Por Machado de Assis (1891)
-O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até à cousa mais sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; está satisfeita?
Pieguives de lascivo. Saiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquele pudor medroso e incrédulo de Sofia fazia-lhe bem. Mostrava que ela era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que ele a possuía, considerava que era de grande senhor não se afligir com a vista casual e instantânea de um pedaço oculto do seu reino. E lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras vilas do território, antes da cidade machucada pela queda, dariam idéia de uma civilização sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara, o colo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se Palha imaginava o pasmo e a inveja da única testemunha do desastre, se este fosse menos incompleto.
CAPÍTULO CXLV
FOI POR ESSE TEMPO que Rubião pôs em espanto a todos os seus amigos. Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabeleireiro da Rua do Ouvidor que o mandasse barbear à casa, no outro dia. às nove horas da manhã. Lá foi um oficial francês, chamado Lucien, que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as ordens dadas ao criado.
-Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião.
Lucien cumprimentou o dono da casaeste, porém, não viu a cortesia, como não ouvira o sinal do Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extensão, ermo do espírito, que rompera o tecto e se perdera no ar. A quantas léguas iria? Nem condor nem águia o poderia dizer. Em marcha para a lua,-não via cá embaixo mais que as felicidades perenes, chovidas sobre ele, desde o berço, onde o embalaram fadas, até à Praia de Botafogo, aonde elas o trouxeram por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revés, nenhum malogro, nenhuma pobreza;-vida plácida, cosida de gozo, com rendas de supérfluo. Em marcha para a lua!
O barbeiro relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretária, e sobre ela os dous bustos de Napoleão e Luís Napoleão. Relativamente a este último, havia, ainda pendentes da parede, uma gravura ou litografia representando a Batalha de Sol ferino, e um retrato da imperatriz Eugênia.
Rubião tinha nos pés um par de chinelas de damasco, bordadas a ouro; na cabeça, um gorro com borla de seda preta. Na boca um riso azul claro.
CAPÍTULO CXLVI
-SENHOR...
Uhm! repetiu Quincas Borba, de pé nos joelhos do senhor.
Rubião voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tê-lo visto ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira. Quincas Borba latia como a defendê-lo contra o intruso.
-Sossega! cala a boca! disse-lhe Rubião; e o cachorro foi, de orelha baixa, meter-se por trás da cesta de papéis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus aparelhos.
-O senhor vai perder uma bela barba, dizia ele em francês. Conheço pessoas que fizeram a mesma cousa, mas para servir a alguma dama. Tenho sido confidente de homens respeitáveis...
-Justamente! interrompeu Rubião.
Não entendera nada; posto soubesse algum francês, mal o compreendia lido,-como sabemos,- e não o entendia falado. Mas, fenômeno curioso, não respondeu por impostura; ouviu as palavras, como se fossem cumprimento ou aclamação; e, ainda mais curioso fenômeno, respondendo-lhe em português, cuidava falar francês.
-Justamente! repetiu. Quero restituir a cara ao tipo anterior; é aquele.
E, como apontasse para o busto de Napoleão III, respondeu-lhe o barbeiro pela nossa língua
-Ah! o imperador! Bonito busto, em verdade. Obra fina. 0 senhor comprou isto aqui ou mandou vir de Paris? São magníficos. Lá está o primeiro, o grande; este era um gênio. Se não fosse a traição, oh! os traidores, vê o senhor? os- traidores são piores que as bombas de Orsini.
-Orsini! um coitado!
-Pagou caro.
-Pagou o que devia. Mas não há bombas nem Orsini contra o destino de um grande homem, continuou Rubião. Quando a fortuna de uma nação põe na cabeça de um grande homem a coroa imperial, não há maldades que valham... Orsini! um bobo!
Em poucos minutos, começou o barbeiro a deitar abaixo as barbas de Rubião, para lhe deixar somente a pera e os bigodes de Napoleão III; encarecia-lhe o trabalho; afirmava que era difícil compor exatamente uma cousa como a outra. E à medida que lhe cortava as barbas, ia-as gabando-Que lindos fios! Era um grande e honesto sacrifício que fazia, em verdade...
-"Seu" barbeiro, você é pernóstico, interrompeu Rubião. Já lhe disse o que quero; ponha-me a cara como estava. Ali tem o busto para guiá-lo.
-Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança vai sair.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.