Por Machado de Assis (1891)
Palha ficou enternecido. Havê-la feito padecer por ele, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, íntimo, profundo,-que o faria desejar outros pesadelos, para que o assassinassem aos olhos dela, e para que ela gritasse angustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.
CAPÍTULO CLXII
NO DIA SEGUINTE, o sol apareceu claro e quente, o céu límpido, e o ar fresco. Sofia meteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da reclusão. Já o próprio dia lhe fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em suas casas,- e das que achou na Rua do Ouvidor, a agitação externa, as notícias da sociedade, a boa feição de tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da alma os cuidados da véspera.
CAPÍTULO CLXIII
ASSIM, POIS, O que parecia vontade imperiosa reduzia-se a veleidade pura, e, com algumas horas de intervalo, todos os maus pensamentos se recolheram às suas alcovas. Se me perguntardes por algum remorso de Sofia, não sei que vos diga. Há uma escala de ressentimento e de reprovação. Não é só nas ações que a consciência passa gradualmente da novidade ao costume, e do temor à indiferença. Os simples pecados de pensamentos são sujeitos a essa mesma alteração, e o uso de cuidar nas cousas afeiçoa tanto a elas,-que, afinal, o espírito não as estranha, nem as repele. E nestes casos há sempre um refúgio moral na isenção exterior, que é, por outros termos mais explicativos, o corpo sem mácula.
CAPÍTULO CLXIV
UM SÓ INCIDENTE afligiu Sofia naquele dia puro e brilhante,-. um encontro com Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor para comprar um romance; enquanto esperava o troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto e percorreu com os olhos os livros da prateleira,-uns livros de anatomia e de estatística,-recebeu o dinheiro, guardou-o, e, de cabeça baixa, rápido como uma flecha, saiu à rua, e enfiou para cima. O sangue só lhe sossegou, quando a Rua dos Ourives ficou para trás.
Dias depois, indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com ele no saguão. Cuidou que subisse, e dispôs-se a subir também, ainda que receosa; mas Rubião descia, apertaram-se as mãos familiarmente, e despediram-se até à tarde.
-Ele vem aqui muitas vezes? perguntou Sofia a D. Fernanda depois de lhe contar o encontro no saguão.
-Esta é a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez apareceu delirando. Das outras é como viu agora, sossegado, e até conversador. Há nele sempre alguma cousa que mostra não estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco vagos? É isso; no mais, conversa bem. Creia, D. Sofia; aquele homem pode sarar. Por que não faz com que seu marido tome isto a peito?
-Cristiano tem projeto de o mandar examinar e tratar, mas, deixe estar que eu o apresso.
-Pois sim. Ele parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha
"Ter-lhe-á dito alguma inconveniência no delírio, a meu respeito? pensou Sofia. Convirá revelar-lhe a verdade?"
Concluiu que não; o próprio mal do Rubião explicaria as inconveniências. Prometeu que apressaria o marido, e nessa mesma tarde expôs o negócio ao Palha. É uma grande amolação, redargüiu este. E perguntou que interesse tinha D. Fernanda em tornar àquele negócio. Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhação ter de cuidar do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador como dissera o Dr. Teófilo. Um aborrecimento de todos os diabos.
-Já ando com grande carga sobre mim, Sofia. E depois como há de ser? Havemos de trazê-lo para casa? Parece que não. Metê-lo onde? Em alguma casa de saúde. . . Sim, mas se não puderem aceitá-lo? Não hei de mandá-lo para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? Você prometeu que me falaria?
- Prometi, e afirmei que você faria isto, respondeu Sofia sorrindo. Talvez não custe tanto como parece.
Sofia insistiu ainda. A compaixão de D. Fernand a tinha-a impressionado muito; achou-lhe um quê distinto e nobre, e advertiu que se a outra, sem relações estreitas nem antigas com Rubião, assim se mostrava interessada, era de bom-tom não ser menos generosa
CAPÍTULO CLXV
TUDO SE FEZ sossegadamente. Palha alugou uma casinha na Rua do Príncipe, cerca do mar, onde meteu o nosso Rubião, alguns trastes, e o cachorro amigo. Rubião adotou a mudança sem desgosto, e, desde que lhe tornou o delírio, com entusiasmo. Estava nos seus paços de S. Cloud.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.