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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Loureira

Por Machado de Assis (1872)

— Ouça-me. Era meu interesse conservar as ilusões em vez de me expor a um desengano certo; mas há situações que não comportam dúvidas; eu prefiro uma cruel franqueza; farei depois o que me inspirar o desespero.

Luísa sorria-se sem dizer palavra.

— Zomba comigo, já vejo, disse melancolicamente Alberto.

— Oh! não!

— Então fale!

— Pois bem...

Hesitou.

— Diga, ama-me? instou Alberto.

— Amo, respondeu Luísa deitando a fugir.

O paraíso de Maomé, com todas as delícias prometidas no Alcorão, não chega aos pés da felicidade que a simples resposta da moça introduziu na alma do pobre candidato. Alberto saiu para a rua.

Precisava de ar.

De tarde foi ter com o rival.

— Enfim! disse ele ao entrar.

— Que há? perguntou Coutinho tranqüilamente.

— Tudo está decidido, respondeu Alberto.

— Derrota?

— Vitória! Perguntei-lhe se me amava; disse-me claramente que sim. Não pode imaginar o prazer que eu senti quando ouvi de seus lábios a mais doce palavra que os homens inventaram.

— Imagino tanto mais esse prazer, redargüiu fleugmaticamente o Coutinho, quanto que eu mesmo ouvi essa palavra a meu respeito.

Alberto enfiou.

— Quando?

— Ontem de noite.

— É impossível! clamou Alberto furioso.

— E já depois disso, continuou Coutinho finamente, recebi esta carta que é a confirmação do que ontem lhe ouvi.

Dizendo isto apresentou a Alberto uma carta de Luísa.

— De maneira que... balbuciou Alberto.

— De maneira que, concluiu Coutinho, estamos na situação em que nos achamos antes.

— Olhe, eu teria deixado o campo se não me parecesse covardia, e se não sofresse horrivelmente com a separação, porque eu amo-a com todas as forças de minha alma.

— Como eu, disse Coutinho.

— Que faremos? perguntou Alberto depois de uma pausa.

— Insistir.

— Como?

— Cada um de nós lhe perguntará se ela quer casar e nos escolhe para noivo. A isto não é possível que ela dê a mesma resposta a ambos; há de decidir-se por um. Dando este conselho, Coutinho procedia velhacamente porque justamente alguns minutos antes de entrar Alberto tinha mandado uma carta à moça perguntando se podia ir pedir lhe a mão ao pai, e esperava que a resposta chegasse logo e pusesse termo ao conflito. Mas a resposta não veio.

Ficou convencionado que dentro de oito dias tudo estaria resolvido, e um deles seria o vencedor.

Luísa disse à noite ao Coutinho que não mandara resposta à carta por não ter podido escrever.

— Mamãe anda muito desconfiada, disse ela.

— Bem, mas que me responde agora? perguntou Coutinho.

— Oh! deixe-me escrever, disse a moça, eu quero dizer-lhe tudo o que sinto... espere, sim?

Coutinho declarou que esperava.

— Contudo... disse ele.

— O quê?

— Se não fosse agradável a resposta, se não fosse a vida que eu espero e me é necessária?

Isto era ver se obtinha logo a resposta.

Luísa respondeu:

— Não seja desanimado...

— Então?

— Olhe, mamãe que está com os olhos em mim.

Oito dias se passaram nestas dúvidas até que os dois candidatos, por comum acordo, mandaram uma carta à moça, um verdadeiro ultimatum.

Era uma sexta-feira, dia aziago, e além disso 13 do mês. Os míseros pretendentes não repararam nisso, e atreveram-se a lutar com a fortuna em dia de tamanha desgraça. Coutinho foi então à casa de Alberto.

— Mandei a minha carta, disse o fluminense.

— E eu a minha.

— Esperemos a resposta.

— Que lhe parece? perguntou Alberto.

— Parece-me... Não sei que me há de parecer, respondeu o Coutinho; eu tenho todas as provas de ela me amar loucamente.

— Tanto não digo eu, observou Alberto; loucamente não creio que me ame, mas cuido que sou amado.

O fim evidente de cada um destes personagens era assustar o adversário, caso este ficasse vitorioso. Entraram a alegar cartas apaixonadas, flores, tranças de cabelo, e o Coutinho chegou até a confessar um beijo na mão.

De repente abre-se a porta.

Entra o comendador Nunes pálido e trêmulo.

— Que é isto? disseram os dois.

Nunes deixou-se cair em uma cadeira, e com a voz trêmula e o olhar desvairado, confessou a sua desgraça.

Luísa fugira com o primo!

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