Por Machado de Assis (1872)
Romualdo veio pouco depois para a corte, e abriu escritório de advocacia. Simples pretexto. Afetação pura. Comédia. O escritório era um ponto no globo, onde ele podia, tranqüilamente, fumar um charuto e prometer ao Fernandes uma viagem ou uma inspetoria de alfândega, se não preferisse seguir a política. O Fernandes estava por tudo; tinha um lugar no foro, lugar ínfimo, de poucas rendas e sem futuro. O vasto programa do amigo, companheiro de infância, um programa em que os diamantes de uma senhora reluziam ao pé da farda de um ministro, no fundo de um coupé, com ordenanças atrás, era dos que arrastam consigo todas as ambições adjacentes. O Fernandes fez esse raciocínio: — Eu, por mim, nunca hei de ser nada; o Romualdo não esquecerá que fomos meninos. E toca a andar para o escritório do Romualdo. Às vezes, achava-o a escrever um artigo político, ouvia-o ler, copiava-o se era necessário, e no dia seguinte servia-lhe de trombeta: um artigo magnífico, uma obra-prima, não dizia só como erudição, mas como estilo, principalmente como estilo, coisa muito superior ao Otaviano, ao Rocha, ao Paranhos, ao Firmino, etc.
— Não há dúvida, concluía ele; é o nosso Paul-Louis Courier. Um dia, o Romualdo recebeu-o com esta notícia:
— Fernandes, creio que a espingarda que me há de matar está fundida.
— Como? não entendo.
— Vi-a ontem...
— A espingarda?
— A espingarda, o obus, a pistola, o que tu quiseres; uma arma deliciosa.
— Ah!... alguma pequena? disse vivamente o Fernandes.
— Qual pequena! Grande, uma mulher alta, muito alta. Cousa de truz. Viúva e fresca: vinte e seis anos. Conheceste o B...? é a viúva.
— A viúva do B...? Mas é realmente um primor! Também eu a vi, ontem, no Largo de São Francisco de Paula; ia entrar no carro... Sabes que é um cobrinho bem bom? Dizem que duzentos...
— Duzentos? Põe-lhe mais cem.
— Trezentos, heim? Sim, senhor; é papa-fina!
E enquanto ele dizia isto, e outras coisas, com o fim, talvez, de animar o Romualdo, este ouvia-o calado, torcendo a corrente do relógio, e olhando para o chão, com um ar de riso complacente à flor dos lábios...
— Tlin, tlin, tlin, bateu o relógio de repente.
— Três horas! exclamou Romualdo levantando-se. Vamos!
Mirou-se a um espelho, calçou as luvas, pôs o chapéu na cabeça, e saíram. No dia seguinte e nos outros, a viúva foi o assunto, não principal, mas único, da conversa dos dous amigos, no escritório, entre onze horas e três. O Fernandes cuidava de manter o fogo sagrado, falando da viúva ao Romualdo, dando-lhe notícias dela, quando casualmente a encontrava na rua. Mas não era preciso tanto, porque o outro não pensava em coisa diferente; ia aos teatros, a ver se a achava, à Rua do Ouvidor, a alguns saraus, fez-se sócio do Cassino. No teatro, porém, só a viu algumas vezes, e no Cassino, dez minutos, sem ter tempo de lhe ser apresentado ou trocar um olhar com ela; dez minutos depois da chegada dele, retirava-se a viúva, acometida de uma enxaqueca.
— Realmente, é caiporismo! dizia ele no dia seguinte, contando o caso ao Fernandes.
— Não desanimes por isso, redargüia este. Quem desanima, não faz nada. Uma enxaqueca não é a coisa mais natural do mundo?
— Lá isso é.
— Pois então?
Romualdo apertou a mão ao Fernandes, cheio de reconhecimento, e o sonho continuou entre os dous, cintilante, vibrante, um sonho que valia por duas mãos cheias de realidade.
Trezentos contos! O futuro certo, a pasta de ministro, o Fernandes inspetor de alfândega, e, mais tarde, bispo do Tesouro, dizia familiarmente o Romualdo. Era assim que eles enchiam as horas do escritório; digo que enchiam as horas do escritório, porque o Fernandes para ligar de uma vez a sua fortuna à de César, deixou o emprego ínfimo que tinha no foro e aceitou o lugar de escrevente que o Romualdo lhe ofereceu, com o ordenado de oitenta mil-réis. Não há ordenado pequeno ou grande, senão comparado com a soma de trabalho que impõe. Oitenta mil-réis, em relação às necessidades do Fernandes, podia ser uma retribuição escassa, mas cotejado com o serviço efetivo eram os presentes de Artaxerxes. O Fernandes tinha fé em todos os raios da estrela do Romualdo: — o conjugal, o forense, o político. Enquanto a estrela guardava os raios por baixo de uma nuvem grossa, ele, que sabia que a nuvem era passageira, deitava-se no sofá, dormitando e sonhando de parceria com o amigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O programa. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1872.