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#Contos#Literatura Brasileira

Rui de Leão

Por Machado de Assis (1872)

- Como eu perdi - replicou D. Martim -: também eu a amei mas nada pude conseguir. O licenciado transtornou-lhe a cabeça. Que lhe havemos de fazer?

- Dar uma lição ao licenciado.

Dom Martim piscou o olho, via-se-lhe no rosto que ele não vinha para outra cousa.

- Como lhe daremos a lição?

- Como?

- É verdade que ele costuma a falar com a prima às escondidas...

- A horas mortas?

- Sim. Chega ao portão e ela fala de cima da janela que dá para o jardim.

- Basta.

- Qual é o seu plano? - perguntou D. Martim arranjando o capote.

- Esganá-lo.

- Mas isso é perigoso; o intendente da polícia não é de graças...

- Qual intendente - exclamou Rui -; pois eu cá vou consultar intendente para esganar um patife!

Saiu D. Martim exultando de contente, e Rui deitou-se meditando na vingança que devia tomar do rival. Na subsequente noite não apareceu Rui de Leão em casa da família de D. Madalena, e foi esperar o licenciado no sítio indicado por D. Martim. A noite era escura, e ameaçava temporal. Rui saíra de casa sem criado nem lampião. Armou-se com uma faca, encostou-se à parede e esperou que batesse a hora da vingança.

Ao cabo de longo tempo, que é sempre longo para quem espera, Rui de Leão ouviu passos ao longe na direção do ponto em que se achava. Ao mesmo tempo abriu-se a janela de Madalena e o vulto da moça apareceu como Julieta quando esperava Romeu e a escada. Era a hora suprema.

Coseu-se o doutor dos doutores com a parede e esperou o feliz rival que se aproximava cautelosamente. Mal o pobre namorado soltava as primeiras palavras, saltou-lhe acima o fidalgo e enterrou-lhe no estômago uma comprida faca. O licenciado apenas deu um gemido e tentou murmurar o nome de Madalena. Caiu. Rui afastou-se rapidamente do teatro do crime.

No dia seguinte de manhã apareceu a polícia, levantou o cadáver, fez-lhe os exames precisos, e começou as indagações para ver donde partia o crime.

A primeira suspeita recaiu sobre o pai de Madalena, cuja oposição ao licenciado era conhecida; mas o pai, vendo contra si a espada da lei, declarou que talvez fosse antes o crime praticado por um indivíduo que igualmente pretendia Madalena, homem de boa presença, formado em várias matérias e conhecido em toda a cidade.

Houve da parte do intendente tão virtuosa repulsa ao ouvir tão negra suspeita, que o nosso Rui se lha visse, devia votar-lhe eterna gratidão. Todavia, como a justiça não podia deixar de averiguar tudo, mandou-se chamar Rui de Leão, que apenas chegou negou o crime. Entretanto deu-se lhe busca em casa, e achou-se-lhe a faca ensanguentada, que por um incrível descuido Rui esquecera de lavar ou deitar fora. Interrogada a criadagem, confessou que o amo saíra de casa à noite, sem escudeiro, embuçado num capote e escondendo alguma cousa.

Todos os indícios eram contra o assassino. A justiça d`el-rei tomou conta do réu; abriu-se processo em regra e ao cabo de algum tempo foi condenado Rui de Leão a morrer de morte natural na forca. Madalena, que até então estimara a prisão e o processo do réu, teve pena dele quando soube que ia morrer enforcado.

Não deixara de lembrar-se que a causa daquele crime era ela. Rui aparecia aos olhos da moça com um aspecto tão interessante que ela lhe daria a mão de esposa se tanto fosse preciso para livrá-lo da forca. Pobre licenciado!...

Marcado o dia para a execução, levantou-se no largo de Moura a forca, e o cortejo saiu da cadeia com o juiz, o padre, o carrasco e o pregoeiro. Troava a campa à frente, lia o pregoeiro a sentença da relação em cada esquina, e lá ia o nosso Rui recebendo do sacerdote as consolações que o carrasco lhe não podia dar.

Grande número de povo enchia o largo da execução, mas quem pensa o leitor que estava entre os espectadores? Dom Martim mais pálido que a morte, vítima do remorso e da curiosidade, causa indireta do crime e da desgraça. Queria ele ouvir as últimas palavras do condenado, de que receava alguma revelação relativa à sua pessoa.

Subiu Rui as escadas da forca, colocou-se em posição conveniente, abriu a boca para fazer um discurso, mas os tambores cobriram a voz do orador. Imediatamente entrou o carrasco nas honrosas funções que a lei lhe conferia em nome do evangelho, e o corpo de Rui de Leão ficou pendente da forca.

A pouco e pouco foi saindo o povo aterrado com o espetáculo; e em todas as boticas e casas de barbeiro da cidade foi comentado o crime do defunto. Quando veio a noite foi o carrasco tirar da forca o cadáver do réu acompanhado do respectivo ajudante. Cortou a corda e o corpo foi à terra.

- Ai! - disse Rui, - atordoado com a queda.

- Que foi? - perguntou o carrasco ajudante.

- Não sei; foi um gemido de cão.

Aproximaram-se do corpo; mas qual não foi o seu espanto? Rui desatava tranquilamente o laço da corda e dizia:

- Levem-me a uma hospedaria que tenho fome.

O carrasco e o ajudante não ouviram mais do que a palavra - levem-me -; viram o gesto de Rui e deitaram a correr. Toda a cidade ficou em alarma. Só se falava do enforcado que ressuscitara.

- Estava inocente! - gritavam uns.

(continua...)

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