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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Alguns passos discretos e tristes

Por Gregório de Matos (1696)

2
O cansaço, e amargura,
que te custa o teu correr,
tornas logo a converter
em leite, mel e doçura:
eu correndo à sepultura
cada vez me dano mais:
somos muito desiguais
em converter dissabores,
tu te voltas com favores.
Eu vou, e não torno mais.

3
Suposto que sem medida
roubando vás dessa sorte,
nem por isso passas morte,
que dure, ou seja sentida:
eu, enquanto dura a vida,
se cometo absurdos tais,
sem que me valham meus ais,
pago mui pelo miúdo,
o que a morte faz a tudo,
Nascemos mui desiguais.

4
Afogas mil passageiros,
mas tu a ti não te prendes,
antes mais forçoso emprendes
submegir montes, e oiteiros:
eu, se não são verdadeiros
meus passos para a Deus ir,
me encaminho a destruir:
tudo em mim é puro estrago,
diversamente naufrago,
Hemo-nos de dividir.

5
Inda que assim te despenhes,
não vejo não naufragar-te,
antes mais vejo espalhar-te
por campos, vales, e brenhas:
de mim pobre não há senhas,
em chegando a me fundir
não me hei de reproduzir,
antes para meu encanto
fico num contino pranto,
Em ti tudo é repetir.

6
Qualquer tronco, que por si
se vê murcho, ou molestado,
este mui regozijado
se arranca, e vai trás de ti:
eu, se culpas cometi,
tudo é chorar, e gemer,
ninguém me dá seu poder,
ando corrido, e feneço,
e tu, enquanto eu padeço,
Vazas, e tornas a encher.

7
És vandoleiro, e pirata
de ramos, flores, e frutos
teus procederes são brutos,
e a ti ninguém te maltrata:
eu, se falta em mim se trata,
e nela chego a morrer,
tudo em mim é padecer,
peno toda a eternidade,
tu tens outra liberdade,
Em mim tudo é fenecer.

8
Tens mui tiranos efeitos
no furor, com que devoras,
e todos todas as horas
te têm notáveis respeitos:
eu, aguardam-me sujeitos
para me mais estragar,
gusanos para me dar
o pago, que hei merecido,
tu vives obedecido,
Tudo em mim é acabar.

9
Vê, quanto tens destruído,
quanto tens desbaratado,
o que tens morto de gado,
de toda a sorte nascido:
mostra-te disso doído?
não: que não tens que penar,
em mim sim tudo é chorar,
tudo em mim é sentir danos,
tudo em mim são desenganos.
Tudo em mim é sepultar.

10
Enfim certamente és rio,
foste mar, mar hás de ser,
mas eu só devo de crer,
que fui, e serei pó frio:
assim creio, assim confio,
nele me hei de converter,
os bichos me hão de comer
hei de todo acabar,
hei de estreita conta dar,
Finalmente hei de morrer.

SE NÃO POSSO IR RASTEJANDO

MOTE
Como se pode alcançar
de dous, que se querem bem,
qual terá maior pesar,
se o que vai para tornar,
se o que espera, por quem vem.

1
Se não posso ir rastejando
a pena, que pode ter,
quem há temor de perder
a prenda, que está logrando:
e se me confundo, quando
me disponho a penetrar
aquela pena, e pesar,
que deixa um bem já perdido,
do mal de ausente o sentido,
Como se pode alcançar?

2
Parece uma pena chica,
que chica é por tal arte,
que inda que a dor se reparte,
toda em um se multiplica:
pena, que mais se duplica,
quanto mais partida vem,
na extensão o aumento tem,
que a pena, que a ausência ordena,
sobre ser de dous, é pena
De dous, que se querem bem.

3
Se é pena de dous, que se amam,
quem não vê, que em tal querer
dobrado incêndio há de haver,
se há dous fogos, que se inflamam:
quando dous a um tempo clamam,
por força se há de aumentar
a um clamar outro clamar;
assim no mal de não ver-se
cresce a pena, sem saber-se
Qual terá maior pesar.

4
Quem vai, porque a pena rima,
deixa a alma, que se inflama,
para que anime, adonde ama
muito mais, que adonde anima:
quem fica, e se desanima,
quer logo as almas trocar,
por confundir, e ocultar,
qual mais sabe padecer,
quem fica para não ver,
Se o que vai para tornar.

5
Nesta confusão de amor
duvida a perplexidade,
nunca se sabe a verdade
sobre a ventagem da dor:
mas o discreto Leitor,
que quer lhe resolva em bem,
o que o mote em si contém,
veja, que tem mais cuidado,
quem não vem, sendo esperado,
Se o que espera, por quem vem.

NUMA ILUSTRE ACADEMIA

MOTE
Perguntou-se a um discreto,
qual era a morte tirana:
respondeu, que estar ausente
daquilo, que mais se ama.

1
Numa ilustre academia,
que com ciências infusas
fizeram as nove Musas,
onde Apolo presidia:
leu o Secretário Admeto,
um problema mui seleto
propôs, para argumentar-se,
e havendo de perguntar-se,
Perguntou-se a um discreto.

2
Ele, que estava distante,
e não ouvia a proposta,
não deu por então resposta
de Surdo, e não de ignorante:
mas vendo no seu semblante
a academia Sob'rana,
que tinha a desculpa lhana,
lhe advertiram com agrado,
que lhe haviam perguntado:
Qual era a morte tirana.

3
Ele entonces como um raio
prontamente, e sem detença
tomando vênia, e licença
fez consigo um breve ensaio:
o mais horrível desmaio
que um peito amoroso sente,
é a falta do bem presente:
ficou-lhe a resposta lhana;
e a qual é a morte tirana,
Respondeu, que estar ausente.

(continua...)

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