Por Machado de Assis (1867)
— Não vi eu, dizia ele consigo, que distância imensa me separava daquela mulher? Quem me levou a levantar olhos para tão alto? Era bem pensada a minha esquivança de outrora, e se eu nunca aceitasse o convite que me abriu as portas do mundo estaria agora tão calmo e tão tranqüilo como dantes. Volto agora com uma ilusão de menos e um remorso de mais. Eu devia ver desde logo que se ela me abria as portas de sua sala, não estava obrigada a abrir-me as do seu coração.
Teófilo resumiu estes sentimentos e estas reflexões em uma elegia que escreveu nessa
mesma noite; soluço poético, solto no meio do devaneio da dor e na situação sombria do seu coração.
No dia seguinte a velha Teresa reparou no ar triste do filho e nos olhos pisados com que ele se levantou. Teófilo respondeu às solicitações da mãe, que esta última circunstância provinha de se ter deitado tarde; e quanto à tristeza, disse que nunca se achara de ânimo mais alegre.
Dizendo isto procurou sorrir.
D. Teresa acreditou.
Helena apareceu então apresentando o mesmo aspecto. As perguntas da mãe de Teófilo tiveram a mesma resposta.
Apesar de estranhar isto, D. Teresa não deu ao caso maior importância. O almoço foi silencioso e triste.
Passaram-se alguns dias.
Teófilo continuou triste do mesmo modo, mas como não aparecia em casa senão tarde, não tinha ocasião de ser observado. As circunstâncias de Helena eram piores. Helena no dia seguinte à noite em que ouvira soluçar Teófilo foi ao gabinete deste apenas o viu sair. Aí deu com os versos escritos na véspera.
Não eram os primeiros em que o nome de Sílvia aparecia a Helena. Já em poesias anteriores o mesmo nome deixava-lhe perceber no coração do poeta um amor desconhecido. A linguagem da última elegia deu a conhecer a Helena a situação do coração de Teófilo.
Helena deixou o gabinete enxugando as lágrimas.
Que sentia esta menina pelo poeta? Era simples amor de irmã ou amor de mulher? Não era o primeiro, e não se podia absolutamente dizer que fosse o segundo. O amor, dizem os moralistas, nasce de súbito. O que Helena tinha por Teófilo não era um sentimento de caráter semelhante.
Educados juntos, chegaram ambos à idade da adolescência e da mocidade sem que ela sentisse por ele mais do que uma simples afeição fraternal.
Essa afeição mudou de natureza com o andar dos tempos e a mudança das circunstâncias.
Quando o circulo das afeições de Helena se foi estreitando com a morte e a separação, a moça concentrava os sentimentos do seu coração até chegar a não ter para estima mais do que as duas criaturas com que a achamos agora: a velha Teresa e Teófilo. Concorreu outra circunstância para a mudança dos sentimentos de Helena relativamente ao filho de D. Teresa. Helena, no desenvolvimento completo da sua mocidade, não amara ainda. Ela olhou para o futuro e em redor de si. Não viu nenhum coração disposto a receber as primícias do seu.
Um dia, sem reparar, sentiu que se tivesse de escolher entre todos os homens um marido, era Teófilo aquele a quem daria a palma. A inteligência do moço, as suas qualidades, a estima que lhe tinha, tudo se reunia para trazê-lo à memória de Helena. Desde então os seus pensamentos se voltaram para ele e uma revolução operou-se no espírito da moça. O que sentia era então mais terno que o afeto de irmã e menos ardente que o amor de mulher. Se este amor não era o resultado de uma simpatia íntima e súbita, tinha ao menos a qualidade de ter por fundamento a estima e o respeito, dois sentimentos bastantes para dar a felicidade a um casal.
Tal é a explicação da curiosidade de Helena relativamente às obras poéticas de Teófilo. A pobre moça compreendia que ali estava a alma do seu escolhido. Um dia, porém, não viu só a alma; viu a alma e viu uma página escrita da vida do poeta, página cor-de-rosa ao princípio, negra e sombria no fim.
Esta revelação trouxe o luto ao espírito de Helena.
Era outra que ele amava. Se essa ao menos correspondesse ao amor de Teófilo, talvez a moça chorando o destino, não amaldiçoasse aquela que concorria com ela na escolha do mesmo homem. Mas não era assim. A amada do poeta não correspondia aos afetos dele. D. Teresa notou a tristeza de ambos, como dissemos acima. Supôs ao princípio simples coincidência; mas afinal caiu-lhe uma suspeita no espírito. Talvez se amem de muito, talvez se arrufassem de pouco. Quis observar, mas nada conseguiu saber. Lembrou-lhe interrogar diretamente Helena; mas essa resolução não passou ao princípio de uma simples idéia. A questão era delicada.
Entretanto, uma noite em que Teófilo se achava em casa e procurava no estudo uma hora de distração, batem palmas à porta.
Era Augusto.
Teófilo recebeu-o no gabinete.
— Que me queres? perguntou ele ao amigo.
— Ouvem-nos? disse Augusto acendendo um charuto.
— Não.
— Bem.
— Que me queres?
— Sei tudo.
— O quê?
— Sei que amaste Sílvia, sei que lho disseste, sei que ela recusou o afeto do teu coração. Teófilo empalideceu.
— Por que empalideces? perguntou Augusto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Possível e impossível. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.