Por Gregório de Matos (1696)
4 E que depois de se erguer,
é tão tardo, e tão ronceiro,
que há de mister o Muleiro
seis meses para o meter:
porque depois de já ter
aceso como um tição,
engana a putinha então,
pois pedindo a fornicasse,
lhe dizia, que esperasse
Para foder no verão.
DESCREVE O POETA HUMA BOCCA LARGA.
1 É justa razão, que eu gabe,
boca, a vossa perfeição,
porque vos caiba a razão,
onde a razão vos não cabe:
quem conhecer-vos não sabe,
não teme tamanha empresa,
que vos faz a natureza,
para ser do mundo espanto,
pois nele não cabe tanto,
como na vossa grandeza.
2 Os extremos, que mostrais,
quando esses beiços abris
lisos, delgados, sutis,
brancos, como dois cristais,
em nada são naturais,
que até esses dentes belos
usurparam aos cabelos,
e tem com eles trocada
a cor castanha, e dourada,
e são pardos, e amarelos.
3 E se os outros escondidos
somente o riso os declara,
vós, boca, de pouco avara
os tendes desimpedidos:
porque todos os sentidos
os tenham sempre presentes,
os olhos sempre luzentes
podem sem pestanejar
em tão remoto lugar
ver a beleza dos dentes.
4 Amor, que as almas condena,
por melhor as conquistar,
para ensinar a atirar,
que sejais meu branco ordena:
não creais, que por pequena
vos há de errar a medida,
antes minha alma duvida
de escapar-lhe em toda a toca,
se a medida dessa boca
houver de dar a ferida.
5 Aviso, graça, e saber,
amor, cuidado, e desejos,
quando for grande o bocejo,
em vós não se hão de esconder:
tesouro não podeis ser,
mas sois mina descoberta,
sendo cousa muito certa,
que a serem os dentes de ouro
éreis má para tesouro,
por andares sempre aberta.
AO CASAMENTO DE HUM SUGEYTO VALENTE COM HUMA ELENA DE TAL.
MOTE
Uma Helena por garbosa
Páris troiano a roubou
porém Miguel conquistou
outra Helena mais formosa.
1 Dous monstros a Roma bela
deram princípio e mofina,
uma casada à ruína,
o princípio uma donzela:
uma troiana, uma estrela,
um sol, um raio, uma rosa
abrasou Tróia formosa;
porém há de se entender
não por sol qualquer mulher
Uma Helena por garbosa.
2 Páris troiano Juiz,
que no monte Ida se achou,
o pomo à Vênus julgou
por mais bela, e mais feliz:
à Juno Deusa infeliz
tanto ofendeu, e irritou,
e tanto a Deusa forjou,
que tentando-o, a que roubasse
a Helena, e Tróia abrasasse,
Páris Troiano a roubou.
3 Hoje melhor imitada
Vemos de Páris a pena,
Páris perdeu pela pena,
Miguel ganhou pela espada:
pela fidalguia herdada,
pela riqueza, que herdou,
Miguel a Helena ganhou;
Páris amante descalço,
perdeu por roubar de falso,
Porém Miguel conquistou.
4 Miguel ditoso se alista
por conquistador do amor,
serviu, ganhou uma Flor,
e está Senhor da conquista:
Páris julgando a revista
civil, e contenciosa
de uma, e Outra Deusa irosa
teve uma Helena roubada,
mas a Miguel foi julgada
Outra Helena mais formosa.
PASSANDO DOUS FRADES FRANCISCANOS PELA PORTA DE AGUEDA PEDINDO
ESMOLLA, DEO ELA UM PEYDO, E RESPONDEO HUM DELLES ESTAS PALAVRAS
"IRRA, PARA TUA THIA"
1 Sem tom, nem som por detrás
espirra Águeda à janela,
mas foi espirro de trela,
porque tal estrondo faz:
que um Reverendo Sagaz
lastimado, do que ouvia,
se já não foi, que sentia
ouvia tal ronco ao traseiro,
disse para o companheiro,
"irra para tua Tia".
2 Sentiu-se Águeda do irra,
e disse, perdoe, Frade,
quem pede por caridade,
não se agasta com tal birra:
aqui nesta casa espirra
todo o coitado, e coitada;
passe avante, que isto é nada,
e se acaso se enfastia,
será para sua Tia,
ou para seu camarada.
3 Basta, que se escandaliza
do meu cu, porque se caga?
Venha cá, boca de praga,
que cousa mais mortaliza?
o peido, que penaliza,
é sorrateiro, e calado:
o peido há de ser falado,
ou ao menos estrondoso,
porque aquele, que é fanhoso,
é peido desconsolado.
4 Quantas vezes, Frei Remendo,
dará co meio do cu
peido tão rasgado, e cru,
que lhe fique o rabo ardendo?
perdoe, pois, Reverendo,
não cuidei, tão bem ouvia;
e se esmola me pedia,
aceite-o por caridade,
se não servir para um Frade,
leve-o para tua Tia.
PONDERA MISTERIOSO EM AMORES O DESCUIDO, COM QUE HUMA DAMA
CORTOU O SEU DEDINHO QUERENDO APARAR HUMA PENA PARA ESCREVER A
SEU AMANTE
1 Para escrever intentou
Nise uma pena aparar,
e começando a cortar,
o seu dedinho cortou:
incontinenti a largou
sentida desta ocasião,
e com tão justa razão
chorosa sente: porque
teve neste golpe pé,
para sentir-se da mão.
2 Duas penas descontente
padece Nise em verdade,
da ferida a crueldade,
e viver de Fábio ausente:
qual destas duas mais sente
difícil é de advertir;
mas eu venho a concluir,
que mais sente Nise amante
viver de Fábio distante,
do que chegar-se a ferir.
3 Quisera a Fábio escrever
por dar alívio a seu mal,
porém a sorte fatal
não lho consentiu fazer:
quis-lhe o gosto perverter,
dando-lhe o golpe, que a assusta,
por cuidar, que é cousa justa
mostrar, quando Nise chora,
que esse Fábio, a quem adora,
gotas de sangue lhe custa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.