Por Machado de Assis (1892)
E sentou-se para descansar o almoço. Contou-lhe algumas peripécias da noite. Ganhara um conto e oitocentos mil-réis, depois de ter perdido dois contos e tanto; mas o ganho e a perda eram nada. O principal foi a teima de uma carta... E pôs-se a narrar toda a história à mulher, que ouviu calada, enfastiada, engolindo a raiva, e dizendo a si mesma que fazia muito bem deixando a companhia de semelhante homem. Xavier falava com interesse, com ardor, parecia crescer, subir, à medida que os incidentes lhe saíam da boca. E vinham nomes desconhecidos, o Álvaro, dr. Guimarães, o Chico de Mattos, descrevia as figuras, os sestros as relações de uns com outros, anedota da vida de todos. Quando concluiu parecia afrontado, pediu alguma coisa; a mulher preparou-lhe um pouco de água de melissa.
— Você não quer fazer a digestão calado, disse-lhe ela.
Se ele visse bem o rosto de D. Paula, perceberia que aquela frase, proferida com um tom de repreensão branda, não correspondia ao sentimento da mulher. D. Paula, se alguma dúvida pudesse ter em fugir de casa, já não a tinha agora; via-se-lhe na cara uma expressão de asco e desprezo.
— Passou, disse ele.
Ergueu-se; ia ver uns papéis.
— Você por que não se deita um pouco, disse-lhe; veja se passa pelo sono. Eu dou ordem para que não a acordem; e a propósito, janto fora, janto com o Chico de Mattos...
— O do ás de ouro? perguntou ela com os dentes cerrados.
— Justamente, acudiu ele rindo... Que veia de sujeito! O ás de ouros...
— Já sei, interrompeu ela. Vai ver os papéis.
— Um felizardo!
E, se não falou outra vez do Chico de Mattos, contou uma anedota do Roberto, outra do Sales, outra do Marcelino. A mulher ouviu-as todas serenamente — às vezes risonha. Quando ele acabou, disse-lhe em tom amigo:
— Ora, você que tem jogado com tanta gente, só uma vez jogou comigo, há muito tempo, o ecarté... Não é ecarté que se chama aquele jogo que você me ensinou? Vamos a uma partida.
Xavier pôs-se a rir.
XI
— Tinha graça, disse ele. Para quê?
— Há maridos que jogam com as mulheres.
— A bisca em família?.
— Não, não jogo a tentos.
— A dinheiro? Também tinha sua graça, porque o que eu ganhasse em dinheiro, pagaria depois em vestidos; mas ainda assim, pronto. Há certo interesse. Vou buscar as cartas.
Saiu e voltou com as cartas.
— Não te proponho dinheiro, disse D. Paula. Nem dinheiro nem tentos.
— Então quê? As estrelas? Os nossos lugares no céu?
— Não, a minha pessoa.
— Como? perguntou ele, espantado.
— Se eu perder, você faz de mim o que quiser; se eu ganhar, ganho a liberdade de ir para onde for da minha vontade.
— Repete.
Dona Paula repetiu a proposta.
— Aí está uma singular partida, exclamou Xavier. Se eu ganhar faço de você o que quiser...
— E se eu ganhar...
— Já.sei. Vale a pena arriscar, porque, se você perder, não sabe em que se mete. Vingarei o meu susto exemplarmente.
As mãos dela estavam quentes, os olhos brilhantes. Ele, diante de uma partida nova, nunca jogada, absurda, ficara pasmado, trêmulo. Era então...? Mas quem diabo lhe metera aquela idéia na cabeça? perguntou-lhe. E depois de um silêncio: — Góis, naturalmente.
— Não. Por que seria esse e não outro?
— Você sabe por quê.
— Não sei nada, murmurou.
— Sei-o eu. É a grande vantagem das cartas anônimas. Três cartas anônimas contaram me tudo. Guardei a primeira; queimei as outras, e nunca lhe disse nada, porque não adiantavam nada.
D. Paula negou ainda, por boca e por gesto; afinal, calou-se e ouviu tudo o que ele continuou a dizer. Xavier falava sem cólera. Confessou-lhe que a primeira impressão foi acerba; mas depois sarou a ferida e continuou bem. Decididamente, o jogo estava acima de tudo. Era a consolação real e única da terra e do céu. Que se jogaria no céu? D. Paula rompeu finalmente:
— Bem, concluamos, disse ela. Estão postas as condições e aceitas. Vamos às cartas.
— Uma partida em três, disse ele; quem ganhar as duas primeiras, levanta a mesa. Baralhou as cartas, distribuiu-as e ganhou logo a primeira. Jogaram segunda. Foram à terceira, que desempatava.
— O rei, disse ele, marcando um ponto.
Jogou a primeira carta, mas não jogou segunda. Parou, as cartas caíram-lhe, fez um gesto, e, antes que a mulher pudesse ver nada, caiu redondamente no chão. D. Paula acudiu, chamou, vieram criados e um médico vizinho; Xavier estava morto. Uma congestão.
XII
Ninguém acredita que D. Paula tivesse lágrimas para o marido. Pois teve-as — poucas, é certo — mas não deixou de as chorar; quando o cadáver saiu. No dia seguinte, a impressão passara.
Que partida jogaria, agora que fortuna a libertara de toda a obrigação? Góis visitou-a, dias depois do enterro. Não lhe falou em sair de casa; também não lhe falou de amores. D. Paula agradeceu esse respeito, não obstante a certeza que ele tinha da separação moral em que ela viveu com o marido. O respeito estendeu-se a dois meses, depois quatro; Góis fez-lhe algumas visitas, sempre frias e curtas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma partida. A Estação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 282-284, 31 dez. 1892.