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#Contos#Literatura Brasileira

Silvestre

Por Machado de Assis (1877)

— Já sei, disse ele; andas atarefado com o trabalho. Não importa! Com ele é que te hás de achar. O foro não dará a todos um palácio; mas com honra, trabalho e economia pode dar honesta abastança...

José Vargas continuava uma série infinita de reflexões, ajustadas ao caso mas alheias ao espírito do filho. Enquanto o pai falava, ele deixava-se ir atrás do sonho favorito. Em casa a alegria turbulenta da irmã e as lágrimas puras da mãe tiveram a virtude de o fazer baixar daquelas nuvens à terra sólida das afeições domésticas. Poucas horas bastaram para matar muita saudade e aquietar muita aflição. Silvestre esqueceu ali, por algum tempo, os sentimentos de outra ordem. Caindo a noite, despediu-se não sem prometer que voltaria na seguinte semana; José Vargas foi com ele até meio caminho; logo que o deixou, Silvestre seguiu rápido para casa.

Camila esperava-o com ansiedade; ele encontrou-a carinhosa e risonha. Luís Borges chegou pouco depois; conversaram da família de Silvestre, algum tempo, antes do chá. Quando Silvestre se despediu dos dois protetores, disse o advogado à mulher.

— Menti hoje ao pai deste pequeno; disse-lhe que o filho está absolutamente entregue aos meus trabalhos, quando a verdade é que só os faz por desempenho de obrigação. Ora, se efetivamente tivéssemos ali um talento, uma esperança, um futuro, a mentira era piedosa e o resultado viria justificá-la; mas que sabemos nós da aptidão de Silvestre? Coisa nenhuma. Estamos a embaçar o pai, sem proveito para o filho; é leviandade pelo menos.

Camila fez um gesto para falar.

Que é? perguntou o marido.

— Nada, disse Camila depois de um silêncio. Esperemos; algum tempo ainda e ele nos dará...

— Quisera contratar-lhe um mestre, mas se nada vejo do que ele faz... Já lhe propus fazê-lo entrar para a Academia; recusou, porque o pai havia de opor-se. Camila tivera idéia de mostrar ao marido o desenho que Silvestre lhe dera e tal foi o motivo de seu primeiro movimento; mas a promessa feita ao rapaz de que não o mostraria a ninguém, fechou-lhe a boca. Agora, insistindo o advogado, ela ouvia em sua consciência uma voz remota que dizia: “. Ao que outra voz mais próxima respondia: “. Insistia a primeira: “. Acudia a segunda: “. E uma e outra falaram ainda longo tempo, enquanto Luís Borges, supondo ter um diálogo com a mulher, ficara reduzido a um simples monólogo.

No dia seguinte, que era domingo, começou enfim Silvestre o famoso painel que trazia dentro de si. Como se datasse uma era nova, o jovem artista marcou a hora e o minuto em que lançou na tela os primeiros traços. Ele tinha a força dos criadores, que é ao mesmo tempo a fraqueza dos iludidos: a convicção de um grande papel debaixo do sol. Quantos, diante da tela ainda nua ou da folha de papel imaculada, não crêem que vão trabalhar para os séculos e não chegam a trabalhar para uma semana? Silvestre tinha essa crença ingênua, poderosa e vivaz. Ele ia dar ao mundo uma Vênus nova, melhor que as outras, mas digna irmã delas.

Camila foi ter com ele na primeira ocasião azada. Ele cobriu com uma toalha o encetado painel apenas ouviu os passos da moça; mas o gesto não tinha já o terror do primeiro dia; era antes coquetice que outra coisa.

— Já trabalhando! exclamou ela.

— Já.

— Vou-me embora.

— Não, ainda não.

— É algum retrato?

— Não é retrato.

Camila aproximara-se da tela; pegou na ponta da toalha, em ação de a levantar. Silvestre não obstou o movimento; ela não insistiu. Ambos davam assim uma prova de confiança e docilidade apreciada reciprocamente.

— Só lhe peço uma coisa, disse Camila.

— Que é? Diga.

— Não falte à promessa que me fez.

Silvestre respondeu com um gesto de assentimento. Era o mais que podia fazer na ocasião, porque não tinha voz; todo ele era olhos para a beleza incomparável de Camila. Vinha a moça num desalinho intencional — um meio de o familiarizar com ela, e mais que nunca viu Silvestre que não era outra a sua Vênus, não podia ser outra. Camila baixou os olhos com um gesto de Diana.

O jovem artista abriu então as suas pastas de esboços e estudos; um por um mostrou-os todos à esposa de Luís Borges. Eram corretos? Camila não podia dizê-lo; achou-os, todavia, lindíssimos.

— Oh! se você me ensinasse a desenhar! exclamou ela.

— Eu? Sou apenas discípulo.

— Discípulo!

— Discípulo da natureza e de mim mesmo.

Camila refletiu um instante.

Pois bem, disse ela; não me ensine; não desejo roubar-lhe o tempo. Mas...

— Diga!

— Era capaz de fazer o meu retrato?

— Talvez.

Camila interpretou esta palavra como uma afirmação, e agradeceu-o com tão infantil alegria que fez sorrir Silvestre, não tanto de orgulho como de curiosidade.

— Mas não fale nada ao Luís — recomendou a moça.

— Por quê?

— Eu lhe peço.

— Pois sim; será uma surpresa para ele quando vir o retrato pronto. Logo que Silvestre se achou só, pareceu ter colhido nova soma de inspiração. Um bafejo criador guiou o pincel do jovem artista. Daquele dia em diante a ocupação exclusiva do rapaz era o painel. Luís Borges comprava-lhe tudo o que era necessário à obra.

(continua...)

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