Por Machado de Assis (1867)
- Não. Que queres? Fui educada com o recato maior deste mundo; entrando na convivência das outras, e nas distrações nos bailes, não pude logo ao principio tomar afeição alguma. Foi tempo esse que gastei em duas coisas: em ler e observar. Ora, da leitura adquiri idéias talvez um pouco absurdas, mas enfim adquiri, e fora das quais não compreendo o amor. Gosto de amar e ser amada por inspiração, e com verdadeira paixão. Até aqui nada tenho visto além de uns amores vulgares que não contentam o coração.
- E sabes se algum dia encontrarás?
- Talvez... quem sabe?
- Ah! maliciosa! Aí anda coisa!
- Qual!
- Quem sabe se este último, este de hoje, o da flor?...
Nisto passava um grupo. As vozes calaram-se e Ernesto foi obrigado a coser-se mais com a janela e a cobrir-se com a cortina.
O rapaz suava ouvindo aquelas coisas a seu respeito. Sentia o efeito que se sente ao acordar de um sonho em que se parece estar no cimo de uma montanha, quando realmente se está a três ou quatro palmos do chão.
Não era bem o amor dele que se ressentia; era mais o amor-próprio ferido naquelas palavras com que era tratado.
Depois de uma batalha tão renhida e cuidada, reparava ele que não passara de um joguete aos manejos de uma dama ardilosa e namoradeira.
Quando pôde de novo ouvir a conversa que, aliás, lhe chegava entrecortada e incompleta, já as duas moças tratavam de outro ponto da questão.
- Mas o que pretendes fazer? perguntou a desconhecida.
- É conforme o modo por que ele me falar. Talvez o receba com uma secura tal que ele nunca mais se lembre de mim.
- Não tens pena de perdê-lo?
- Ora, rei morto, rei posto.
- Dize antes: reis mortos, reis postos!
Riram ambas, ambas se beijaram, e dando o braço uma à outra saíram dali como dois anjinhos que acabavam de pedir a Deus por uma alma condenada.
Ernesto, apenas sentiu que elas já estavam longe, saiu do seu esconderijo. Que iria fazer? Esteve alguns instantes sem tomar determinação alguma. Ainda não tinha falado a Onda; o melhor meio que lhe pareceu era dirigir-se à moça, cumprimentá-la e não tocar no assunto da carta. Depois, se ela viesse de si ao assunto, falar conforme o tom das suas palavras e procurar fugir ao ridículo e à afronta.
Tendo tomado esta resolução, Ernesto caminhou para o salão em busca de Onda. Tocava-se o sinal de uma quadrilha. Ernesto dirigiu-se para Onda com um sangue frio afetado e fez-lhe, o mais gracioso e indiferente que pôde, um cumprimento. Depois convidou-a a dançar.
- E se eu tiver par? perguntou a moça, um pouco admirada da discordância que notava entre a carta e aqueles modos.
- Paciência; esperarei.
- É tão resignado assim?
- Por que não?
Mas os olhos de Onda, com que Ernesto não contava, iam fazendo já o efeito do costume, de modo que a indiferença com que ele viera determinado começou a dar lugar a uma ternura misturada com humildade. Onda respondeu:
- Pois quero dar-lhe uma prova de amizade. Vou roer a corda ao par.
- Oh! isso!
- Por que não? Está dito: vamos dançar.
E, levantando-se, aceitou o braço de Ernesto, que nada pôde responder a estas palavras, tão estranho lhe pareceu aquele procedimento.
Formou-se a quadrilha e ambos dançaram, tendo exatamente por vis-à-vis a companheira de Onda e um dos rapazes da aposta com Ernesto.
É inútil dizer que nenhum cavalheiro alegou a falta de Onda, visto que ela não tinha realmente par aceito para a quadrilha.
Durante a dança os ressentimentos de Ernesto foram desaparecendo cada vez mais. No fim estava quase como na hora em que escreveu a carta.
Terminada a quadrilha foram os dois para o pequeno terraço da casa. A noite era das mais belas. Esta circunstância serviu de tema para as primeiras palavras de Ernesto, a quem ocorreram no momento as palavras de uma situação de romance que ele lera alguns dias antes.
Enquanto a conversa não passou dessas banalidades, Onda mostrou-se amável a mais não ser. Mas Ernesto, iludido por essas aparências, tendo esquecido perfeitamente a conversa da janela, ousou falar bruscamente na carta e pedir uma resposta. Da primeira vez Onda não respondeu.
Ernesto insistiu na exigência.
Onda convidou-o a levá-la ao salão,
- Mas a carta?
- A carta? disse ela. Que carta?
- A que eu lhe mandei.
- Ah! ainda não li. Tive tanta coisa em que cuidar ontem.
Ernesto enfiou deveras.
- Não leu?
- Não li.
Ernesto não se pôde ter, e referiu a conversa que ouvira entre Onda e sua amiga. Depois de ouvir a narração que Ernesto matizou de pontos de admiração, Onda contentou-se em responder:
- Foi sonho!
Ernesto não disse palavra ouvindo isto.
Houve entre ambos um momento de silêncio.
Onda encetou conversa sobre coisas diversas. Ernesto mal respondia por monossílabos. Enfim, Onda pediu a Ernesto que a conduzisse ao salão. Ernesto deu-lhe o braço e disse lhe que também não se demoraria no baile.
- Mas irá em minha casa amanhã, sim?
- Para quê? Para ouvir a leitura...
E cortou subitamente o que ia dizer.
Mas Onda adivinhou.
- Ora, disse ela. Não falemos mais nisso. Vá, que eu gosto de sua companhia. Ernesto levou Onda ao salão e saiu sem despedir-se de ninguém.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Onda. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1867.