Por Machado de Assis (1872)
— De um modo simples, disse Coelho consigo mesmo; pergunto-lho. E depois de um silêncio:
— Lúcia, pergunto-lhe; admiras-te de que fosse eu quem naquela noite estava no jardim; supunhas então que era o outro... Quem?
Lúcia franziu a testa, levantou a cabeça, mediu e rapaz de alto a baixo e saiu da janela.
— Está tudo perdido, pensou Coelho; lá se me vai a pequena, e com ela... Reparemos o erro.
O erro não era difícil reparar. Lúcia parece que esperava por isso mesmo.
— Olhe, disse ela, há um mistério aparente, mas uma coisa muito natural, que eu só lhe explicarei depois de casada.
E disse isto com um ar tão mimoso, que por um triz não endireita a boca. Coelho deu-se por satisfeito.
Foi marcado o dia do casamento e começaram a correr os banhos. Lúcia estava mais alegre que a mais alegre moça deste mundo; Ypsilanti dignou-se abrir um riso prazenteiro; e Coelho fez grandes promessas aos seus credores.
Dez dias antes do casamento, estava Coelho em casa devaneando e construindo os mais soberbos castelos, quando o moleque veio dizer-lhe que um sujeito mal-encarado o procurava.
— Conheces quem seja?
— Nunca o vi, não, senhor.
— Manda-o entrar.
Daí a pouco chegava Coelho à sala e dava com um homem alto, vestido de preto, sobrecasaca abotoada, cabelos em desordem e olhar ameaçador.
Coelho pôs-se em guarda.
— Que me quer?
Sllêncio.
— Que me quer? repetiu ele.
— Tenho a honra de falar ao sr. Coelho?
— Sim, senhor.
— Queria dar-lhe duas palavras.
— Pode falar.
Sentaram-se.
— Chamo-me Carlos...
— Ah!
— Ah?
Coelho estremeceu.
O homem continuou:
— Carlos Alves da Anunciação. Já ouviu alguma vez pronunciar o meu nome?
— Não me lembra...
— Lúcia devia casar comigo.
— Ah!
— Ah?
Coelho tornou a estremecer.
— E foi o senhor que me arrancou a felicidade das mãos, quem me lançou no abismo de todas as misérias, porque eu...
Não pôde continuar; tapou a cara com as mãos, e pareceu — pareceu ao menos — chorar à larga.
Coelho ficou comovido.
— Peço-lhe, disse este, que não me acuse...
— Não o acuso de nada, respondeu Alves, eu apenas digo que foi o senhor quem me fez desgraçado, não por vontade própria, mas por irrisão da minha sorte. Seja o que Deus quiser...
Alves parecia mais calmo.
— Falei-lhe um pouco exaltadamente, mas é a dor que me obriga a estes arrebatamentos. Se soubesse como eu sofro!
— Mas que lhe poderei eu fazer agora? disse Coelho.
O homem pareceu não ouvir essas palavras.
— Às vezes, cuido que estou doido. Sinto um fogo em mim; uma ardência... Ah! .. E, dizendo isto, começou a passear pela sala com grandes passos e sacudimentos de cabeça.
De repente, parou o homem.
— Sr. Coelho, disse ele, eu quero perdoar-lhe e não posso.
— Perdoar-me? Mas que culpa...
Coelho estacou.
Estaria o homem informado da entrevista no jardim, e teria assim descoberto o achado da carteira? Nesse caso, era positivo que a noiva estava de acordo com o antigo namorado. Coelho perdia-se num mar de conjecturas.
— Perdoar-me o quê?
— Perdoar-lhe a minha morte.
— A sua morte?
— Sim, porque eu vou morrer.
— Não! não deve morrer! Mas, em todo caso, já lhe disse, que tenho eu com isso? Que me quer o senhor?
Alves encarou-o, pôs o chapéu na cabeça e saiu.
VIII
A INDENIZAÇÃO
Coelho ficou atônito.
A entrada e a saída daquele homem seria inexplicável se ele não estivesse doido. Só a loucura podia explicar semelhante procedimento.
Coelho deu graças a Deus de se ver livre do doido, e deu ordem ao moleque de nunca mais abrir a porta àquele sujeito.
A ordem era inútil.
O homem reapareceu à porta da sala.
— Ainda aqui! exclamou Coelho.
— É verdade, respondeu Alves. Venho propor-lhe um meio de nos reconciliarmos. Coelho fez um gesto de impaciência.
— Mas, senhor, nós nunca estivemos conciliados, nem brigados. Não sei que haja necessidade...
— Há, respondeu tranqüilamente o homem. Quer ouvir-me?
— Fale.
— Eu disse-lhe há pouco que amava a sobrinha de Ypsilanti.
— Coelho fez um gesto afirmativo.
— Era mentira, disse Alves.
— Ah!
— É verdade, era mentira, não aamava; o meu fim era fazer um bom casamento, isto é, um casamento rico.
— Ainda bem que o confessa, disse Coelho, respirando.
— Confesso.
Coelho levantou-se.
— Nesse caso, disse ele, se e senhor tem a impudência de confessar que não amava a pessoa em questão, se confessa que queria um casamento rico, por que razão está aqui?
— Estou aqui por uma razão bem simples, disse tranqüilamente o homem.
— Qual?
— Porque o senhor...
E parou.
— Porque eu... disse Coelho.
O homem cravou os olhos nele.
— Porque eu... repetiu Coelho.
— Porque o senhor também a não ama.
— O quê? disse Coelho espantado.
— O senhor também a não ama...
— Essa agora!...
— O seu fim é também fazer um casamento de dinheiro... concluiu calmamente o homem. Coelho estava estupefato.
— De que se admira? perguntou Alves.
— Da sua audácia.
— Em que consiste a minha audácia?
— Meu caro senhor, isto é ridículo, disse Coelho encolerizado; a ninguém dou o direito de duvidar dos meus sentimentos.
— Não digo que o senhor dê esse direito a ninguém, retorquiu Alves sentando-se sossegadamente, mas eu é que o tomo por minhas mãos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quem não quer ser lobo.... 1872. Publicado originalmente em periódico.