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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

E zás, zás, deu os últimos golpes às barbas de Rubião, e começou a rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo tempo a operação, o barbeiro ia tranqüilamente rapando, comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem. Às vezes, para melhor cotejá-los, recuava dous passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.

-Vai bem? perguntava Rubião.

Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e prosseguia. Recortou a pera, deixou os bigodes, e escanhoou à vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptível de cabelo no queixo ou na face. As vezes Rubião, cansado de estar a olhar para o tecto, enquanto o outro lhe aperfeiçoava os queixos, pedia para descansar. Descansando, apalpava o rosto e sentia pelo tacto a mudança.

-Os bigodes é que não estão muito compridos, observava.

-Falta arranjar-lhes as guiasaqui trago os ferrinhos para encurvá-los bem sobre o lábio, e depois faremos as guias. Ah! eu pre6ro compor dez trabalhos originais a uma só cópia.

Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados. Enfim, pronto, Rubião deu um salto, correu ao espelho, no quarto, que ficava ao pé; era o outro, eram ambos, era ele mesmo, em suma.

-Justamente! exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado os aparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.

E indo à secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil-réis, e deu-lha. -Não tenho troco, disse o outro.

-Não precisa dar troco, acudiu Rubião com um gesto soberano; tire o que houver de pagar à casa, e o resto é seu.

CAPÍTULO CXLVII

FICANDO SÓ, Rubião atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas cousas suntuosas. Estava em Biarritz ou Compiègne, não se sabe bem; Compiègne, parece. Governou um grande Estado, ouviu ministros e embaixadores, dançou, jantou,-e assim outras ações narradas em correspondências de jornais, que ele lera e lhe ficaram de memória. Nem os ganidos de Quincas Borba logravam espertá-lo. Estava longe e alto. Compiègne era no caminho da lua. Em marcha para a lua!

CAPÍTULO CXLVIII

QUANDO DESCEU DA LUA, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos queixos. Correu ao espelho e verificou que a diferença entre a cara barbada e a cara lisa era grande mas que, assim lisa, não Ihe ficava mal. Os comensais chegaram à mesma conclusão.

- Está perfeitamente bem! Há muito que devia ter feito isso. Não é que as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; mas, assim como está agora, tem o que tinha, e mais um tom moderno...

-Moderno, repetiu o anfitrião.

Fora, igual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem ao amigo, ponderou que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma, cuja firmeza e constância devia reproduzir

-Não é por lhe falar de mim, concluiu; mas, nunca me há de ver a cara de outro modo. t uma necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos princípios,-porque eu nunca tentei conciliar princípios, mas homens,-minha vida, digo, uma imagem fiel da minha cara, e vice-versa.

Rubião ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia ser assim por força. Sentia-se então imperador dos franceses incógnito, de passeio; descendo à rua, voltou ao que era. Dante, que viu tantas cousas extraordinárias, afirma ter assistido no inferno ao castigo de um espírito florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de tal modo, e tão confundidos ficaram, que afinal já se não podia distinguir bem se era um ente único, se dous. Rubião era ainda dous. Não se misturavam nele a própria pessoa com o imperador dos franceses. Revezavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião, não passava do homem do costume Quando subia a imperador, era só imperador. Equilibravam se, um sem outro, ambos integrais.

CAPÍTULO CXLIX

-QUE MUDANÇA É ESSA? perguntou Sofia, quando ele lhe apareceu no fim da semana.

-Vim saber do seu joelho; está bom?

-Obrigada.

Eram duas horas da tarde. Sofia acabava de vestir-se para sair quando a criada lhe fora dizer que estava ali Rubião,-tão mudado de cara que parecia outro. Desceu a vê-lo curiosa; achara-o na sala, de pé, lendo os cartões de visita.

- Mas que mudança é essa? repetiu ela.

Rubião, sem nenhum sentimento imperial. respondeu que supunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a pera.

-Ou estou mais feio? concluiu.

-Está melhor, muito melhor.

E Sofia disse consigo que talvez fosse ela a causa da mudança

Sentou-se no sofá, e começou a enfiar os dedos nas luvas..

-Vai sair?

-Vou, mas o carro ainda não veio.

Caiu-lhe uma das luvas. Rubião inclinou-se para apanhá-la, ela fez a mesma cousa, ambos pegaram na luva, e teimando em levantá-la sucedeu que as caras encontraram-se no ar, o nariz dela bateu no dele; e as bocas ficaram intactas para rir, como riram.

-Machuquei-a?

-Não! eu é que lhe pergunto. ..

(continua...)

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