Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira#Literatura

Brites

Por Gregório de Matos (1696)

4
E por fim não há rigor,
que abalar possa esta fé,
pois nela, e em mim se vê,
que a Lise só tenho amor:
não merecer seu favor
não basta para os cuidados,
pois da pena acrisolados,
requintando idolatrias,
vendo de amor as porfias
Alegres já são passados.

ACABA O POETA DE CRER A RESOLUÇÃO DE BRTTES, ESTRANHANDO LHE EM CERTA OCCASIÃO HUM TAL DESAPEGO.

MOTE

Que fostes meu bem, mostrastes,
mas já agora não sentistes,
que os bens não duram nos tristes
sem que padeçam contrastes.

1
Horas de contentamento
sempre são poucas, e breves,
que os gostos, como são leves,
voam como o pensamento:
trocou-se o gosto em tormento,
Lise, porque vos trocastes,
e como um mal me deixastes
em câmbio de um bem, Senhora,
em seres meu mal agora,
Que fostes meu bem, mostrastes.

2
O mal sempre é substituto
do bem, que a fortuna veda,
e que ao bem o mal suceda,
é já lei, é já estatuto:
um do outro é flor, e fruto,
e num bem que me aplaudistes,
porque vós mo repetistes,
tempo sei eu, Lise fera,
que chorareis, se o perdera,
Mas já agora não sentistes.

3
Não me espanto, Lise, não
dessa dureza, e rigor,
porque da fonte do amor
é, que nasce a compaixão:
não sinto em minha paixão
ver, que vós a não sentistes;
sinto saber, que a urdistes:
como há de chorar-me alguém,
se todos sabem mui bem,
Que os bens não duram nos tristes?

4
Nunca da vossa dureza
dor alguma se esperou:
porque aonde amor faltou,
falta a lei da natureza:
logrei na vossa beleza
os bens, que me dispensastes,
enquanto a ira aplacastes
do mar dessa formosura,
que não dá bens a ventura,
Sem que padeçam contrastes.

A MESMA COM IRAS DE NAMORADO.

MOTE

Mi rezelo me dizia,
quando te empecé a querer,
que en effecto eras muger,
y es nescio, quien dellas fia.

1
Quize-te, Beliza, amar,
y por mas que iba queriendo,
iba conmigo diziendo,
que me havias de engañar:
yo nó quise acreditar
el daño, que presumia,
mas viendo tu aleyvozia,
luego al instante alcancé,
que era cierto aquilo, que
Mi rezelo me dizia.

2
Iba queriendo, y dudando
traz de mi misma sospecha
que el aviso no aprovecha,
al que se vá despenhando:
hasta que cahi pagando
mi imprudente proceder,
y es justo, que llegue a ver
afflicto mi coraçon,
pues no segui la rason,
Quando te empecé a querer.

3
Saliste al fin con tu engaño,
pues en tu naturaleza,
como ya mas ay firmeza,
siempre tuvo assiento el daño:
toco aora el desengaño
del mal, que hize en te querer,
pues para no pertender
firmeza en tu pecho hallar,
luego deviera pensar,
Que en effecto eras muger.

4
Muger eras, falsa fuiste,
falsa devias de ser,
pues si nasciste muger,
obras, como qual naciste:
muy pouco a mim me offendiste,
porque yo te conocia,
y nunca, Beliza mia,
aguardé de tus verdades,
ni fié de tus lealtades,
Y es nescio, quien dellas fia.

RESPONDE O POETA A HUM MAL CONSIDERADO AMIGO, QUE O MATRAQUEAVA DE COBARDE NESTA MATERIA.

Deixei a Dama, a outrem, mas que fiz?
Deixar o começado é ser falaz,
Porém Amor por louco, e por rapaz
Ao mesmo tempo afirma, e se desdiz.

Consenti de outro amante ações gentis,
Largando o bem, fiquei dele incapaz,
Se eu não souber fazer, o que outrem faz,
Que muito, que outrem queira, o que eu não quis.

O Sítio, em que a vontade a mim me pôs,
Do qual fora a razão já me conduz,
Seja a outrem prisão, seja cadoz.

Seja ele o infeliz, que eu ser propus
Alexandre, que em laços cortou nós,
Teseu, que em labirintos achou luz.

COSTUMAVA CANTAR O POETA ESTA LETRA A SEU INSTRUMENTO EM QUANTO LHE DUROU O PEZAR DAS TYRANNIAS DESTA DAMA

Forasteiro descuidado,
se acaso chegar vos move
ou negócio, ou pertensão,
curiosidade, ou amores.

Guardai-vos, digo mil vezes,
de pôr os olhos nas torres
dessa traidora cidade,
que tal basalisco encobre.

De um serafim o mais belo,
que o Céu corta, os ares rompe,
tão cruel, e tão tirano,
qual jamais admira o orbe:

Com estes sinais vos dou
exemplo nas minhas dores,
forasteiro, caminhai,
queira, Amor, que vos não olhe.

Caminhai, digo outra vez,
prevenido de temores,
que eu já me vou a enterrar,
porque me condena a morte.

DESENGANADO O POETA AO EFFEYTOAREMSE AQUELLAS VODAS COM HUM MOÇO LICENCIADO SAHIO RAYVOSAMENTE COM ESTA SATYRA.

1
Casai-vos, Brites, embora,
mas adverti, que em solteira
se até aqui fostes rendeira,
sereis costureira agora:
heis de coser cada hora,
para enganar o esposado,
esse berbigão rasgado:
saiba o Moço de corrida,
que andais por ele cozida,
quando ele por vós assado.

2
Se por douto se vos vende,
bem sabe a filosofia,
mas tão pouca astrologia,
que, o que é virgo, não entende:
e se na esfera pertende
lançar linhas sem medida,
ignorância é conhecida,
pois a saber as da esfera,
logo as linhas conhecera,
com que vos estais cosida.

(continua...)

123456
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →