Por Machado de Assis (1867)
— Ah! perdão... mas...
— Ama a outro, não? perguntou o moço com ironia.
— Amo, respondeu ela, mas de modo que o poeta antes adivinhou do que ouviu.
X
O moço saiu desesperado da casa de Carlota.
Passaram-se os dias. O mal que o minava foi tomando proporções maiores, e dentro de pouco tempo declararam-se os tubérculos pulmonares. É a minha moléstia, como sabe, doutor.
Aos primeiros cuidados que tiveram amigos e parentes para que se curasse, o poeta recusou peremptoriamente. Ofereceu-se ocasião de ir a Buenos Aires; não quis; e para não dar a verdadeira razão desta recusa, disse que tinha esperança de curar-se na terra natal, e que além disso tinha aversão às viagens marítimas.
Queria morrer? perguntará o doutor. Queria e quer. Odiava a mulher? Não, amava-a, ainda a ama tudo que possa dizer e sentir contra ela, não é senão amor disfarçado. Se não fosse assim, decerto que teria aceitado a vida que lhe ofereciam às mãos cheias. Mas recusou tudo; aceitou a moléstia como um bem da Providência. Pedir-me-á a explicação deste amor por um monstro, e eu não saberei o que lhe hei de dizer.
Todavia, há um fato que me parece explicar tudo, e vem a ser: se o amor do poeta fora um desses amores fáceis ou simplesmente uma dessas afeições que tomam base na vaidade pueril, creio que a perfídia de Carlota teria ofendido a suscetibilidade, deixando intacto o coração, porque realmente o coração não se interessa em afeições tais. Mas o amor do poeta não era esse: era o amor verdadeiro, o amor único; a traição não podia deixar de aniquilá-lo. Foi o que sucedeu. Não sou filósofo, doutor; mas afigura-se me que as coisas se passaram assim.
Durante os primeiros tempos de sua moléstia, o poeta procurou sempre todas as ocasiões em que podia ver Carlota. A custo puderam contê-lo no dia do casamento da viúva. Ele queria, à força, ir assistir a esta cena e confundir com a sua presença os desposados. Onde quer, porém, que pudesse encontrá-la, e em poucos lugares era, o rapaz ia e não deixava de fixar nessa mulher os olhos de dor e desespero. Depois, voltava mais doente e mais amante para casa. Houve uma ocasião em que podia falar-lhe; não quis; entendia poder vê-la; falar-lhe afigurava-se ao moço que seria condenável.
A moléstia progredia até que se declarou perigosa. A ciência foi impotente diante do princípio do mal que lavrava, até que um dia, no dia em que a Igreja celebra o nascimento do Salvador, poucas horas antes de morrer, o moço contou esta história ao sábio doutor que tratava dele.
XI
Que me diz a esta história?
— Digo que o ouvi a custo. Eu já sabia alguma coisa, mas não sabia tão completamente. Mas que necessidade tinha de me referir essas coisas. Olhe, está pior, a tosse está mais forte, vejo-o mais pálido e abatido. Foi imprudência...
— Não foi. Eu desejava que o doutor ficasse sabendo de mais uma história destas que de tão vulgares são algumas vezes tão funestas.
— Mas diga-me...
— O quê, doutor?
— Se as coisas todas que me contou tivessem uma explicação, explicação razoável, honesta; se em vez de monstro, Carlota fosse um anjo, viveria?
— Um anjo? do mal!
— Mas enfim...
— Não sei.
— Há de viver. Se alguma coisa houver que o possa fazer, visto que nem a ciência, nem os conselhos dos amigos podem fazê-lo sair desse abatimento em que está, acredite que empregarei os meus esforços para lhe dar esse remédio supremo.
— Veja sempre...
— Eu lhe prometo. Entretanto, ainda uma vez lhe peço, não se deixe perder nessas recordações angustiosas do passado; seja homem, e principalmente seja filho!...
— Minha mãe! ...
— Seja filho. Lembre-se que ela não poderá resistir...
— Sinto passos, doutor...
— É ela!
— Oh! minha mãe!
Minha mãe está mais pálida que eu. Interroga o doutor com o olhar, e este abaixa os olhos. Que haverá entre ambos?
— Onde vai, doutor?
— Vou sair. Até já.
— Volta?
— Volto. Mas espere, tome já este remédio.
— Então, doutor, como acha meu filho?
— Vou consultar alguns colegas e cá virei com eles. Talvez se possa fazer alguma coisa. Até já. Coragem, meu doente!
XII
São cinco horas da tarde.
Minha mãe foi descansar um pouco. Coitada! passou a noite em claro, e durante todo o dia de hoje não parou um instante.
O doutor ficou de voltar e voltou com mais dois médicos. Examinaram-me e resolveram que eu não estava tão perigoso como parecia. Depois assentaram no medicamento que se devia empregar. Uma das cláusulas que me impõem é ir tomar ares. Não sei se o faça. Eu creio que eles todos se enganaram acerca do meu estado.
Daqui a pouco estará findo o dia e com ele a minha vida, talvez. Estou pior. Sinto uma opressão que me incomoda; minha mãe aconselhou-me que me deitasse, mas eu não posso; quero morrer como homem.
Tenho necessidade de escrever. Quero derramar a minha última gota de poesia no papel, e deixar ao mundo ao menos uma lembrança de que fui mártir e poeta. Será este o canto do cisne.
Que direi?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.