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#Anedotas#Literatura Brasileira

Qual dos dois

Por Machado de Assis (1872)

Depois do jantar, Luís esteve algum tempo a sós com Augusta. Conversaram de coisas indiferentes. A moça felicitou-o pelos aplausos que lhe deram como orador. Luís recebia os com um ar de modéstia que não escondia completamente o sentimento de satisfação que lhe dava aquele elogio vindo da boca de Augusta.

Depois, acrescentou:

— Todos esses aplausos têm para mim uma única vantagem: adiantar a minha posição.

— Tem ambição política?

— Não; bem sabe qual é a minha ambição.

A moça ficou séria.

Luís contemplou-a com um sorriso dc dor; depois procurou pegar-lhe na mão, que ela retirou apressada, dizendo:

— Perdão! tenho que fazer...

E como desse um passou para fora, Luís adiantou-se e disse-lhe:

— Engana-se, D. Augusta, eu não venho falar-lhe de coisas em que não posso tocar. Queria simplesmente pedir-lhe desculpas se alguma vez a ofendo com alusões a um sentimento de que não tenho culpa.

— Nem eu, creio.

— Voluntariamente, não.

A moça recuou e foi sentar-se.

— Olhe, disse ela; disse-lhe uma vez que podíamos ser bons amigos. Quer assim?

— Aceito, e já é muito; mas creio que me é lícito esperar o seu amor.

— Esperança inútil.

— Inútil? será, mas espero.

Augusta sorriu.

— Ambiciosa, disse consigo Luís.

Mas ao mesmo tempo, como que arrependido desta exclamação interior, o namorado entrou a sorrir para ela — sorriso de súplica e de contrição.

Augusta não reparou nisso.

No entanto, a tarde caía, e a melancolia da hora servia de fundo àquele quadro já de si tão triste: um coração de fogo ao pé de um coração de rocha, um destino inteiro nas mãos de uma mulher indiferente, a vida ou a morte de um homem dependente do olhar compassivo de uma mulher.

Uns terão simpatia pela posição de Luís; outros tédio. Depende dos caracteres. Os altivos julgarão que nenhum homem deve aspirar à mão de uma mulher, quando esta lha recusa. São leis boas para o papel. Quem conhece o coração humano compreende, lastimando embora, essas situações humilhantes em que o amor pode colocar um homem, aliás brioso e digno de si.

Não poucas vezes, Luís discutira consigo mesmo a situação em que se achava, e nunca o seu espírito lavrou uma sentença de abandono que lha não reformasse o coração, juiz em última instância nestas matérias de amor.

Todavia, a cena daquela tarde impressionara singularmente o moço. Pareceu-lhe que a insistência seria já degradação; resolveu lutar e esperar.

Despediu-se de Augusta pouco depois e saiu.

Augusta, quando se achou só, respirou; era evidente que a presença de Luís a importunava.

VII

A doença de Marcos foi mortal; dois dias depois da visita de Amélia o bom velho faleceu, deixando saudades a todos quantos o conheciam.

Na vida de Daniel, foi um vácuo. Não se costumara à idéia de que viria a perder o pai; era a única família que tinha, e provavelmente o único ente a quem estimava neste mundo. Os amigos deram-lhe as consolações do costume; alguns discursos foram proferidos na ocasião de dar-se o cadáver à sepultura; mas discursos, nem consolações podiam distrair o moço da dor que acabava de sofrer.

Para os outros pais foi um fausto acontecimento; era o noivo rico que convinha prender de algum modo. Por isso foi grande a afluência de senhoras à missa do sétimo dia. Lá estavam Madalena e Augusta.

Quando, no fim da missa, começou a cerimônia dos pêsames, Daniel recebia-os maquinalmente e sem dar sinal de si. Não aconteceu o mesmo, quando Augusta se aproximou dele e murmurou algumas palavras de consolação; não contava que ela estivesse na igreja.

Todavia, nem o estado dele, nem o lugar eram próprios para maiores espantos. A moça seguiu a mãe, e Daniel ouviu as consolações do resto dos assistentes. Valadares convidou Daniel para ir passar alguns dias em casa dele; apesar das recusas, tanto instou que Daniel cedeu, e para iá foi mesmo dali.

A morte do velho Marcos punha nas mãos de Daniel uma magnífica fortuna. Não contando com ela tão cedo, o rapaz não sabia em que empregá-la. A mulher de Valadares aconselhou-lhe uma viagem à Europa como coisa de maior proveito. Este conselho provocou entre o marido e a mulher uma pequena discussão que ia terminando por um ataque de nervos, desenlace seguro de muitas tragédias domésticas.

A idéia de viagem, também, não agradou a Daniel.

— Afinal, disse ele, a minha situação é a mesma, a diferença é que eu hoje administro aquilo que outrora fruía simplesmente.

— Por isso, digo eu, atalhou Amélia, como os trabalhos de administração são enfadonhos, procure uma companheira. Olhe, eu creio que tenho uma... que não se lhe dava de...

— Quem é? perguntou Daniel.

— A Augusta B...

Daniel franziu a testa. Acreditou que a solicitude da moça, indo à missa, era simplesmente um cálculo. Figurava-lhe um espírito altivo, e saía-lhe uma mulher interesseira. Acaso a mulher de Valadares adivinhou esta impressão de Daniel? O certo é que imediatamente acrescentou:

— Mas repare que isto é lembrança minha; ela não me disse coisa alguma. Creio que até não seria coisa fácil; porque me parece orgulhosa demais...

— Parece-lhe isso?

(continua...)

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