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#Comédias#Literatura Brasileira

Os deuses de casaca

Por Machado de Assis (1866)

Como eles hão de ser ferinos e aguçados.

A questão é de forma.

MARTE

(a Vulcano)

Obrigado.

JÚPITER

Proteu,

Não te dignas dizer o que farás?

PROTEU

Quem? eu?

Farei o que puder; e creio que me é dado

Fazer muito: o caso é que eu seja utilizado.

O dom de transformar-me, à vontade, a meu gosto

Torna-me neste mundo um singular composto.

Vou ter segura a vida e o futuro. O talento

Está em não mostrar a mesma cara ao vento.

Vermelho de manhã, sou de tarde amarelo;

Se convier, sou bigorna, e se não, sou martelo.

Já se vê, sem mudar de nome. Neste mundo

A forma é essencial, vale de pouco o fundo.

Vai o tempo chuvoso? Envergo um casacão.

Volta o sol? Tomo logo a roupa de verão.

Quem subiu? Pedro e Paulo. Ah! que grandes

[talentos!

Que glórias nacionais! que famosos portentos!

O país ia à garra e por triste caminho,

Se inda fosse o poder de Sancho ou de Martinho.

Mas se a cena mudar, tão contente e tão ancho,

Dou vivas a Martinho, e dou vivas a Sancho!

Aprendi, ó meu pai, estas coisas, e juro

Que vou ter grande e belo um nome no futuro.

Não há revoluções, não há poder humano

Que me façam cair...

(com ênfase)

O povo é soberano.

A pátria tem direito ao nosso sacrifício.

Vê-la sem este jus... mil vezes o suplício!

(voltando ao natural)

Deste modo, meu pai, mudando a fala e a cara,

Sou na essência Proteu, na forma Dulcamara...

De tão bom proceder tenho as lições diurnas.

Boa tarde!

JÚPITER

Onde vais?

PROTEU

Levar meu nome às urnas!

JÚPITER

(reparando, a todos)

Vêm cá. Ouvi agora... Ah! Mercúrio...

MERCÚRIO

Eu receio

Perder estas funções que exerço de correio...

Mas...

Cena XIII

Os mesmos, CUPIDO

CUPIDO

Cupido aparece e resolve a questão.

Ficas ao meu serviço.

JÚPITER

Ah!

MERCÚRIO

Em que condição?

CUPIDO

Eu sou o amor, tu és correio.

MERCÚRIO

Não, senhor.

Sabes o que é andar ao serviço de amor,

Sentir junto à beleza a paixão da beleza,

O peito sufocado, a fantasia acesa,

E as vozes transmitir do amante à sua amada,

Como um correio, um eco, um sobrescrito, um nada?

Foste um deus como eu fui, corno eu, nem mais

[nem menos.

Homens, somos iguais. Um dia, Marte e Vênus,

A quem Vulcano armara uma rede, apanhados

Nos desmaios do amor, se foram libertados,

Se puderam fugir às garras do marido,

Foi graças à destreza, ao tino conhecido,

Do ligeiro Mercúrio. Ah que serviço aquele!

Sem mim quem te quisera, ó Marte, estar na pele!

Chega a hora; venceu-se a letra.

És meu amigo. Salva-me agora tu, e leva-me contigo.

MARTE

Vem comigo; entrarás na política escura.

Proteu há de arranjar-te urna candidatura.

Falarei na gazeta aos graves eleitores,

E direi quem tu és, quem foram teus maiores.

Confia e vencerás. Que vitória e que festa!

Da tua vida nova a política... é esta:

Da rua ao gabinete, e do paço ao tugúrio,

Farás o teu papel, o papel de Mercúrio;

O segredo ouvirás sem guardar o segredo.

A escola mais rendosa é a escola do enredo.

MERCÚRIO

Sou o deus da eloqüência: o emprego é adequado.

Verás como hei de ser na intriga e no recado.

Aceito a posição e as promessas...

CUPIDO

Agora,

Que a tua grande estrela, erma no céu, descora,

Que pretendes fazer, ó Júpiter divino?

JÚPITER

Tiro desta derrota o necessário ensino.

Fico só, lutarei sozinho e eternamente.

CUPIDO

Contra os tempos, e só, lutas inutilmente.

Melhor fora ceder e acompanhar os mais,

Ocupando um lugar na linha dos mortais.

JÚPITER

Ah! se um dia vencer, contra todos e tudo, Hei de ser lá no Olimpo um Júpiter sanhudo!

CUPIDO

Contra a suprema raiva e a cólera maior

Põe água na fervura uma dose de amor.

Não te lembras? Outrora, em touro transformado,

Não fizeste de Europa o rapto celebrado?

Em te dando a veneta, em cisne te fazias.

Tinhas um novo amor? Chuva de ouro caías...

JÚPITER

(mais terno)

Ah! bom tempo!

CUPIDO

E contudo à flama soberana

Uma deusa escapou, entre outras - foi Diana.

JÚPITER

Diana!

CUPIDO

Sim, Diana, a esbelta caçadora;

Uma só vez deixou que a flama assoladora

O peito lhe queimasse - e foi

Endimião Que o segredo lhe achou do feroz coração.

JÚPITER

Ainda caça, talvez?

CUPIDO

Caça, mas não veados:

Os novos animais chamam-se namorados.

JÚPITER

É formosa? É ligeira?

CUPIDO

É ligeira, é formosa!

É a beleza em flor, doce e misteriosa;

Deusa, sendo mortal, divina sendo humana.

Melhor que ela só Juno.

APOLO

Hein?... Ah! Juno!

JÚPITER

(cismando)

Ah! Diana!

MERCÚRIO

Cede, ó Jove. Não vês que te pedimos todos?

Neste mundo acharás por diferentes modos,

Belezas a vencer, vontades a quebrar,

- Toda a conjugação do grande verbo amar.

Sim, o mundo caminha, o mundo é progressista:

Mas não muda uma coisa: é sempre sensualista.

Não serás, por formar teu nobre senhorio,

Nem cisne ou chuva de ouro, e nem touro bravio.

Uma te encanta, e logo à tua voz divina

Sem mudar de feições, podes ser... crinolina.

De outra soube-te encher o namorado olhar:

Usa do teu poder, e manda-lhe um colar.

A Costança uma luva, Ermelinda um colete,

Adelaide um chapéu, Luísa um bracelete.

E assim, sempre curvado à influência do amor,

Como outrora, serás Jove namorador!

CUPIDO

(batendo-lhe no ombro)

Que pensas, meu avô?

JÚPITER

Escuta-me, Cupido.

Este mundo não é tão mau, nem tão perdido,

Como dizem alguns. Cuidas que a divindade

Não se desonrará passando à humanidade?

CUPIDO

(continua...)

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