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#Contos#Literatura Brasileira

Onze anos depois

Por Machado de Assis (1875)

— Não; mas só agora o sei, respondeu Eulália, enxugando os olhos. Amo-te deveras; não o tinha compreendido até hoje. És bom, amante, generoso, como nenhum outro homem. Alves sentiu-se comovido e desviou o rosto.

— Oh! não te escondas! exclamou ela; eu sei o que vales.

— Mas por que razão?...

— Vais saber tudo, disse a moça, sentando-se e convidando-o a sentar-se ao pé de si. Alves sentou-se ao pé da mulher.

— Não me casei contigo por amor, sabes, disse ela; conquistaste-me depois o coração a pouco e pouco. Não que eu o soubesse; eu mesma não esperava a vitória que ias obtendo. A razão por que me não casei por amor foi que circunstâncias estranhas me haviam separado de um homem com quem eu então desejava unir-me. Daí veio a tristeza em que eu vivia sempre, que minha mãe não podia explicar, e que tu buscaste apagar por todos os meios que a tua generosidade e o teu amor te sugeriam.

— Esse homem?...

— Esse homem é o teu amigo Moreira.

Alves deu um salto da cadeira em que se achava sentado. Eulália fez-lhe um gesto para que se sentasse de novo.

— Mas a que vem esta história? perguntou Alves.

— Antes de dizer mais nada, promete que me hás de obedecer.

— Mas...

— Prometes?

— Prometo.

— Pois bem, esse homem voltou da Europa e tu trouxeste-o à nossa casa. Onze anos eram passados depois que ele havia partido. Era teu amigo e eu não lhe era estranha ao coração: dois motivos que, juntos, deviam servir de barreira entre ele e a nossa porta. Veio contudo à nossa casa, muitas vezes; devia respeitar-me; não me respeitou...

Dizendo isto, abriu Eulália uma caixinha e tirou de dentro uma carta, a primeira de Moreira, que entregou aberta ao marido.

Alves atirou-se com sofreguidão ao fatal papel; leu-o, machucou-o entre as mãos, levantou-se exasperado. Eulália pediu-lhe que se sentasse outra vez.

— Não lhe respondi, disse ela; era claro que não devia responder. Devia mostrar-te a carta logo ou rasgá-la; não tive ânimo de ta mostrar, nem me pareceu conveniente rasgá la; podia ter necessidade de dizer tudo. Ele insistiu na resposta, e ontem, na nossa sala, atirou-me este bilhete. Foi a indignação que me causou a perfídia do homem que tão serenamente conversava contigo, quando buscava atraiçoar-te, foi essa indignação que me fez soltar aquele grito.

Alves leu o bilhete de Moreira, que nada adiantava depois da carta, apenas a reincidência e a pertinácia de um aparente amigo. Houve naturalmente uma explosão de cólera; Eulália buscou tranqüilizá-lo e o conseguiu.

— Devo antes agradecer, disse ela, a indignidade daquele homem; foi ela que me deixou ver claro no meu coração; minha virtude era bastante; mas a certeza de que eu te amava deveras, o teu verdadeiro amor, a superioridade do teu caráter, tudo isso junto realçou as forças da minha virtude...

A resposta de Alves foi abraçá-la com ternura. Em seguida caminhou para a porta.

— Onde vais? perguntou Eulália.

Alves parou.

— Prometeste obedecer-me, observou a moça.

— Impossível! bradou Alves.

— Oh! eu nada te diria se não tivesse certeza de que evitarias alguma catástrofe. Por Deus te pego; basta o nosso desprezo...

Alves resistiu; Eulália rogou; ambos chegaram finalmente a um acordo: Alves evitaria qualquer lance sanguinolento. Foi depois desta cena que o advogado foi ter com Moreira.

V

Moreira ficou naturalmente assombrado quando viu o gesto do advogado.

— Que é isto? disse enfim.

— Nada; apenas precauções, respondeu Alves pacificamente.

Moreira compreendera tudo; preparou-se para a negativa. Mas até que ponto estaria Alves informado dos seus atos? esta era a dúvida. Entretanto começou Alves a falar:

— Sabes que opinião fiz de ti desde longos anos?

Moreira fez um gesto afirmativo.

— Sabes que opinião formo hoje? Hoje, penso que és um miserável. Moreira estremeceu e fez um gesto para se levantar.

Alves apontou-lhe o revólver.

— Senta-te, disse-lhe.

E continuou:

— És um miserável, como poucos. Estás convencido disso; não me demoro em recordar as tuas ações. Venho por outra coisa.

Moreira estava pálido; dissuadira-se da idéia de que ele vinha assassiná-lo; mas ocorreu lhe a de que ele viria obrigá-lo a um duelo sem testemunhas, e Moreira tinha idéia e temperamento de todo o ponto opostos ao duelo.

Alves continuou:

— Vais escrever e assinar um papel assim concebido: “

— É impossível! clamou Moreira levantando-se de um pulo.

Alves sorriu-se.

— Nesse caso morres, disse ele, porque eu não saio daqui sem obter uma destas duas coisas: ou o papel ou a tua vida.

Moreira deu alguns passos agitados, trêmulo de medo e cólera. De repente uma idéia lhe passou pela cabeça: atirar-se ao amigo e esganá-lo, com tal ímpeto que não lhe desse tempo de resistir, e menos ainda de o atacar. Relanceou um olhar para o advogado, e aproximando-se vagarosamente da mesa, deu um salto sobre o inimigo.

Alves previra aquilo mesmo, de maneira que Moreira antes de o segurar como queria, foi obrigado a recuar diante do revólver encostado ao peito.

Moreira soltou um rugido.

(continua...)

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