessoas do lugar, as caras da manhã, e as da tarde, alguns chegavam a cumprimentá-las, como aos seus próprios vizinhos. Paciência! iriam agora para Babilônia, como os desterrados de Sião. Onde quer que estivesse o Eufrates, achariam salgueiros em que pendurassem as harpas saudosas,-ou propriamente, cabides em que pusessem os chapéus. A diferença entre eles e os profetas é que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam com a mesma graça e força; cantariam os velhos hinos, tão novos como no primeiro dia. e Babel acabaria por ser a mesma Sião, perdida e resgatada.

- O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo, na véspera da mudança. Hão de ter reparado que não anda bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confusão, vai tratar-se, por enquanto preciso que descanse. Arranjei-lhe uma casa pequena, mas pode ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento de saúde. Ouviram atônitos. Um deles, o Pio, voltando a si mais depressa que os outros, respondeu que há mais tempo se devia ter feito aquilo; mas para fazê-lo, era preciso ter influência decisiva no mínimo de Rubião.

- Muitas vezes lhe disse, por boas maneiras, que era indispensável consultar um médico, por me parecer que tinha alguma cousa no estômago. .. Era um modo de desviar o sentido, compreende? Mas ele respondia sempre, que não tinha nada, digeria bem... - Mas come menos, dizia-lhe eu; há dias em que não come quase nada; está mais magro, um pouco amarelo..." Compreende que não podia dizer-lhe a verdade. Cheguei a consultar um médico, meu amigo; mas o nosso bom Rubião não o quis receber.

Os outros quatro iam confirmando de cabeça toda aquela invençãoera o mais que se lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento do golpe. Acabaram perguntando o número da nova casa, para irem saber dele. Pobre amigo! Quando se arrancaram dali se despediram uns dos outros, deu-se um fenômeno com que não contavam; é que eles mesmos mal podiam separar-se. Não que os ligasse amizade nem estima; o próprio interesse os fazia antipáticos. Mas o costume de se verem todos os dias, ao almoço e ao jantar,- à mesma mesa, como que os tinha fundido uns nos outros; a necessidade os fez suportáveis, o tempo os tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos de cada um que iam padecer com ausência das caras de uso, do gesto, das suíças, dos bigodes, da calva, dos sestros particulares, do modo de comer, de falar e o estar dos companheiros. Era mais que separação, era desarticulação.

CAPÍTULO CLXVI

Rubião notou que eles não o acompanharam à casa nova, e mandou-os chamarnenhum veio, e a ausência encheu de tristeza o nosso amigo,-durante as primeiras semanas. Era a família que o abandonava. Rubião procurou recordar se lhes fizera algum mal, por obra ou por palavra, e não achou nada.

CAPÍTULO CLXVII

-CONVERSEI com o homem; achei-lhe idéias delirantes. Conquanto não seja alienista, acho que pode ficar bom. . . Mas quer saber uma descoberta interessante?

-Crê que fique bom? disse D. Fernanda, sem atender à pergunta do Dr. Falcão.

Era deputado o Dr. Falcão, deputado e médico, amigo da casa, varão sabedor, céptico e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor de examinar o Rubião, pouco depois que este se transportou para a casa da Rua do Príncipe.

-Sim, creio que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Pode ser que a doença não tenha antecedentes na família. Mande ver um especialista. Mas não quer saber a minha interessante descoberta?

-Qual é?

-Talvez tenha parte na moléstia uma pessoa sua conhecida, respondeu ele sorrindo. -Quem?

-D. Sofia.

-Como assim?

-Ele falou-me dela com entusiasmo, disse-me que era a mais esplêndida mulher do mundo, e que a nomeara duquesa, por não poder nomeá-la imperatriz; mas que não brincassem com ele, que era capaz de fazer como o tio, divorciar-se e casar com ela. Concluí que terá tido paixão pela moça; e depois a intimidade, Sofia para aqui, Sofia para ali...Desculpe-me, mas eu creio que os dous se amaram . . .

-Oh! não!

- D. Fernanda, creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheço; a senhora parece que não a conhece há muito tempo nem viveu na intimidade dela. Pode ser que se tivessem amado, e que alguma paixão violenta. . . Suponhamos que ela o mandasse pôr fora de casa. . . verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se pode juntar...

(continua...)

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