Por Machado de Assis (1875)
— Afadigas-te sem proveito, observou tranqüilamente o advogado; nada podes obter senão uma das duas cláusulas que te propus. Escolhe.
Moreira era antes de tudo covarde. A hesitação dele não provinha de outra coisa senão do medo que lhe causava o efeito da declaração que se lhe pedia. Uma vez, porém, adquirida a certeza de que a morte seria a punição da recusa, era claro que ele escreveria o papel.
Entretanto, lançou-se aos pés do Alves, confessou-lhe tudo, pediu-lhe perdão. Alves mostrou-se inflexivel. Era forçoso ceder: Moreira cedeu. Com a mão trêmula, lançou mão da pena e escreveu o que lhe ditou o advogado, assinou o escrito e entregou-lho.
— Muito bem, disse Alves; a letra está um pouco trêmula, mas logo se reconhece o medo que tinhas no coração. Agora, miserável, à primeira tentativa posso desonrar-te e matar te.
Alves abriu a porta e saiu.
Moreira ficou abatido durante meia hora; veio depois uma reação, levantou-se da cadeira, quebrou uma cadeira, ameaçou, lastimou-se... mas tudo em vão. O mal estava feito e a punição era absoluta.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Onze anos depois. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1875.