Por Machado de Assis (1892)
— Tu esqueceste tudo. Estás condenada ao inferno!
Uma língua de fogo lambeu a parte do céu, que se conservava azul, porque todo o resto era um amontoado de nuvens carregadas de tempestade. Do meio delas saiu um vento furioso, que pegou da moça, do defunto marido e do noivo e os levou por uma estrada fora, estreita, lamacenta, cheia de cobras.
— O inferno! sim! o inferno!
E o carrasco tapava-lhe a boca, e ela mal podia gemer uns gritos abafados.
— Ah! ah!
Parou o vento, as cobras ergueram-se do chão e dispersaram-se no ar, entrando cada uma pelo céu dentro; algumas ficaram com a cauda de fora. Genoveva sentiu-se livre; desaparecera o carrasco, e o defunto esposo, de pé, pôs-lhe a mão na cabeça, e disse com voz profética:
— Morrerás se casares!
Desapareceu tudo; Genoveva acordou; era dia. Ergueu-se trêmula; o susto foi passando, e mais tarde, ao cuidar do caso, dizia consigo: “. Casou e não morreu.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um sonho e outro sonho. A Estação: Jornal Ilustrado para a Família. Rio de Janeiro, 31 maio 1892.