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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

- Lembra bem, interrompeu o Major Siqueira; por que não meteram minha filha na comissão das Alagoas? Qual! Há já muito que reparo nisto; antigamente não se fazia festa sem nós. Nós éramos a alma de tudo. De certo tempo para cá começou a mudança; entraram a receber-nos friamente, e o marido, se pode esquivar-se, não me cumprimenta. Isto começou há tempos ; mas antes disso sem nós é que não se fazia nada. Que está o senhor a falar de confusão? Pois se na véspera dos anos dela, já desconfiando que não nos convidariam, fui ter com ele ao armazém. Poucas palavras, disfarçava Afinal disse-lhe assim"Ontem, lá em casa, eu e Tonica estivemos discutindo sobre a data dos anos de D. Sofia; ela dizia que tinha passado, eu disse que não, que era hoje ou amanhã." Não me respondeu, fingiu que estava absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e pediu explicações. Eu entendi o bicho, e repeti a história fez a mesma cousa. Saí. Ora o Palha, um pé-rapado! Já o envergonho. Antigamentemajor, um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembaraço. Jogávamos o voltarete. Agora está nas grandezas; anda com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois não vi outro dia a mulher dele, num coupé, com outra? A Sofia de coupé! Fingiu que me não via, mas arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a admirava. Vaidades desta vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambuza.

-Perdão, mas os trabalhos da comissão exigem certo aparato

-Sim, acudiu Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na comissão; é para não estragar as carruagens. ..

-Demais, o coupé podia ser da outra senhora que ia com ela.

O major deu dous passos, com as mãos atrás, e parou diante de Rubião. - Da outra... ou do Padre Mendes. Como vai o padre? Boa vida, naturalmente.

-Mas, papai, pode não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ela sempre me trata bem, e quando estive doente no mês passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes.

-Pelo moleque! bradou o pai. Pelo moleque! Grande favor! "Moleque, vai ali à casa daquele reformado e pergunta-lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!" Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és digna filha minha! pobre, mas honesta!

Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, comovida, sentiu-se também vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da família, poucas cadeiras, uma mesa redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas litografias encaixilhadas e em pinho pintado de preto, uma era o retrato do major em 1857, a outra representava o Veronês em Veneza, comprado na Rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os móveis reluziam de asseio, a mesa tinha um pano de crivo, feito por ela, o canapé uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a camurça, mas acudia-lhes com um retalho de pano todas as manhãs.

CAPÍTULO CXXXI

RUBIÃO tratou-os com simpatia. Não continuou a defender a gente Palha, para não desesperar o major. Pouco depois, despediu-se, prometendo, sem convite, que lá iria jantar "um dia destes".

-Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.

-Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça.

Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar à frente por causa dos sapatos, foi à janela para vê-lo sair.

CAPÍTULO CXXXII

LOGO QUE RUBIÃO dobrou a esquina da Rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pai, que se estendera no canapé, para reler o velho Saint-Clair das Ilhas ou os Desterrados da ilha da Barra. Foi, o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte anos; era toda a biblioteca do pai e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II, que já trazia de cor. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos.

Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e betamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. A saúde dos bons e valentes oprimidos, e ao castigo dos seus opressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saúde.

-Sabe de uma cousa, papai? Papai compra amanhã latas de conserva, ervilha, peixe, etc., e ficam guardadas. No dia em que ele aparecer para jantar, põe-se no fogo, é só aquecer, e daremos um jantarzinho melhor.

-Mas eu só tenho o dinheiro do teu vestido.

-O meu vestido? Compra-se no mês que vem, ou no outro E espero.

-Mas não ficou ajustado?

-Desajusta-se; eu espero.

-E se não houver outro do mesmo preço?

-Há de haver; eu espero, papai.

CAPÍTULO CXXXIII

(continua...)

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