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#Poemas em verso#Literatura Brasileira#Literatura

Brites

Por Gregório de Matos (1696)

3
Pontos em cousa surrada
fazem o feitio caro:
melhor é falar-lhe claro,
e dizer, que estais usada:
não entenda o Noivo nada
dos usos, que há em direito,
que eu, que lhe tenho algum jeito,
sei, que a vossa honrinha falsa,
posto que um ponto só calça,
grande entrada tem no peito.

4
O que me tem mais confuso,
é, que casar-vos temais,
porque tão usada estais,
sendo a gala andar ao uso:
se o Noivo está já obtuso
na regra de musa musa,
como há de tomar a escusa,
de casar com Noiva honrada,
por se dizer ser usada,
se o que se usa, não se escusa.

5
Animai-vos, Brites, pois,
tomai de casada o estado,
servireis de guardar gado,
pois sabeis o nome aos bois:
e se o Noivo lá depois
vos der no rasto da linha,
direis chorosa, e mesquinha
(culpando o poder do Arnor)
não é culpa do pastor
meterem-lhe os bois na vinha.

6
Quem fez ao Noivo capaz
de vos tocar na desonra,
quando vós em pontos d'honra
excedeis ao Noivo assaz?
não é ele tão audaz,
que fale no vosso vício,
pois lhe fazeis benefício
casando, que sois na empresa
honrada por natureza
não só, mas por artifício.

7
Quereis (fora vá de pulha)
por dar à vida descarga,
que numa barra tão larga
entre o Noivo pela agulha?
vós mesma fazeis a bulha,
pois dais com essa cautela
sinais da vossa mazela;
agulha se há de escusar,
que para essa foz entrar,
o que importa, é pôr a vela.

8
Muito ao Noivo lhe convinha,
que vós por me dar o jeito
entupísseis bem o estreito,
para que ele passe a linha:
e se a hora for mesquinha,
que antes da linha passada
ache calma, ou trovoada,
com que se esgote o refresco,
vós fareis, com ele o fresco,
para seguir a jornada.

9
Casai-vos, bebei o trago,
que estou já frito, e assado
por ver o Licenciado
alagado nesse lago
sempre me destes mau pago
ao bem, que sempre vos quis,
e agora estou por um triz
de bem vingado me ver,
se vos quer, ou não vos quer
o Sô Licenciado Ortis.

10
Ele virá no partido,
porque verá como honrado,
que qualquer virgo ensopado
não tem mais do que cozido:
ele é da terra o Cupido,
o Narciso, e o Nanaço,
e não sirva de embaraço
não ir para a nova casa,
cabaço, que se ele casa,
eu jurarei, que é cabaço.

A VISTA DO AMOR, QUE TEVE O POETA A ESTA DAMA, COMO SE COLHE É A SEGUINTE OBRA HUM TESTEMUNHO DA SUA GENEROZIDADE: POIS LHE RECUSA OS SEUS CONVITES, ACONSELHANDO-A A SOFFRER SEU ESPOSO. NEM OS SEUS GALANTEOS FORAM COM PESSOA PROHIBIDA.

1
Vós casada, e eu vingado,
todo o meu coração sente,
mas a vingança presente
mais que o agravo passado:
o agravo já perdoado
pelas desculpas, que dais,
menos dor me ocasionais
por ser contra meu respeito
que, o que contra vós é feito,
força é, que doa mais.

2
Chorar vosso casamento
é sentir a minha dor
e agora me obriga Amor
a sentir vosso tormento:
vosso descontentamento
do meu mal distância encerra,
que no meu coração não erra
censurando um, e outro sim,
pois de vós vai tanto a mim,
como vai dos céus a terra.

3
Um só coração assestam
os pesares, de quem ama,
mas os pesares da Dama
a dois corações molestam:
se duas vidas infestam
males, de que estais sentida,
com razão, prenda querida,
dois prantos faço em comum.
pela minha vida um,
outro pela vossa vida.

4
Levai prudenre, e sagaz
esse cargo, essa pensão,
porque o erro da eleição
consigo outros erros traz:
se é de remédio incapaz
o erro do casamento,
dissimule o sofrimento
esse erro: porque maior
não faça o erro de amor
erros do arrependimento.

COM ESTA RESPOSTA SE AVIVARAM NA DAMA OS INCENDIOS DE AMOR E NO POETA SE AVIVARAM OS QUILATES DESTA HONRA.

Não me culpes, Filena, não de ingrato,
Se notado hás de mim tanta esquivança;
Por que a força do fado em tal mudança
Ou inclina o desdém, ou move o trato.

Mas que importa, se quando olvidar trato
Teus amores por lei, que não se alcança,
Dura impressa no amor tua lembrança;
Vive n'alma estampado teu retrato.

Os efeitos combatem da vontade
Amoroso desdém zelosa pena,
Produzindo tão grande variedade.

Teu amor, que me obriga, te condena,
Que como não tens livre a liberdade,
Não me podes prender o amor, Filena.

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