Por Machado de Assis (1872)
Então, voltava à mente de Coelho a idéia do dinheiro, e esta doce imaginação o seduzia e lançava uma espécie de véu sobre os perigos que ele antevia. Imaginava um belo prédio, carros, bailes, jóias, passeios, todos os sonhos de um homem que não tem e quer possuir.
Mas, como o carro andava sempre, e o momento decisivo ia se aproximando, Coelho tornava aos seus terrores, e de novo hesitava se devia ir à casa do velho ou voltar para trás.
No meio dessas alternativas lembrou-lhe um meio que conciliava as esperanças com os receios.
— Entro, pensava ele; o velho recebe-me; faço o meu pedido. Mandam vir a pequena, e apenas esta aparecer, antes que saiba do assunto, faço-lhe um gesto para que se não oponha, como quem lhe explicará o caso depois. Ela imaginará que estou de acordo com o namorado, e aguardará a explicação. Quando vier a ocasião, procurarei expor a verdade. Sim, este é o verdadeiro meio.
Com este pensamento foi até à casa de Ypsilanti. O velho já o esperava com ansiedade; recebeu-o cortesmente, ainda que não sem um ar severo, que aliás lhe era peculiar. Feitos os cumprimentos e presente a tia de Lúcia, expôs Coelho o objeto da sua visita, proferindo um pequeno discurso análogo ao ato, que o velho ouviu com um significativo meneio de cabeça.
— Pela minha parte, disse este, consinto no pedido que faz; mas é mister que minha sobrinha consinta também. Vou mandar chamá-la.
D. Manuela, esposa de Ypsilanti, dignou-se aprovar a resposta do marido e mandou chamar Lúcia. Não tardou que a sobrinha aparecesse à porta, convenientemente vestida, e com os olhos baixos.
Coelho estremeceu.
Não contara com este gesto de modéstia, tão natural da moça que é pedida para casar, e não sabia como fazer o gesto que devia salvar a situação.
Lúcia aproximou-se lentamente do grupo.
— Meu tio, murmurou ela.
— Senta-te, Lúcia, disse D. Manuela.
Lúcia sentou-se, sempre com os olhos pregados no chão.
Coelho estava em suores frios. Debalde olhava para ela, a moça não levantava os olhos. Começou a tossir para ver se ela levantava os olhos. Ypsilanti, vendo a insistência da tosse, mandou fechar a janela que ficara por trás de Coelho.
Tudo estava perdido.
— Lúcia, disse o velho tio, este senhor vem pedir-te em casamento. Aceitas o seu pedido?
Houve um silêncio.
— Então? disse D. Manuela.
— Aceito.
— Tudo está arranjado, disse Ypsilanti; resta marcar o dia do casamento. Outro silêncio.
Lúcia não levantara os olhos do chão. Coelho estava em brasas. Esperava o momento em que ela ia levantar os olhos e soltar um grito de surpresa.
Como ela insistia em não olhar para ele, achou ele que o mais prudente era esquivar-se quanto antes e, por meio de uma carta, explicar-lhe tudo.
Ia já a levantar-se, quando Ypsilanti lhe disse:
— Toma chá conosco, sr. Coelho?
Coelho! O nome próprio do homem! Era impossível que, ao ouvir o nome de Coelho, a moça não levantasse os olhos com pasmo.
Nada!
Esta surpresa foi a maior sensação que o nosso herói tivera até aquele momento.
— Será surda? perguntou ele. Mas não; ontem ouvia perfeitamente os meus monossílabos.
— Então, sr. Coelho? repetiu Ypsilanti. Não toma chá conosco?
— Peço desculpas.
— E eu não lhas dou — acudiu dona Manuela —, há de tomar chá.
— Minha senhora; é-me impossível, disse Coelho com os olhos pregados em Lúcia; tenho um objeto imperioso que me impede de aceitar este gracioso convite. Coelho disse estas palavras com voz clara e firme. Lúcia moveu a cabeça para ele. Coelho nem teve tempo de respirar; fez um gesto com os olhos, enquanto a moça, parecendo não reparar no gesto, volvia a cabeça para o tio e tia, e mostrava-se completamente senhora de si.
— Não entendo, concluiu entre si o rapaz.
Conversaram ainda algum tempo, até que o pretendente se despediu sem que a noiva lhe desse o menor sinal de surpresa. Parecia que o amava há muito tempo.
— Que mistério será este? dizia ele no carro; seja o que for, a moça está caída; vou enfim ser rico.
VII
A SOMBRA DE BANQUO
Coelho abençoou o acaso e o carnaval, autores do achado da carteira anônima e da misteriosa carta que o levou à fortuna.
Começou a freqüentar a casa de Ypsilanti, logo no dia seguinte, à espera de uma ocasião em que pudesse esclarecer o mistério que parecia estar envolvido na indiferença com que Lúcia o ouviu e aceitou.
Durante oito dias, não pôde ter a ocasião desejada.
No nono dia, porém, alcançou ensejo de falar a sós com a noiva, e desde as primeiras palavras notou que ela, em vez de lhe dizer alguma coisa a respeito da situação em que se achava, conversou placidamente dos seus planos futuros.
— Lúcia, disse ele, aproveito esta ocasião para explicar-te a nossa situação.
— Que situação?
— A situação em que me coloquei para contigo. Naquela noite em que fui ao jardim conversar...
— Ah! eras tu? perguntou ela admirada.
Mais admirado, porém, ficou o nosso Coelho. Eras tu! Então ela confessa que dez dias antes, supunha ter falado ao outro namorado, e apesar disso ia casar com ele, sem nenhum escrúpulo nem resistência?
Havia aí um mistério. Como descobri-lo?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quem não quer ser lobo.... 1872. Publicado originalmente em periódico.