Por Machado de Assis (1897)
No porto de Recife, vi Estela e a mãe, e daí até o Rio de Janeiro, pude conversar com elas. A filha, como eu lhe falasse do que o pai me contara, autorizado por ele, que disse que os poetas naturalmente têm mais confiança entre si, que com estranhos, respondeu envergonhada que era falso; tinha composto meia dúzia de quadrinhas sem valor. Naturalmente protestei contra o juízo, e esperei que me desse alguma estrofe, mas teimou em calar. Era criatura de vinte anos, magra e pálida; faltava-lhe a elegância e a expressão que só em terra lhe vi, uma semana depois de chegados. Os olhos eram cor do mar. Esta circunstância fez-me escrever um soneto que lhe ofereci, e que ela ouviu com muito prazer, entre a mãe e o pai. O soneto dizia que os olhos, como as vagas do mar, encobriam o movimento de uma alma grande e misteriosa. Assim, em prosa, não tem graça; os versos não eram absolutamente feios, e ela fez-me o favor de os achar parecidos com os de Gonçalves Dias, o que era pura exageração. No dia seguinte disse-lhe o meu recitativo das Ondas: "A vida é onda dividida em duas..." Achou-o muito bonito.
— Tem a beleza da oportunidade; estamos no mar, retorqui eu.
— Não senhor, são bonitos versos. Peço-lhe que os escreva no meu álbum quando chegarmos.
Chegamos. O pai ofereceu-me a casa; eu dei-lhe o número da minha, explicando que era um sótão de estudante.
— Os pássaros também moram alto, disse Estela.
Sorri, agradeci, apertei-lhe a mão, e corri para a Rua da Misericórdia. A moça do Castelo chamava-me. De memória, tinha ante mim aquele corpo elegante, ereto no escuro da janela, erguendo os braços curvos, como asas de uma ânfora... Pia, Pia, santa e doce, dizia o meu coração batendo; aqui venho, aqui trago o sangue puro e quente da mocidade, ó minha doce Pia santa!
Nem Pia, nem nada. Durante três, quatro, cinco dias, não me apareceu o vulto do Castelo. Não sabendo que eu tornara ao sótão, é natural que não viesse ali às nossas horas de outro tempo. Também podia estar doente, ou fora, na roça ou na cidade. A idéia de que se houvesse mudado só me acudiu no fim de duas semanas, e admirou-me que não houvesse pensado nisso mais cedo.
— Mudou-se, é o que é.
A esperança disse-me que era impossível haver-se mudado. Mudado para onde? Onde iria uma moça, cujo busto ficava tão bem no escuro da janela e no alto do morro, com espaço para se deixar admirar de longe, levantar os braços e tão em direitura do meu sótão? Era impossível; assim ninguém se muda.
Já então visitara o negociante. A filha deu-me o álbum para escrever o recitativo das Ondas, e mostrou-me duas poesias que fizera depois de chegar: Guanabara e Minhas Flores.
— Qual acha mais bonita?
— Ambas são bonitas.
— Mas uma há de ser mais que a outra, insistiu Estela; é impossível que o senhor não ache diferença.
— Tem a diferença do assunto; a primeira canta a cidade e as águas; a segunda é mais íntima, fala das flores que não quiseram esperar pela dona, e compara-as às felicidades que também não esperam; eis a diferença.
Estela ouviu-me com os olhos muito abertos, e toda a vida neles. Uma sombra de sorriso mostrava que a minha apreciação lhe dava gosto. Após alguns instantes abanou a cabeça.
— Parece-me que o senhor gosta mais da Guanabara...
— Não há tal!
— Então não presta?
— Que idéia, D. Estela! Pois um talento como o seu há de fazer versos que não prestem?
— Acha-me talento?
— Muito.
— É bondade sua. Então a outra é que lhe parece melhor?
Como teimasse muito, achei de bom aviso concordar que uma delas era melhor, e escolhi Minhas Flores. E pode ser que fosse assim mesmo; Guanabara era uma reminiscência de Gonçalves Dias. Pois a escolha foi o meu mal. Estela ficou meio alegre, meio triste, e daí em diante quando me mostrava alguns versos, e eu os achava bons, tinha de lutar muito para prová-lo; respondia-me sempre que já da primeira vez a enganara.
A ação do tempo fez-se naturalmente sentir, em relação à moça do Castelo. Um dia vi ali um vulto, e acreditei que fosse a minha incógnita; tinha uma blusa branca; atentei bem, era um homem em mangas de camisa. Fiquei tão vexado de mim e daquela interminável esperança, que pensei em mudar de casa. A alma do rapaz é que principalmente reagiu — e as matemáticas venceram a fantasia — cousa que poderiam ter feito muito antes. Conto assim a minha história, sem confiança de ser crido, não por ser mentira, mas por não saber contá-la. A cousa vai como me lembra e a pena sabe, que não é muito nem pouco. As matemáticas não só venceram a fantasia, mas até quiseram acabar com os versos; disseram-me que nem fosse mais à casa de Estela.
— É o que vou fazer; nem versos de homens nem de mulheres. E depois, já penso demais naquela espevitada...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma por outra. A Estação, Rio de Janeiro, 15 set. a 15 dez. 1897.