Por Machado de Assis (1872)
De novo se entregou aos estudos da ciência, com redobrado ardor. Mas apesar da admiração que o mundo científico lhe votara, apesar da espécie de infalibilidade que adquirira perante as sociedades e academias, o nosso Ruy entrou a sofrer de um incurável aborrecimento. Tinha quase dois séculos e a vida já lhe pesava; o mundo não lhe oferecia espetáculo novo; a ciência perdera o prestígio da princípio: o imortal começou a desejar a morte.
Mas era tarde.
Como acharia ele a morte?
Ruy recorreu ao suicídio; sabia que era um crime perante Deus e os homens; mas não tinha outro recurso. Achava-se então em Lisboa, mas como já muitos dos que o conheceram antes tinham morrido, ninguém viu nele o mesmo Ruy de Leão e ele teve o cuidado de trazer nome suposto.
Ali resolveu acabar os seus dias. Foi ao Tejo e atirou-se à água; em ocasião em que não podia ser socorrido. Sabia nadar, mas não quis usar do que sabia. Debalde! o corpo voltou à tona e desceu até esbarrar num galeão, de onde foi visto e pescado. De outra vez recorreu à faca mas o mais que conseguiu foi abrir no pescoço uma ferida que se curou rapidamente.
Era impossível morrer.
Imagine quem puder o suplício deste homem condenado a ser imortal, a ver os mesmos dias, as mesmas comédias — este Tântalo da morte, ambicionando aquilo que os outros receiam — pedindo ao céu como a suprema felicidade uma cova para dormir. A situação é de si tão patética que eu não precisa lacrimejar o estilo; basta dizer a coisa para que ela seja compreendida.
Depois de estudar tudo e tudo ver; depois de passear pelas várias partes do mundo, sem encontrar novidade que lhe divertisse o ânimo; depois de ser assíduo espectador de tudo quanto pudesse despertar a curiosidade de um homem enfadado como, por exemplo, o homem de botas de cortiça, o boneco jogador de xadrez e outros, determinou Ruy de Leão voltar ao Brasil nos princípios deste século ali pelos anos de mil oitocentos e tantos, estando ainda cá o rei.
Efetivamente aqui aportou no Rio de Janeiro o imortal Ruy. A cidade não oferecia então o aspecto que hoje tem. A rua do Ouvidor não era a via elegante da capital; nem o Rocio estava transformado no jardim que aí vemos. Eram os belos tempos de Vidigal e seus granadeiros, de cujas proezas tão habilmente falou o nosso chorado dr. Manuel de Almeida, talento como poucos.
Ruy tratou de encobrir-se o mais que pôde; entrou como verdadeiro desconhecido. Contudo a presença de um homem tão sábio e tão rico, não era coisa que passasse despercebida ao povo nem à corte. Não tardou que fosse convidado para as melhores casas e os vários fidalgos de respeito do rei porfiaram em recebê-lo à sua sala. Era parceiro obrigado no whist dos velhos fidalgos, grande par do minueto, excelente cavaleiro do garfo, em suma a flor da boa roda.
Mas esse recreio durou pouco. No fim de dois meses voltou Ruy de Leão às suas mágoas antigas.
Foi então que lhe aconteceu um caso decisivo na sua vida.
Entre as damas que mais apreciavam o saber e os dotes do ilustre Ruy, havia uma D. Madalena de Sousa e Pedroiça, criatura tão notável pela graça do semblante, quanto pelas virtudes fidalgas da vida. Ruy ficara sempre com um grande pendor às mulheres, o que era naturalmente um corretivo da imortalidade, porquanto ser imortal e aborrecer as mulheres seria estar no pior de todos os infernos deste mundo e do outro.
Agradou-lhe D. Madalena, mas esta posto que o apreciasse muito, não lhe aceitou o coração. Coração repelido é o ideal da pertinácia. Ruy multiplicou as suas armas galantes, a ver se colhia a esquiva dama, e esta sempre isenta, dava de tábua às seduções do namorado.
Durou esta luta cerca de dois anos.
Uma noite, vindo recolher-se para casa o nosso Ruy, surdiu-lhe em frente um sujeito e lhe disse:
—Quer saber por que razão D. Madalena lhe recusa a mão?
— Quero.
— Ama a outro.
— Impossível.
— É verdade!
O sujeito tinha a cara meia coberta com uma das abas do capote. Descobriu-se então e Ruy pedindo a lanterna ao criado que tinha com ele, pôde reconhecer a um parente de Madalena.
Passava-se esta cena nos Cajueiros e o nosso Ruy morava perto do Valongo: convidou o parente da moça para acompanhá-lo à casa.
Quando lá chegaram, tomou palavra o parente da moça, D. Martim, e disse:
— D. Madalena ama o licenciado Álvares e quer casar com ele; o pai opõe-se ao casamento e já a ameaçou com o convento. É essa a razão por que não aceita o seu amor.
— Mas, disse Ruy, eu não sei que diabo achou ela no licenciado...
— Nem eu, mas a verdade é esta.
Ruy refletiu na dificuldade de sua posição.
— Deste modo, disse ele, perco o meu tempo...
— Como eu perdi, replicou D. Martim: também eu a amei mas nada pude conseguir. O licenciado transtornou-lhe a cabeça. Que lhe havemos de fazer?
— Dar uma lição ao licenciado.
D. Martim piscou o olho, via-se-lhe no rosto que ele não vinha para outra coisa.
— Como lhe daremos a lição?
— Como?
— É verdade que ele costuma a falar com a prima às escondidas...
— A horas mortas?
— Sim. Chega ao portão e ela fala de cima da janela que dá para o jardim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ruy de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1872.