Por Machado de Assis (1867)
Desde aquele dia em diante a viúva mudou. Mais e mais fria, mais e mais reservada, trazia o espírito do poeta entre a dúvida e o desespero, entre a mágoa e a esperança. Que se teria passado? Em vão o rapaz indagava todos os motivos prováveis e possíveis; não podia atinar com a causa de semelhante transformação.
Enfim, uma noite em que se achavam na casa de uma terceira pessoa, o poeta pôde falar a sós à viúva. Expôs-lhe francamente o que sentia e fez um franco interrogatório sobre a tristeza que a moça apresentava.
As respostas da moça foram ambíguas. O poeta desesperou.
— Por que me não falarás com franqueza, Carlota?
— Quer mais franqueza?
— Oh! não zombes! Tu não calculas o que sofro, nesta incerteza em que me pões. Sê franca, prefiro isso.
— Não sei que te hei de dizer.
— Dize o que quiseres, inventa, se te parece, mas dize alguma coisa. Estas respostas ambíguas, estas evasivas transparentes não me consolam, antes me deitam em pior estado. Não me amas?
— Amo-te.
— Então?...
Esta conversa foi interrompida. Nessa noite não puderam falar mais a sós. O poeta saiu desesperado. Sentia que algum segredo existia no fundo daquela tristeza da moça... A suspeita curvou-se-lhe à cabeceira e introduziu-lhe no espírito mil idéias negras que foram outros tantos demônios que fizeram daquela noite uma noite infernal... O poeta não dormiu. Depois de vãos esforços levantou-se e foi... escrever versos! triste consolação dos que a natureza dotou com o gênio da poesia. No fim de uma hora de trabalho em que as estrofes lhe caíam do bico da pena como lágrimas de dor e de saudade, o poeta tinha transferido parte de sua alma para o papel. Estava mais calmo, sem estar menos triste.
Dois dias conservou-se em casa sem falar a pessoa alguma. De hora a hora esperava uma carta de Carlota. Nada. Ao terceiro dia, desesperado com o silêncio da viúva, resolveu ir, houvesse o que houvesse, pedi-la ao tio. Já estava em caminho quando lhe ocorreu a idéia de que sem completa averiguação dos motivos da tristeza da moça podia expor-se não só ao desgosto, mas ainda ao desar. Voltou para casa e escreveu uma carta à viúva pedindo-lhe explicações.
Veio a resposta. Era um desengano. Carlota respondia que não podia amá-lo, e que se esquecesse dela.
Dizer-lhe o que o poeta sofreu é contar-lhe muita coisa que deve saber de longa data. Sofreu... o que estou sofrendo. Caiu enfermo com uma febre violenta. Só dai a um mês se levantou, mas então já tinha em si o germe de uma enfermidade mais grave que depois o tomou de todo... e há de levá-lo à sepultura.
Durante a moléstia fez loucuras incríveis. Tudo o que podia agravar-lhe o estado e encaminhar-lhe a morte, fê-lo com uma alegria selvagem, mas sincera. Enfim, restabelecido da febre, mas, como disse, doente de outra doença, o poeta levantou-se e não teve mão em si. Resolveu ir procurar a viúva. Queria a todo o transe conhecer as causas da recusa de Carlota, e sobretudo queria lançar-lhe em rosto a sua perfídia, de modo a não parecer covarde.
Carlota recebeu-o com um gesto de surpresa. Foi a ele e perguntou-lhe se já estava bom. Ele descobriu logo o fingimento daquela solicitude e quis mostrar que não se enganava. Suas exprobrações foram enérgicas e veementes. Carlota ouviu-o com uma espécie de torpor.
Depois, quando a alma do poeta derramou em palavras amargas a dor de que estava possuído, veio uma prostração moral, e o poeta, já mais brando, pediu a Carlota uma explicação da carta que esta lhe mandara.
Então, a viúva, fingindo um grande esforço, deu em pleno rosto ao namorado poeta uma resposta que equivalia a um tiro. Disse-lhe que se ia casar, e com Venâncio. Afigurava-se ao poeta esta união como tão monstruosa, que ao princípio não quis acreditar nas palavras de Carlota. Olhou surpreso para ela, mas surpreso como o homem que não dá crédito, e intimou-lhe que falasse seriamente.
— Mais seriamente do que falo? perguntou Carlota.
— Sim, seriamente.
— É isto.
— Pois deveras...
— É verdade.
O rapaz sentiu que lhe faltava o chão debaixo dos pés. Pareceu-lhe que ia cair em um abismo. É assim que deve ser a vertigem do náufrago. Como o náufrago, o poeta agarrou-se ao primeiro objeto que encontrou. Era um sofá. Encostou-se ao sofá e olhou fixo para Carlota.
— Sei que isto lhe há de doer, mas é necessário...
— Mas ama-o?
— Amo.
— Ah! não diga isso!
— Por que não?
E fazendo esta pergunta a moça mostrou um ar de desdém que o poeta humilhado, abatido, indignado, não pôde dizer mais palavra. Foi, com passo incerto e vacilante, buscar o chapéu que se achava sobre o piano, e cumprimentando a viúva friamente, encaminhou-se para a porta.
A moça deu alguns passos para ele e murmurou:
— Só uma coisa lhe peço.
O poeta deteve-se. Era ainda uma esperança que lhe surgia no meio daquela amargura e desespero de que enchera sua alma. Interrogou-a com o olhar. A moça, pregando os olhos no chão, disse:
— Não me queira mal.
— Que não lhe queira mal? Mas isto é zombaria... Não lhe queira mal!... Acha que me faz
um beneficio... Não vê que me matou?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.