Por Gregório de Matos (1696)
4 Bem claramente constou
de Nise na mão ferida,
que o ser liberdade, e vida
tudo a Fábio sujeitou:
discreta, e entendida andou
neste amoroso embaraço,
pois para apertar o laço
mais da sua sujeição,
que o firma nesta ocasião,
mostrou o sangue do braço.
5 Queixosa Nise em verdade
se mostrou nesta ocasião,
não da ferida da mão,
do golpe sim da saudade:
porque com tal crueldade
a move de Fábio a ausência,
que sem haver resistência
no peito, que amante o adora,
Lágrimas de sangue chora
com repetida veemência.
6 De propósito parece,
que se deu Nise este corte,
porque um amor, que é tão forte,
só bem assim se encarece:
e quem duvida, o fizesse
para dar-nos a entender,
que quis seu sangue verter
para mostrar sua fé,
que tanto ama a Fábio, que
quer dar-lhe o sangue a beber.
SONHO QUE TEVE COM HUMA DAMA ESTANDO PREZO NA CADEYA.
Adormeci ao som do meu tormento:
E logo vacilando a fantesia
Gozava mil portentos de alegria,
Que todos se tornaram sombra, e vento.
Sonhava, que gozava o pensamento
Com liberdade o bem, que mais queria,
Fortuna venturosa, claro dia;
Mas ai, que foi um vão contentamento!
Estava, Clóris minha, possuindo
Desse formoso gesto a vista pura,
Alegre glórias mil imaginando:
Mas acordoi, e tudo resumindo,
Achei dura prisão, pena segura:
Oh se sempre estivera assim sonhando!
A LUIZA ÇAPATA QUERENDO, QUE O AMIGO LHE DESSE QUATRO INVESTIDAS
DUAS DE DIA, E DUAS DE NOYTE.
1 Uma com outra são duas
pela minha tabuada,
e vós, Mulata esfaimada,
quereis duas vezes duas:
se isso vos dera por luas,
e o quiséreis cada mês,
dera-vos três vezes três;
mas quatro entre dia, e noite,
dar-vos-ei eu tanto açoite,
que farão dez vezes dez.
2 Pois, Puta, essa vossa crica
tão gulosa é de rescaldos,
que cuidais que os nossos caldos
os compramos na botica?
o caldo não multiplica,
quando entre quatro virilhas
se liquida em escumilhas,
e vós a lavadas mãos
quereis um caldo de grãos,
por um caldo de lentilhas?
3 É o caldo uma quinta-essência,
e tal, que uma gota fria
produz uma Senhoria,
e talvez uma Excelência:
se tendes dele carência,
e por fartar a vontade
o quereis em quantidade,
não trateis não de esgotar
os culhões de um secular,
ide à barguilha de um Frade.
4 Puta, se a vossa Ração
hão de ser quatro à porfia,
dormi com quatro em um dia,
e quatro se vos darão:
mas tirá-las de um Cristão,
que apenas janta, e não ceia,
e não dará foda, e meia,
isso é mais que crueldade,
e mais tendo vós um Frade,
que é gato que nunca mea.
5 Mudai pois os pensamentos,
e se não heis de quietar
com uma do secular,
ide servir aos conventos:
que os leigos já macilentos,
esvaídos, e esgotados
com um mês de amancebados
cobram tão grande fastio,
que já pagam de vazio
dois mil vasos alugados.
6 No Filho do Caldeireiro
tendes emprego adequado,
pois aos malhos ensinado
fode com um malhadeiro:
se no vale, ou se no oiteiro
lhe dais a mama, e o peito,
e achais, que é moço de jeito,
na parte do olhinho morto
tendes razão, pois é torto,
mas tem o membro direito.
A HUMA DAMA QUE SE ENCARECIA DE FORMOSA POR VENDER-SE CARO.
Dizem, que é mui formosa Dona Urraca.
Quem o sabe, ou quem viu esta minhoca?
Poderá ter focinho de Taoca,
E parecer-me a mim uma macaca.
Hei de querê-la, sem ver-lhe a malaca
Em risco de estar podre a Sereroca?
E se ela acaso for galinha choca,
Como hei de dar por ela uma pataca?
A mim me tenham todos por velhaco
Se amar a tal fragona por capricho,
Sem primeiro revê-la até o buraco.
Que pode facilmente o muito lixo,
Por não limpar às vezes o mataco,
Terem-lhe os caxandés tapado o esguicho.
A BITANCOR, QUE NA PRIMEYRA VEZ QUE COM ELLA CONVERSOU O POETA,
LOGO FOI ADMITTIDO SEM A MINIMA REPUGNANCIA.
1 Querendo obrigar-me Amor
depois de tanta afeição
me pôs na palma da mão
a discreta Bitancor:
agradeci-lhe o favor,
e querendo-o pôr nas palmas,
agonizando entre calmas
de amor minhas altivezes,
lhe rendi a alma mil vezes
porque não tive mil almas.
2 Multipliquei de artifício
o rendimento, e amor,
porque uma alma a seu candor
era curto sacrifício:
e ela destra no exercício
de amor, e seu rendimento,
com gosto, e contentamento
me agradeceu por então
medir eu minha afeição
pelo seu merecimento.
3 Que lhe caísse eu em graça,
seus olhos o não desdizem,
porque sempre os olhos dizem,
o que dentro n'alma passa:
graças a Amor, que a desgraça
não veio empecer-me aqui,
porque muitas vezes vi,
que enamorado, e rendido
por perder o merecido
até o perder-me perdi.
4 Ela me dá por perdido,
e está disposta a querer-me,
cum que não perco o perder-me,
pois já a tenho merecido:
um amor tão bem sortido
por mãos de uma divindade:
este amor em realidade,
que não trazer-me um ninguém
da fortuna no vaivém
do tempo na eternidade.
A THOMAZ PINTO BRANDÃO QUEYXANDOSE DE HUMA MULA QUE LHE TINHA
PEGADO HUA MULATA, ÂQUEM DAVA DIVERSOS NOMES, POR DISFARCE,
DIXENDO HUMAS VEZES, QUE ERA INGUA, E OUTRAS QUEBRADURA.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.