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#Anedotas#Literatura Brasileira

Qual dos dois

Por Machado de Assis (1872)

Não tinha que ver: aquelas duas criaturas antipatizavam um com o outro. Não se casava a altivez de uma com o orgulho do outro. Era o caso do provérbio: duro com duro... Mas se ambos antipatizavam a tal ponto, nem por isso Daniel deixava de admirar a beleza de Augusta, e Augusta. a desdenhar a severidade de Daniel; e essa mesma admiração os afastava mais; porque a admiração é um preito; e nas poucas e curtas vezes que se haviam encontrado, claramente se percebia em cada um deles a consciência da superioridade.

Não era entretanto do mesmo modo que Augusta olhava para Luís; para este olhava com certa compaixão. Parecia ter pena dele. Quando este lhe falava, ela respondia com bondade e doçura, mas a doçura e a bondade de quem trata com um inferior, o que contrastava com o respeito do namorado político. E, no entanto, o crime dele era simplesmente gostar dela, e havê-la pedido em casamento, ao que ela se escusou, dizendo que era melhor ficarem simples amigos.

Luís não dançava; tinha, como Daniel, a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. No fim, porém, de meia hora, Valadares foi ter com Daniel insistindo para que ele dançasse ao menos uma quadrilha, ao que ele recusou. Como estivessem a discutir este importantíssimo ponto, passou Augusta, e Valadares interrompeu-a para dizer-lhe oficiosamente:

— O dr. Daniel incumbiu-me de lhe pedir esta quadrilha para ele.

Daniel mordeu os beiços.

Augusta respondeu olhando para Valadares.

— Mas eu não danço mais.

— Por quê?

— Estou cansada.

Daniel interveio.

— O Valadares, disse ele, pediu-lhe espontâneamente uma honra que eu não ousava desejar, nem esperar.

— Estou cansada, repetiu secamente Augusta, a quem Valadares deu o braço, escapando assim a uma repreensão do amigo.

Daí a um quarto de hora, Daniel desapareceu do baile.

VI

Despontava-lhe já uma espécie de ódio contra Augusta. Seria esse o caminho do amor? Quinze dias depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, achava-se Augusta sentada ao piano na casa de Mata-cavalos, quando lhe entrou pela sala dentro a mulher de Valadares.

Começava a moça a usar da liberdade que procurara no casamento.

— Tua mãe? perguntou ela a Augusta, depois dos primeiros beijos.

— Está lá dentro; vou mandá-la chamar.

— Creio que o moleque já lhe foi dizer que eu estava aqui.

— Anda senta-te.

Amélia sentou-se e disse sorrindo para Augusta:

— Não me perguntas por meu marido?

— Ia fazê-lo.

Está na repartição. A primeira coisa em que concordamos, é que eu saísse a passeio quando me parecesse. Eu não sou criança para andar agarrada a meu marido. Na Europa, não se usa isso. Demais, tenho toda a confiança nele . Acho-te pálida hoje...

— Dormi pouco.

— Alguma preocupação?

— Uma enxaqueca.

— Que calor!

— Com efeito, o dia está quente.

Amélia agitou o leque, lançando pelos móveis da casa esse olhar de curiosidade indiscreta que tanta gente emprega numa casa onde entra pela primeira vez, sintoma de uma grosseria sem-par.

Augusta olhava para ela sorrindo.

Nesse momento, entrou Madalena.

— Já de passeio! disse ela, beijando a mulher de Valadares.

— Não é cedo.

— Seu marido está bom?

— Está.

— São felizes, creio.

— Completamente. Ah! o casamento foi a melhor invenção deste mundo. Por que razão não casa sua filha?

— Porque não encontrou noivo.

— Isso é fácil.

— Não tanto, acudiu Augusta; além de que não tenho pressa.

— Pois quanto mais cedo melhor, disse Amélia.

— Augusta, disse Madalena, terá um noivo quando quiser. Agora mesmo...

— Ah! algum apaixonado?...

Augusta levantou-se e foi buscar o lenço ao piano.

— Não falemos nisso, disse ela.

Amélia levantou-se também.

— Já se vai? perguntou Madalena.

— Já; tenho de ir escolher uns vestidos. Quer D. Augusta ir comigo?

— Não posso.

— Então, adeus. Olhe, dou-lhe um conselho: não seja cruel.

— Por que não vem tomar chá conosco esta noite? perguntou Augusta.

— Não posso, respondeu a moça, tenho de ir com meu marido visitar o velho Marcos. Conhece, não?

— É aquele homem que me apresentou na noite da seu casamento? perguntou Madalena.

— Justamente; somos parentes. Está muito mal.

— Parecia vender saúde.

— O filho foi lá hoje à nossa casa dar-nos parte da moléstia do pai.

— O dr. Daniel?

— Sim. Adeus!

Amélia saiu.

Depois do baile, era a primeira vez que Augusta ouvia o nome do rapaz, e qualquer que fosse a razão, não pôde ouvi-lo sem algum abalo.

Ficando só na sala, Augusta foi sentar-se ao piano e começou a dedilhar não sei que composição alemã. Mas evidentemente o seu pensamento estava ausente. Algum tempo depois, entrou em casa o tio, acompanhando de Luís.

Depois da recusa que fora dada na província, era a primeira vez que Luís aceitava um convite de B... para jantar em casa dele. Era um escrúpulo pueril, se querem; mas o moço tinha esse escrúpulo e obedecia-lhe involuntariamente. Mas, como resistir às instâncias do velho? E sobretudo como recusar o prazer de respirar o mesmo ar que a moça?

Quando os dois deputados entraram na sala, Augusta levantara-se do piano. O jantar foi imediatamente posto na mesa.

(continua...)

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