Por Machado de Assis (1874)
Chegando a este ponto da carta, releu-a, e rasgou-a. Parecia-lhe que a frase tinha um tom misterioso, inconveniente na situação. Começou outra, e não lhe agradou também; ia escrever terceira, quando vieram anunciar-lhe a presença do Romualdo; correu à sala.
— Escrevia-lhe agora mesmo, disse ela logo depois.
— Para quê?
— Referiu aquelas palavras de meu marido a alguém?
— A ninguém. Não podia fazê-lo.
— Sei que não o faria; entretanto, nós, as mulheres, somos naturalmente medrosas, e o receio de que alguém mais, quem quer que seja saiba do que se passou, peço-lhe que por nenhuma cousa refira a outra pessoa...
— Certamente que não.
— Era isto o que lhe dizia a carta.
Romualdo vinha despedir-se; seguia daí três dias para o Norte. Pedia-lhe desculpa de não ter aceitado o convite de jantar, mas na volta...
— Volta? interrompeu ela.
— Conto voltar.
— Quando?
— Daqui a dous meses ou dous anos.
— Cortemos ao meio; seja daqui a quatro meses.
— Depende.
— Mas, então, sem jantar comigo uma vez? Hoje, por exemplo...
— Hoje estou comprometido.
— E amanhã?
— Amanhã vou a Juiz de Fora.
Carlota fez um gesto de resignação; depois perguntou-lhe se na volta do Norte.
— Na volta.
— Daqui a quatro meses?
— Não posso afirmar nada.
Romualdo saiu; Carlota ficou pensativa algum tempo.
“Singular homem! pensou ela. Achei-lhe a mão fria e, entretanto...”
Depressa passou a Carlota a impressão que lhe deixara o Romualdo. Este seguiu, e ela retirou-se à fazenda da tia, enquanto o Dr. Andrade continuou o inventário. Quatro meses depois, voltou Carlota a esta corte, mais curada das saudades, e em todo caso cheia de resignação. A amiga encarregou-se de acabar a cura, e não lhe foi difícil.
Carlota não esquecera o marido; ele estava presente ao coração, mas o coração também cansa de chorar. Andrade que a freqüentava, não pensara em substituir o finado marido; ao contrário, parece que principalmente gostava da outra. Pode ser também que fosse mais cortesão com ela, por ela ser menos recente viúva. O que toda a gente cria é que dali, qualquer que fosse a escolhida, tinha de nascer um casamento com ele. Não tardou que as pretensões de Andrade se inclinassem puramente à outra.
“Tanto melhor” pensou Carlota, logo que o percebeu.
A idéia de Carlota é que, sendo assim, não ficava ela obrigada a desposá-lo; mas esta idéia não a formulou inteiramente; era confessar que estaria inclinada a casar. Passaram-se ainda algumas semanas, oito ou dez, até que um dia anunciaram os jornais a chegada de Romualdo. Ela mandou-lhe um cartão de cumprimento, e ele deu-se pressa em pagar-lhe a visita. Acharam-se mudados; ela pareceu-lhe menos pálida, um pouco mais tranqüila, para não dizer alegre; ele menos áspero no aspecto, e até mais gracioso. Carlota convidou-o a jantar com ela daí a dias. A amiga estava presente. Romualdo foi circunspecto com ambas, e, posto que trivial, conseguia pôr nas palavras uma nota de interesse. O que, porém, realçava a pessoa dele era — em relação a uma, a transmissão do recado do marido, e a respeito da outra a paixão que sentira pela primeira, e a possibilidade de vir a desposá-la. A verdade é que ele passou uma noite excelente, e saiu de lá encantado. A segunda convidou-o também para jantar daí a dias, e os três reuniram-se outra vez.
— Ele ainda gosta de ti? perguntava uma.
— Não, acabou.
— Não acabou.
— Por que não? Há tanto tempo.
— Que importa o tempo?
E teimava que o tempo era cousa importante, mas também não valia nada, principalmente em certos casos. Romualdo parecia pertencer à família dos apaixonados sérios. Enquanto dizia isso, olhava para ela a ver se lhe descobria alguma cousa; mas era difícil ou impossível. Carlota levantava os ombros.
Andrade supôs também alguma cousa, por insinuação da outra viúva, e tratou de ver se descobria a verdade; não descobriu cousa nenhuma. O amor de Andrade ia crescendo. Não tardou que o ciúme viesse fazer-lhe cortejo. Pareceu-lhe que a amada via o Romualdo com olhos singulares; e a verdade é que estava muita vez com ele. Para quem se lembra das primeiras impressões das duas viúvas, há de ser difícil ver na observação do nosso Andrade; mas eu sou historiador fiel, e a verdade antes de tudo. A verdade é que ambas as viúvas começavam a cercá-lo de especiais atenções. Romualdo não o percebeu logo, porque era modesto, apesar de audaz, às vezes; e da parte de Carlota não chegou mesmo a perceber nada; a outra, porém, houve-se de maneira que não tardou em descobrir-se. Era certo que o cortejava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O caso do Romualdo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1874.