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#Contos#Literatura Brasileira

História de uma fita azul

Por Machado de Assis (1876)

— Oh! sim! a primeira que me vier agora é sua! exclamou Gustavo para quem uma causa era ainda objeto puramente mitológico.

O procurador saiu.

— Então, até depois de amanhã? disse João que ouvira quase toda a conversa, colado no corredor.

— Sim, até depois de amanhã.

CAPÍTULO VII

O dia em que o procurador devia voltar à casa de Gustavo era o último do prazo marcado por Marianinha. Gustavo esperou por ele sem sair de casa; não queria aparecer sem estar desenganado ou feliz.

O Sr. Alvarenga não marcara hora. Gustavo acordou cedo, almoçou, e esperou até o meio-dia sem que o procurador desse sinais de si. Era uma hora quando apareceu.

— Há de desculpar-me, disse ele logo ao entrar; tive uma audiência na segunda vara, e por isso...

— Então?

— Nada.

— Nada!

— Ela tem a fita e declara que a não dá!

— Oh! mas isso é impossível!

— Também eu disse isso, mas depois refleti que não há outro recurso senão contentarmo-nos com a resposta. Que poderíamos nós fazer?

Gustavo deu alguns passos na sala, impaciente e abatido ao mesmo tempo. Tanto trabalho para tão triste fim! Que importava que ele soubesse onde parava a fita, se não podia havê-la às mãos? O casamento estava perdido; o suicídio unicamente.

Sim, o suicídio. Apenas o procurador Alvarenga saiu da casa de Gustavo, este sondou o seu coração e mais uma vez se convenceu de que não podia resistir à recusa de Marianinha; senão matar-se.

“Caso-me com a morte!” rugiu ele surdamente.

Outra reminiscência de melodrama.

Assim assentado o seu plano, saiu Gustavo de casa, logo depois de ave-marias e dirigiu-se para a casa de D. Leonarda. Entrou comovido; estremeceu quando deu com os olhos em Marianinha. A moça tinha o mesmo ar severo com que lhe falara a última vez.

— Por onde andou estes três dias? disse D. Leonarda.

— Estive muito ocupado, respondeu secamente o moço, e por isso... As senhoras têm passado bem?

— Assim, assim, disse D. Leonarda.

Depois:

“Estes pequenos andam arrufados!” pensou ela.

E posto fosse severíssima em pontos de namoro, todavia compreendeu que para explicar e acabar arrufos a presença de uma avó era de algum modo prejudicial. Pelo que, assentou retirar-se durante cinco minutos (de relógio na mão), a pretexto de ir ver o lenço de tabaco.

Apenas se acharam sós os dois namorados, rompeu o seguinte diálogo a muito custo de ambos, porque nenhum deles queria começar primeiro. Foi Gustavo quem cedeu:

— Não lhe trago a fita.

— Ah! disse a moça com frieza.

— Alguém ma tirou, talvez, porque eu...

— Que faz a polícia?

— A polícia!... Está zombando comigo, creio eu.

— Apenas crê?

— Marianinha, por quem é, perdoe-me se...

Neste ponto teve Gustavo uma idéia que lhe pareceu luminosa.

— Falemos franco, disse ele; eu tenho a fita comigo.

— Sim? deixe ver.

— Não está aqui; mas posso afirmar-lhe que a tenho. Imponho todavia uma condição... Quero ter este prazer de impor uma condição...

— Impor?

— Pedir. Mostrar-lhe-ei a fita depois que estivermos casados.

A idéia, como a leitora vê, não era tão luminosa como ele pensava; Marianinha deu uma risadinha e levantou-se.

— Não acredita? disse Gustavo meio enfiado.

— Acredito, disse ela; e tanto que aceito a condição.

— Ah!

— Com a certeza de que não a há de cumprir.

— Juro...

— Não jure! A fita está aqui.

E Marianinha tirou da algibeira o pedaço de fita azul com os nomes de ambos bordados a seda, a mesma fita que ela lhe dera.

Se o bacharel Gustavo tivesse visto as torres de S. Francisco de Paula subitamente transformadas em duas muletas, não se admiraria tanto como quando a moça lhe mostrou o pedaço de fita azul.

Só no fim de dois minutos pôde falar:

— Mas... esta fita?

— Silêncio! disse Marianinha vendo entrar a avó.

A leitora naturalmente acredita que a fita fora entregue a Marianinha pela sobrinha do desembargador, e acredita a verdade. Eram amigas; sabiam do namoro uma da outra; Marianinha tinha mostrado à amiga a obra que fazia para dar ao namorado, de maneira que quando a fita azul caiu nas mãos da pequena suspeitou naturalmente que era a mesma, e obteve-a para mostrá-la à neta de D. Leonarda.

Gustavo não suspeitara nada disto; estava aturdido. Estava sobretudo envergonhado. Acabava ser apanhado em flagrante delito de peta e fora desmentido do mais formidável modo.

Nestas alturas não há de demorar o desfecho. Apresso-me a dizer que Gustavo saiu dali abatido, mas que no dia seguinte recebeu uma carta de Marianinha, em que lhe dizia, entre outras coisas, esta: “Perdôo-lhe tudo!”

Nesse mesmo dia foi pedida a moça. Casaram-se pouco depois e vivem felizes, não direi onde, para que os não vão perturbar na sua lua-de-mel que dura há largos meses.

Desejo o mesmo às leitoras.

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