Por Machado de Assis (1872)
— Basta.
— Qual é o seu plano? perguntou D. Martim arranjando o capote.
— Esganá-lo.
— Mas isso é perigoso; o intendente da polícia não é de graças.
— Qual intendente! exclamou Ruy; pois eu cá vou consultar intendente para esganar um patife?
Saiu D. Martim exultando de contente, e Ruy deitou-se meditando na vingança que devia tomar do rival.
Na subseqüente noite não apareceu Ruy de Leão em casa da família de D. Madalena, e foi esperar o licenciado no sítio indicado por D. Martim. A noite era escura: e ameaçava temporal. Ruy saíra de casa sem criado nem lampião. Armou-se com uma faca, encostou se à parede e esperou que batesse a hora da vingança.
Ao cabo de longo tempo, que é sempre longo para quem espera, Ruy de Leão ouviu passos ao longe na direção do ponto em que se achava. Ao mesmo tempo abriu-se a janela de Madalena e o vulto da moça apareceu como Julieta quando esperava Romeu e a escada.
Era a hora suprema.
Coseu-se o doutor dos doutores com a parede e esperou o feliz rival que se aproximava cautelosamente. Mal o pobre namorado soltava as primeiras palavras, saltou-lhe acima o fidalgo e enterrou-lhe no estômago uma comprida faca. O licenciado apenas deu um gemido e tentou murmurar o nome de Madalena. Caiu. Ruy afastou-se rapidamente do teatro do crime.
No dia seguinte de manhã apareceu a polícia, levantou o cadáver, fez-lhe os exames precisos, e começou as indagações para ver de onde partia o crime. A primeira suspeita recaiu sobre o pai de Madalena cuja oposição ao licenciado era conhecida; mas o pai, vendo contra si a espada da lei, declarou que talvez fosse antes o crime praticado por um indivíduo que igualmente pretendia Madalena, homem de boa presença, formado em várias matérias e conhecido em toda a cidade. Houve da parte do intendente tão virtuosa repulsa ao ouvir tão negra suspeita, que o nosso Ruy se lha visse, devia votar-lhe eterna gratidão.
Todavia, como a justiça não podia deixar de averiguar tudo, mandou-se chamar Ruy de Leão, que apenas chegou negou o crime. Entretanto deu-se-lhe busca em casa, e achou- se-lhe a faca ensangüentada, que por um incrível descuido Ruy esquecera de lavar ou deitar fora. Interrogada a criadagem, confessou que o amo saíra de casa à noite, sem escudeiro, embuçado num capote e escondendo alguma coisa.
Todos os indícios eram contra o assassino.
A justiça d’Similia similibus curantur') Similia similibus curantur; estás vencido. Bebeu o resto do elixir do pajé. No dia seguinte morreu.
Assim acabou este grande homem, após quase três séculos de existência, tendo colhido louros na guerra, na ciência e no parlamento; feliz no jogo e nos amores; mimoso da fortuna; homem, enfim, que provou praticamente que a morte, longe de ser um mal, é um corretivo necessário aos aborrecimentos da vida.
Imitemo-lo nas façanhas e no amor ao estudo; não no desejo de ser imortal; e convencemo-nos de que o melhor elixir de imortalidade não vale os sete palmos de terra de Caju.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ruy de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1872.