Por Machado de Assis (1874)
— Tinha percebido que a pequena tramava alguma coisa; foi espreitar pelo buraco da fechadura, e viu-a preparar as trouxas; desceu ao quintal e de lá ouviu a voz de teu tio; por meio de uma escada de mão trepou ao telhado no momento em que a moça ia pôr o pé fora da casa. Avalie-se o drama que se passou ali no telhado. O pai, armado com uma pistola, apontou-a ao peito de Pedro Antão; este viu iminente o seu fim. Quem poderia salvá-lo?
— “.
— Quem era?
— Espera. O vulto desarmou o pai de Cecília e intimou-lhe a retirada; o velho quis recalcitrar, mas teve de obedecer à voz imperiosa do salvador de Pedro Antão. Tendo escapado por milagre à morte que o esperava, o homem voltou-se para o vulto e agradeceu-lhe aquela intervenção providencial. Depois pediu que entrasse com ele em casa para lhe explicar a razão de achar-se ali. Pedro Antão meditava uma mentira. O vulto respondeu simplesmente.
— Eu sei tudo!
— Sabe tudo?
— Quem é o senhor?
— Ninguém.
— Parodiou o Garrett.
— Convidou teu tio ao vulto para ir descansar alguns minutos em casa. O vulto aceitou. Atravessaram o telhado e entraram pela janela. Como estivesse escuro, Pedro Antão tomou um fósforo, que levara consigo para a volta e à luz quem havia ele de ver?
— Quem?
— Adivinha.
— Não sei.
— O criado?
— Sim.
— O defunto?
— Nem mais nem menos, o defunto.
— Essa agora!...
— Imagina o rosto do pobre homem, deu um grito e correu; o criado segurou-o ainda pelas abas do paletó; Pedro Antão fez um esforço, escapou-se-lhe das mãos, caíram-lhe os óculos; e ele foi rolando pela escada abaixo até cair morto.
— Que horror!
— Aqui tens, concluí eu nem mais nem menos a história do tio, dos seus motivos de reclusão, e da sua morte desastrosa; aí tens explicados os óculos no corredor, a escada de seda na outra sala. Queres mais claro?
— Realmente, disse Mendonça, falas com uma segurança que pareces ter visto tudo isto!!
— Para que serviria a perspicácia então?
— Safa! Eras capaz de provar que eu ontem matei um homem!
— Questão de perspicácia; nada mais. Queres apostar uma coisa?
— O quê?
— Queres apostar que eu acho nesta secretária algum indicio do que estive a referir?
— Então sabias alguma coisa?
— Eu, nada. Mas tenho um pressentimento de que aqui dentro acharei coisa que nos guie e me prove o veracidade do que te acabei de contar. Vamos abri-la.
— Com quê?
— Não tens nada?
— Nada. Sabes que mais? Vamos embora. Amanhã, abriremos isto.
— Não, agora mesmo.
— Qual olha; são três horas quase. Vamos dormir; amanhã voltarei contigo e de manhã, virá conosco um homem que entenda disto...
— Pois sim.
Saímos da casa de Pedro Antão; e eu confesso que não dormi a noite inteira, porque o pouco que dela restava, gastei-a eu a pensar na história do homem. Se eu achasse na secretária alguma coisa, uma cartinha de amores, uma lembrança de mulher, tinha ganho a glória de ter adivinhado uma história que ninguém descobriria nem exporia com tanta lucidez.
No dia seguinte às dez horas da manhã fui ter com o meu amigo Mendonça que ainda estava dormindo; esperei que acordasse e almoçasse, depois do que fomos buscar um ferreiro, encarregado de arrombar a secretária de Pedro Antão.
A fechadura não resistiu muito tempo.
Quando nos achamos sós, entramos a examinar o conteúdo daquele velho móvel, testemunha insuspeita da vida do tio.
Muitos objetos íamos encontrando que não serviam para o caso: papéis velhos, cartas de amigos, contas de credores, notas de leitura, etc.
Nada vimos que servisse ao caso.
— É impossível, disse eu; vejamos nas gavetinhas.
Nas gavetinhas também nada se encontrou que pudesse ter relação com a minha versão da morte de Pedro Antão.
De repente, disse-me Mendonça ter achado uns cabelos.
— Ah! exclamei, enfim!
— Mas são cabelos brancos, acrescentou Mendonça.
Em resumo, nada encontramos que nos pudesse guiar no assunto, e eu senti deveras porque o menor indício era naquele caso uma prova; ao menos eu assim o entendia. No meio do trabalho em que estávamos, não demos por uma gaveta escondida por trás de uma tabuinha.
Abriu-se a gaveta por si e graças a um acaso. Querendo eu arrancar um folheto, apertei uma mola e a gaveta abriu-se.
Dentro havia um rolo fino de papel com esta nota por fora. “.
— Vejamos.
Mendonça abriu o rolo. Continha uma folha de papel com as seguintes palavras: Meu sobrinho. Deixo o mundo sem saudades. Vivo recluso tanto tempo para me acostumar à morte. Ultimamente li algumas obras de filosofia da história, e tais coisas vi, tais explicações encontrei de fatos até aqui reconhecidos, que tive uma idéia excêntrica. Deixei aí uma escada de seda, uns óculos verdes, que eu nunca usei, e outros objetos, a fim de que tu ou algum pascácio igual inventassem a meu respeito um romance, que toda a gente acreditaria até o achado deste papel. Livra-te da filosofia da história. Calcule agora o leitor o efeito deste escrito, espécie de dedo invisível que me deitava por terra o edifício da minha interpretação!
Daí para cá não interpretei à primeira vista todas as aparências.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Os óculos de Pedro Antão. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1874.