Por Machado de Assis (1891)
AINDA NÃO DISSE, - porque os capítulos atropelam-se debaixo da pena,-mas aqui está um para dizer que, por aquele tempo, as relações de Rubião tinham crescido em número. Camacho pusera-o em contacto com muitos homens políticos, a comissão das Alagoas com várias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do comércio e da praça, os teatros com alguns freqüentadores e a Rua do Ouvidor com toda a gente. Já então era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando apareciam as barbas e o par de bigodes longos uma sobrecasaca bem justa, um peito largo, bengala de unicórnio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era o Rubião -um ricaço de Minas.
Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-no discípulo de um grande filósofo, que lhe legara imensos bens,-um, três, cinco mil contos. Estranhavam alguns que ele não tratasse nunca de filosofia, mas a lenda explicava esse silêncio pelo próprio método filosófico do mestre, que consistia em ensinar somente aos homens de boa vontade. Onde estavam esses discípulos? Iam à casa dele, todos os dias,- alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os comensais. Não seriam discípulos, mas eram de boa vontade Roíam fome, à espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do anfitrião. Entre os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade que os primeiros acentuaram bem, mostrando maior intimidade dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os fez suportáveis entre si, e todos acabaram na doce e comum confissão das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, também os novos lhe deviam dinheiro, ou em espécie,-ou em fiança no alfaiate, ou endosso de letras, que ele pagava às escondidas, para não vexar os devedores.
Quincas Borba andava ao colo de todos. Davam estalinhos, para vê-lo saltar; alguns chegavam a beijar-lhe a testa; um deles, mais hábil, achou modo de o ter à mesa, ao jantar ou almoço, sobre as pernas, para lhe dar migalhas de pão.
-Ah! isso não! protestou Rubião à primeira vez.
- Que tem? retorquiu o comensal. Não há pessoas estranhas.
Rubião refletiu um instante.
-Verdade é que está aí dentro um grande homem, disse ele.
- O filósofo, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando o olhar pelos novatos, para mostrar a intimidade das relações entre ele e Rubião; mas, não logrou sozinho a vantagem, porque os outros amigos da mesma era, repetiram, em coro
- É verdade, o filósofo.
E Rubião explicou aos novatos a alusão ao filósofo, e a razão do nome do cão, que todos lhe atribuíam. Quincas Borba (o defunto) foi descrito e narrado como um dos maiores homens do tempo,- superior aos seus patrícios. Grande filósofo, grande alma, grande amigo. E no fim, depois de algum silêncio, batendo com os dedos na borda da mesa, Rubião exclamou
-Eu o faria ministro de Estado!
Um dos convivas exclamou, sem convicção, por simples ofício
-Oh! sem dúvida!
Nenhum daqueles homens sabia, entretanto, o sacrifício que lhes fazia o Rubião. Recusava jantares, passeios, interrompia conversações aprazíveis, só para correr à casa e jantar com eles. Um dia achou meio de conciliar tudo. Não estando ele em casa às seis horas em ponto, os criados deviam pôr o jantar para os amigos. Houve protestos; não, senhor, esperariam at sete ou oito horas. Um jantar sem ele não tinha graça.
-Mas é que não posso vir, explicou Rubião.
Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relógios pelos da casa de Botafogo. Davam seis horas, todos à mesa. Nos dous primeiros dias houve tal ou qual hesitação; mas os criados tinham ordens severas. As vezes, Rubião chegava pouco depois. Eram então risos, ditos, intrigas alegres. Um queria esperar, mas os outros... 0s outros desmentiam o primeiro; ao contrário, foi este que os arrastou, tal fome trazia,-a ponto que, se alguma cousa restava, eram os pratos. E Rubião ria com todos.
CAPÍTULO CXXXIV
FAZER UM CAPÍTULO só para dizer que, a princípio, os convivas, ausente o Rubião, fumavam os próprios charutos, depois do jantar,- parecerá frívolo aos frívolos; mas os considerados dirão que algum interesse haverá nesta circunstancia em aparência mínima.
De fato, uma noite, um dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete de Rubião; lá fora algumas vezes, ali se guardavam as caixas de charutos, não quatro nem cinco, mas vinte e trinta de várias fábricas e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o espanhol) acendeu o gás. Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que ainda não conheciam o gabinete admiraram os móveis bem feitos e bem dispostos. A secretária captou as admirações gerais; era de ébano, um primor de talha, obra severa e forte. Uma novidade os esperavadous bustos de mármore, postos sobre ela, os dous Napoleões, o primeiro e o terceiro.
-Quando veio isto?
-Hoje ao meio-dia, respondeu o criado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.